FÉ E RAZÃO

Edmund Burke, o pai dos conservadores

Braulia Ribeiro · 20 de Novembro de 2022 às 11:14

Na trajetória intelectual do autor de Reflexões sobre a Revolução na França, o debate teológico serve como base do pensamento político



O Brasil, país do Homo cordialis, é avesso a discussões e debates. Preferimos sempre alcançar a harmonia coagindo todos a um assentimento silencioso à opinião proferida com mais poder, seja esse poder retórico ou explícito. O que não gostamos é de ver a razão vencer debates. Quando isso acontece, arrumamos mil e uma maneiras de desmerecer o ganhador do debate e vitimizar o pobrezinho que perdeu por burrice ou incapacidade de articular seus pensamentos com coerência. Para o brasileiro, a harmonia à custa do silêncio e a delicadeza falsa com o fraco são elementos necessários da ordem social.

Por isso não me admiro ao perceber que a principal palavra de ordem proferida por pastores e teólogos evangélicos de influência nas redes sociais hoje é pacificação. O Brasil, para esses harmônicos seres, não deve ser tirado do lodo, moralizado e limpo de seu lixo – mas deve ser pacificado. Ou seja, quem protesta contra a lama que cobre as instituições deve se calar pelo bem coletivo. Que afundemos na fossa do crime, mas que o façamos em paz.

Pois bem, o ambiente teológico da época que nos legou as grandes discussões (livros) que hoje inspiram nosso imaginário político era bem diferente. Na Inglaterra do final do século XVIII, travava-se um debate entre as mais diferentes perspectivas de teológica política. Como não se compartimentalizava a discussão política dentro do silo acadêmico-secular, era comum os ministros, bispos e teólogos participarem do debate político tanto ao trazer sua opinião teológica para o espaço publico, como trazendo a discussão política para dentro das igrejas, fossem elas de qual orientação fossem, das mais heterodoxas às mais tradicionais. Para repetir um ambiente semelhante no Brasil de hoje, precisaríamos de embates intelectuais sobre o momento político atual civilizadamente entre presbiterianos, batistas, pentecostais, católicos e representantes de outras religiões. Ao contrário do que afirmam alguns pastores e padres brasileiros, política então era sim coisa a ser discutida, pensada e vivida dentro das igrejas.

Vou resumir aqui um artigo muito interessante do autor Timothy Cuttler publicado na revista americana de política e teologia Providence. Cuttler traça um panorama teológico da Inglaterra do século XVIII e põe Edmund Burke (1729-1797) dentro desse contexto, demostrando como o pai do conservadorismo foi moldado nas discussões teológicas da Inglaterra, principalmente a Igreja Anglicana, uma das principais fontes de sua teologia e de pensamento político. Para o texto original de Clutter, acesse aqui.

"No final do século XVIII, os oponentes mais ruidosos da constituição inglesa eram os dissidentes heterodoxos. O ministro unitarista Richard Price apoiou a Revolução Americana porque imaginou um “império, estendido por um imenso continente, sem bispos, sem nobres e sem reis”. Para Price, as causas contra as monarquias e as igrejas trinitárias da Europa estavam inextricavelmente ligadas. Tanto os monarcas quanto os bispos reivindicavam sua autoridade de Cristo, mas para os unitaristas e deístas, que negavam a divindade de Cristo, vincular o poder terreno dos magistrados e bispos a Cristo era uma corrupção de sua moral. Da mesma forma, um amigo de Price, Thomas Paine, não pode ser totalmente compreendido sem referência às suas visões teológicas heterodoxas. Paine mostrou suas cores teológicas aos poucos. Em Senso Comum e nos Direitos do Homem, ele fez ataques pragmáticos às alianças igreja-estado da Europa, muitas vezes empregando imagens e história bíblicas para apelar aos dissidentes trinitários. Quando publicou A Idade da Razão, Paine começou a ser explícito em sua heresia. Ele acreditava que o Novo Testamento era uma falsificação e a doutrina da Trindade uma corrupção.

Na Inglaterra, os clérigos anglicanos reconheceram desde o início que a política radical era um problema fundamentalmente teológico. A cúpula anglicana olhava as outras confissões com muita suspeita. Mesmo o movimento wesleyano, muito conservador, que apoiou o acordo constitucional anglicano e monarquista até o século XIX, foi descrito pelo bispo Butler como “uma coisa muito horrível”. Essa divisão permeou a expressão das ideias anglicanas no direito, literatura, academia e teologia. Ao invés de tentar calar os opositores, como seria a estratégia brasileira, os anglicanos se ocuparam em escrever e muito, debatendo com os opositores e construindo uma sólida argumentação política antirrevolucionária.

O acordo constitucional anglicano e monarquista da Inglaterra do século XVIII foi notavelmente tolerante e centrista, ao mesmo tempo em que permaneceu explicitamente anglicano. Opunha-se à teocracia do biblicismo puritano intolerante, à monarquia de direito divino infalível dos jacobitas católicos e ao zelo heterodoxo ou (explicitamente anticristão) dos revolucionários. Este acordo constitucional contou com o apoio tanto dos Whigs quanto dos Tories. Era um meio-termo baseado no estado de direito que era o mais tolerante possível, sem comprometer o que considerava essencial para uma sociedade cristã.

Quando a sociedade inglesa foi abalada pela revolução americana, os tumultos de Gordon, a revolução francesa e os problemas na Irlanda, o establishment anglicano naturalmente identificou a dissidência heterodoxa como o veículo mais provável para trazer a revolução para a Inglaterra. As controvérsias políticas eram frequentemente acompanhadas por guerras de panfletos teológicos. John Wesley e o Arcebispo de York escreveram folhetos respondendo a Richard Price sobre a Revolução Americana. Em uma revisão de 150 folhetos legalistas da década de 1790, Ofir Haivry determinou que o clero anglicano era o autor de metade dos folhetos cuja autoria pode ser firmemente estabelecida. Contar aqueles com laços com a igreja anglicana empurra os anglicanos para uma maioria substancial.

Quase nenhum desses panfletos é amplamente lido. Do lado anglicano, a maioria dos nomes é esquecida. Na verdade, todos os argumentos e citações no parágrafo anterior vêm de um tratado anglicano específico. É o único panfleto anglicano lido amplamente lido até os dias de hoje: Reflexões sobre a Revolução na França, de Edmund Burke.

Burke é uma figura anglicana que utilizou argumentos anglicanos em defesa de um acordo constitucional anglicano. Isso deveria ser óbvio. O antagonista escolhido de Burke em Reflexões é ninguém menos que Richard Price. Pelo menos um terço do livro é uma defesa das igrejas trinitárias da Inglaterra e da França contra seus detratores heterodoxos. Burke acreditava que a Revolução Americana se devia em parte à 'dissidência da dissidência'.

É natural que Burke tenha plena consciência dos perigos representados pela teologia radical dissidente. Burke conhecia Richard Hooker, e sua dívida com Hooker, é evidente tanto na substância quanto no método. Diz-se que Burke era capaz de citar de memória a passagem de Hooker: 'A razão pela qual admiramos as coisas mais antigas é porque uma está menos distante da substância infinita, a outra da continuidade infinita, de Deus'. Esta passagem é crucial para entender a crença de Hooker e Burke em uma história providencial. Assim como Hooker, Burke acreditava em uma opção preferencial pelo que já estava estabelecido. Mas, ao contrário dos burkeanos modernos que defendem o status quo apenas porque é o status quo, Burke e Hooker acreditavam que os estabelecimentos deveriam ser preferidos porque foram estabelecidos pelo próprio Cristo ou por civilizações e instituições cristãs que foram guiadas pela Providência. (Vale a pena observar que o argumento 'conservador', que desqualifica a resistência e que advoga a aquiescência pacífica da Direita à posse ilegítima do molusco por defender o status quo contra a 'revolução', ignora a natureza do status quo que vamos aceitar.)

Os exemplos do pensamento explicitamente cristão de Burke são numerosos. Ele achava que os britânicos perderam as colônias americanas como punição divina pelo tratamento dado à Índia. Ele se opôs à concessão de representação direta aos americanos no Parlamento porque acreditava que os proprietários de escravos, que se permitiram “direitos ilimitados sobre as liberdades e a vida dos outros”, não deveriam ter voz na elaboração de leis para um país cristão.

Muito do que Burke defendeu foi dessacralizado. Em uma sociedade pós-cristã, as virtudes do totalmente cristão Burke perderam sua coerência. Burke é hoje “o fundador do conservadorismo moderno”, embora aplique argumentos que lhe foram transmitidos séculos antes. Ele às vezes é um liberal e um reformador, embora defenda um acordo religioso expressamente anglicano. Burke é um historicista, um romântico, um católico enrustido, um reacionário ou um progressista. Ele estava à frente de seu tempo ou atrasado. Muitos desses rótulos têm elementos de verdade, mas nenhum captura Burke com a abrangência que o posiciona corretamente como um anglicano comum da sociedade inglesa do século XVIII.

Burke também não é identificado como um pensador anglicano porque muitos de seus amigos e inimigos, por assim dizer, se dispersaram. Samuel Johnson foi expedido para departamentos de inglês. Blackstone, para faculdades de Direito. Wesley, para os seminários. Burke e Paine, para os departamentos de ciência política. Uma familiaridade passageira com cada um desses homens e suas obras tornaria impossível ignorar as preocupações religiosas da sociedade em que viviam. Mas seu estudo foi isolado e desligado de seu contexto teológico.

Burke continua relevante, mas não pelas razões proclamadas pelos burkeanos modernos. Burke defendeu uma ordem constitucional centrista que evitava o radicalismo do biblicismo calvinista e o integralismo católico romano. Mas ele o fez mantendo um compromisso com uma visão essencialmente cristã do Estado e da sociedade. Não precisamos de Burke hoje para uma defesa revigorada do status quo ou para advogar por uma reforma gradual. Nem precisamos de outro ensaio que nos encoraje a valorizar nossos “pequenos pelotões”. Em vez disso, precisamos de Burke porque ele entendeu os fundamentos teológicos de nossa ordem social. Burke é um defensor das instituições da civilização cristã. Compreender isso nos liberta da necessidade de defender instituições falidas simplesmente porque essas instituições existem.

Nas famosas linhas de abertura de The Laws of Ecclesiastical Polity, Hooker diz que escreveu “por nenhuma outra causa, ainda por essa: para que a posteridade saiba que não nos silenciamos apaticamente, enquanto as coisas aconteciam num sonho”. Burke certamente teria sentido o mesmo. Embora muitas das coisas que ele defendeu tenham passado, o testemunho de Burke permaneceu para nós.”

 


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