INDEPENDÊNCIA DO BRASIL

Dom Bertrand: “Hoje há 2 países: o Brasil profundo e cristão e o da esquerda, com aparelhamento do Estado”

Claudio Dirani · 7 de Setembro de 2021 às 13:32

Para marcar os 199 anos de nossa independência, o BSM visitou a Casa Imperial do Brasil, em São Paulo, para aprender com Dom Bertrand – um dos herdeiros de D. Pedro I – como resgatar os valores semeados na fundação de nossa nação

A partir deste momento, começa a contagem regressiva para os 200 anos da independência do Brasil. Daqui a exatos 365 dias, em 7 de setembro de 2022, nosso país – caso sobreviva à pior crise já experimentada entre os poderes em sua história – voltará todas suas atenções para as memórias do momento em que Dom Pedro I – com grande suporte de sua mulher, a imperatriz Dona Leopoldina – decidiu romper – com sucesso – com a Coroa portuguesa.

Com um olhar para o futuro – e preocupado em preservar as tradições – o Brasil Sem Medo presenteia o leitor com uma inspiradora conversa com um dos herdeiros diretos de nossa independência.

Do alto de seus 80 anos, Dom Bertrand de Orléans e Bragança nos recebeu nas dependências da Casa Imperial do Brasil, estabelecida no verdejante Pacaembu, com um misto de nobreza e simplicidade. Durante mais de uma hora de conversa, o bisneto da Princesa Isabel do Brasil só comprovou que sua devoção pelos tempos de nossa monarquia continua poderosa – talvez, só não mais forte do que a devoção pela Igreja Católica e seus valores que construíram o Brasil e a civilização ocidental.

“Antigamente ainda havia o ensino religioso. Hoje não existe mais”, lamenta Dom Bertrand.

A seguir, você acompanha o melhor de nossa entrevista, realizada em um ambiente cercado por imagens de imperadores e de retratos de nossa, um dia, vibrante monarquia.

Brasil Sem MedoEm momento de grave crise, onde os poderes tentam interferir na competência do executivo, como o Sr. enxerga o futuro do Brasil?

Dom Bertrand – Primeiro, precisamos começar com um ponto. Precisamos compreender o Brasil como ele surgiu historicamente. Um país abençoado, que teve como primeiro nome Terra de Santa Cruz. Já havia uma harmonia que pressagiava algo que marcou nossa história: a integração dos povos que lá se encontravam. Há duas citações para compreender a nossa história. A carta de Pero Vaz de Caminha mostra como os índios ajudaram os portugueses e assistiram à Santa Missa. Eles não sabiam exatamente o que era, mas intuíam que algo sagrado se realizava.

BSM – O sr. entende por isso que a crise brasileira é bem mais profunda. Ela não é só política.

Dom Bertrand – Exato.  Hoje temos uma degradação muito grande. Resulta de uma crise que é muito mais uma crise religiosa e moral do que política. Sofremos as consequências do laicismo do século XX. Tiraram Deus do nosso panorama. Quando isso acontece, o estado toma o papel de Deus e se julga no direito de julgar sobre tudo. Aqui no Brasil, os que se opõe à atual situação que assistimos nos últimos tempos, no fundo, eles querem voltar ao estado de corrupção e, sobretudo, a um estado que não tenha Deus em nosso panorama. O estado laico tem como consequência a mediocridade e a tirania. Aqui no Brasil, querem o caos e a corrupção. Mas o verdadeiro Brasil é religioso.

BSM – Estamos perto do 7 de setembro, que será marcado por manifestações pela liberdade em todo o Brasil. Como o sr. vê os 199 anos desse marco histórico?

Dom Bertrand – Nossa independência foi mais uma emancipação de um filho a conselho paterno do que resultado de guerras sangrentas. A vinda de D. João VI não foi uma fuga, mas uma retirada estratégica brilhante. Napoleão odiava D. João VI. Ele dizia que foi o único general que o enganou. A consequência da vinda de D. João VI foi que com isso ele conseguiu salvar todos os territórios de Portugal. Sobretudo o Brasil. Quando as tropas napoleônicas chegaram às colinas que circundam Lisboa, chefiadas pelo general Junot, o general viu as naus partindo – daí nasceu a expressão: deixar a ver navios. O general Junot ficou a ver navios.

BSM – Como o sr. descreve a formação do Brasil, a partir da chegada da família real e a proclamação da independência?

Dom Bertrand – Em nossa independência, havia uma proposta de João Bonifácio que sugeria a formação de uma comunidade de língua lusa, incluindo Brasil, Portugal, Algarves, Índia, Angola, Macau, Moçambique e até o Timor. Dom João assumiu esse projeto e queria ficar no Brasil. Então, ele só voltou a Portugal em 1821 forçado por uma revolução no Porto que estava levando o país ao caos. Mesmo assim, ainda deixou o filho, Dom Pedro I, como príncipe regente. Seu último conselho a Dom Pedro, antes de partir foi o seguinte: “Meu filho, considere que mais cedo ou mais tarde que o Brasil será independente.  Ponhas tu uma coroa em tua cabeça antes que um aventureiro faça. Isso nos garantiu, por meio da independência, a nossa integridade territorial, política e social admirada e até invejada por nossos vizinhos.

BSM – Qual seria a mais forte característica da nossa independência?

Dom Bertrand – Não há ideias de secessão no Brasil, diferente dos outros. Nossa unidade nunca esteve em risco e devemos isso a Dom João VI e Dom Pedro I. Foi assim que nasceu o Brasil. Territorialmente, somos o 5º país do mundo, mas potencialmente somos o primeiro. Não há país no mundo que tenha tantas terras cultiváveis como o Brasil.

BSM – Por falar em recursos naturais, o Brasil sempre viveu assombrado por grupos interessados em nossas riquezas.

Dom Bertrand – Sim. E ainda temos todos os minérios imagináveis. Por isso que temos tantas ONGs que se fixam aqui que cobiçam nossas riquezas. Eles querem paralisar o Brasil, citando problemas ambientais. Problemas, digo, “entre mil aspas” (risos). No meu livro (“Psicose Ambientalista - Os Bastidores do Ecoterrorismo Para Implantar Uma Religião Ecológica, Igualitária e Anticristã” – 8ª edição), que é polêmico, eu cito isso. Ninguém até hoje refutou. O estado do Amazonas, na última vez que estive lá, estava com 97% de suas florestas, como nos tempos de Cabral. Mas a propaganda é que estamos “queimando o pulmão do mundo”.

BSM – É sabido que o coração da Amazônia é muito úmido, praticamente impossível de ser queimado.

Dom Bertrand – Sim. No coração da Amazônia, na parte úmida, não queima nem com lança-chamas. É preciso fazer uma distinção entre incêndio e queimadas. A queimada é uma prática antiga que as pessoas faziam para facilitar uma nova sementeira. Hoje em dia, com o plantio direto, que é uma inovação brasileira, isso mudou muito. Outro exemplo. Olhe para o resto do mundo. Em Portugal houve um incêndio terrível onde morreram muitas pessoas. Você já ouviu falar de queimadas onde morreram pessoas aqui no Brasil?

BSM – Gostaria de abordar os problemas de nossa atual constituição e estender para a intrusão dos poderes, como acontece hoje entre o STF e o executivo, incluindo ordens do Supremo interferindo nas decisões do Senado. Isso era bem diferente nos tempos da monarquia.

Dom Bertrand – Exatamente. A primeira constituição, de 1824, sempre foi considerada, tecnicamente pelos constitucionalistas, a melhor que já tivemos. Simples, precisa e concisa. Havia, além do executivo, legislativo e judiciário havia o poder moderador – o quarto poder – de acordo com o artigo 98. Ela visava harmonização dos demais poderes.

Numa crise, ele dissolvia o parlamento e convocava novas eleições.  Entre 1840 e 1889, no segundo reinado, houve uma grande harmonia entre os poderes. Não tivemos grandes crises durante o segundo reinado. Foi o mais longo período constitucional de nossa história. Hoje nós temos um desentendimento completo. O que vimos em 2016? O que vimos em 2016 foi exatamente o povo que saiu às ruas bradando, inconformado com os rumos que deram à nação.  A agenda tendia a fazer o Brasil a uma república socialista.

Eles sabiam que existia uma agenda vermelha que visava fazer do Brasil uma república socialista. Quem tem qualquer dúvida sobre isso, basta ler o PNDH-3 (plano nacional de direitos humanos 3) do Lula, aprovado ao apagar das luzes de seu governo. Tudo passaria a depender dos conselhos municipais de direitos humanos, que responderiam aos conselhos estaduais e que responderiam à secretaria da Presidência da República. Ou seja: o Soviete Supremo.

Hoje há dois Brasis: o Brasil profundo e autêntico e o Brasil cristão. E o outro, o de esquerda e o outro de esquerda que aparelhou toda a estrutura do estado em todos os níveis.

BSM – Em todas as esferas da administração pública parece haver o desejo de implantar conselhos populares, o que paralisaria as funções do legislativo.

Dom Bertrand – Sim, as chamadas audiências públicas. Procure a palavra no dicionário. Soviete é conselho de comunidade de base. É exatamente isso que seriam as assembleias populares. Antes de qualquer obra, nos governos anteriores, era preciso haver uma audiência pública para que toda população discutisse. Isso é praticamente possível. Por exemplo, fizeram uma audiência pública com índios e ribeirinhos sobre a construção de uma hidrelétrica na região Amazônica e eles não compreenderam nada do conselho técnico. Isso gerou pânico. As ONGs diziam que (a hidrelétrica) teria modificação no clima e isso é um completo absurdo. As ONGs querem manipular a população ribeirinha para paralisar o progresso do Brasil. Veja, estamos numa crise energética porque não permitiram construir mais hidrelétricas. Roraima, por exemplo, depende da Venezuela. Essas são as ONGs que manipulam os índios e impedem que façam centrais hidrelétricas na região Amazônica.

BSM – O que o sr. acha da narrativa de partidos que ainda pregam pela reforma agrária?

Dom Bertrand – Hoje praticamente não se fala mais de reforma agrária no Brasil. Foi um tal fracasso tão grande que ninguém tem coragem de voltar com a agenda de divisão de terras e minifúndios de agricultura de subsistência. A reforma agrária, na verdade, é socialista. Quando se fala em reformar uma casa se fala em melhora-la. Não a dividir em pequenos cubículos para uma família morar apertadinha. Assim também é na agricultura. É normal que haja pequenas, médias e grandes propriedades que vivam em harmonia. Assim é a história da agricultura no Brasil. Segundo estatísticas oficiais, o Brasil alimenta hoje mais de um bilhão de pessoas.

O Brasil herdou dos governos de esquerda, segundo dados do Incra, mais de 84 milhões de reforma agrária. O resultado foi um fracasso absoluto, a ponto que Lula se orgulhava de dar cestas básicas aos assentados. 

Eu desafio qualquer um a me mostrar que alguma reforma agrária deu certo. O Brasil é um país que tem uma distribuição de terra muito boa. Pegue os EUA, por exemplo, onde existem 1 milhão de produtores.  O Brasil é um país menor e tem mais de 5 milhões. Além disso, há uma harmonia entre pequenos, médios e grandes agricultores. A distribuição de títulos de terras, como tem sido feito pelo governo federal, é o certo. Isso é o que a esquerda tenta impedir.

BSM – Na visão do sr. como o Brasil poderia retomar seu crescimento como nação?

Dom Bertrand – Em primeiro lugar, temos que restaurar a família, como Deus a fez. Resgatar o direito sagrado dos pais educarem seus filhos. O MEC nasceu com a mentalidade fascista de Getúlio Vargas, com a ideia de que o estado deve educar os cidadãos. Nós somos católicos, mas a igreja é muito católica nesse ponto. Não se pode batizar uma criança sem a autorização dos pais. A Igreja respeita isso.

Precisamos da livre iniciativa. O Estado não pode tutelar. Ele deve estimular a produção e dar a garantia de liberdade. Propriedade é igual a trabalho acumulado. O trabalho do dia-a-dia garante o meu sustento e, assim, eu acumulo algo a mais.

Por fim, temos a subsidiariedade. Assim como a planta nasce da terra fértil, a sociedade cresce de baixo para cima. O município só deveria fazer o que as famílias se dispõem a fazer. Deste modo, os estados seguiriam os municípios e as famílias – e assim por diante, até o governo federal. A nação é um conjunto de famílias. Na fazenda, o proprietário é o rei. Qual empresa que aguentaria eleições gerais a cada quatro anos para decidir quem faria a chefia da parte jurídica, administrativa? Seria um caos?

 

BSM – Como o sr. vê o olhar do brasileiro para uma eventual volta da Monarquia?

Dom Bertrand – Quando houve a comemoração dos 60 anos de reinado de Elizabeth II, a Eco 92 foi adiada no Rio de Janeiro porque eles sabiam que muito mais gente iria à Inglaterra assistir às cerimônias. Até hoje, não há um brasileiro que seja um pouco mais culto que não admire a nossa monarquia.

BSM – Após as últimas eleições presidenciais, a família real foi convidada pela primeira vez a participar dos festejos.

Dom Bertrand – É verdade. Fomos convidados para a posse do Ministro das Relações Exteriores (Ernesto Araújo). Aliás, eles estão liquidando todos os conservadores do governo.

BSM – Nas últimas décadas, os valores de nossa cultura foram bastante violados. O sr. acredita que o Brasil irá celebrar com dignidade os 200 anos da Independência em 2022?

Dom Bertrand – Sim, acho que vamos comemorar bem os 200 anos da independência. Em 1989, por exemplo, houve o centenário da República – e não tivemos nada! Já em 2008, comemoramos muito os 200 anos da chegada da família real. Tivemos, inclusive, placas espalhadas pelo interior falando sobre a data.

Mas a verdade é que hoje muitos perderam o respeito sobre os valores da pátria...pela bandeira, pelos hinos. Todo mundo deveria cantá-los. Há, infelizmente, uma tendência de acabar com a nacionalidade, o regionalismo e as tradições. Hoje o estudo da história é abolido ou falseado.

Ainda há esperança, apesar disso. O presidente Jair Bolsonaro foi o primeiro da república eleito com consciência. O povo foi tocado por seu tema de campanha, pelo resgate da religião: “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”. Além disso, ele foi eleito para impedir o avanço de uma agenda da esquerda.

É por isso que os brasileiros estão protestando. Eles não querem que agenda vermelha volte.

 


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