VÍRUS CHINÊS

“Do ponto de vista clínico, coronavírus não existe mais na Itália!”

Juliana Freitag · 22 de Junho de 2020 às 15:48

Declaração do famoso médico italiano Alberto Zangrillo reverberou como um grito isolado de esperança a um povo ansioso para ressurgir das cinzas

No início deste mês, o diretor clínico e chefe de Anestesia e Reanimação do prestigioso hospital San Raffaele de Milão, Dr. Alberto Zangrillo, suscitou polêmica ao criticar abertamente a gestão da crise coronavírus na Itália. Suas retumbantes declarações foram ao ar durante uma popular transmissão televisiva onde o médico categoricamente afirmou que atualmente, no país, o vírus da Covid-19 (ou SARS-CoV-2) “do ponto de vista clínico, não existe mais!”

As alegações do famoso cientista, há mais de trinta anos médico pessoal do ex-primeiro ministro Silvio Berlusconi, vieram à tona durante um debate a respeito de novas medidas precaucionais a serem aplicadas durante a “Fase 3” de combate ao coronavírus, iniciada no dia 15 de junho. O percurso de progressiva retomada das liberdades civis da população italiana iniciou-se no dia 4 de maio com a “Fase 2”, logo após um rigoroso período de lockdown devido ao extraordinário número de mortes relacionadas ao SARS-CoV-2. Durante os quase dois meses de confinamento, as chamadas “zonas vermelhas” de alto contágio chegaram a ter suas fronteiras controladas pelo exército, e em todo o território nacional os italianos permaneceram constantemente vigiados pelas várias milícias policiais. O momento ainda é de medo e incerteza, e as afirmações do Dr. Zangrillo reverberaram por toda a península como um grito isolado de esperança a um povo ansioso para ressurgir das cinzas junto ao verão iminente.

A luta contra o vírus chinês nesta terra de – como diz a expressão popular – “santos, poetas e navegadores” foi especialmente confusa: não somente pelo desconhecimento acerca do vírus à época, mas também pelas recomendações babélicas da Organização Mundial de Saúde aliadas ao grave despreparo de uma classe política desunida, estúpida e hiper-ideologizada (quem não se lembra do emblemático caso do prefeito de Florença, cuja primeira reação diante dos alarmes sobre um vírus que viria a exterminar a geração que sobreviveu à Segunda Guerra, foi lançar uma singelíssima campanha de abraços?). Com um saldo que ultrapassa 34.000 mortes, depois de meses de restrições descomedidas e informações contraditórias, o povo italiano, que cooperou diligentemente com todas as exigências impostas por um governo que não foi popularmente eleito, chorando a distância a despedida de sua geração de ouro, deseja apenas o retorno à normalidade. Essa porém não parecer ser uma prioridade para os atuais especialistas do comitê técnico-científico governamental, que já se opuseram à instauração da Fase 2 por ter sido “muito precipitada”. A nota oficial do comitê sobre as declarações de Zangrillo afirmava que as palavras do médico eram “enganosas e perigosas”. Um dos integrantes do painel, o oncologista Franco Locatelli, também presidente do Conselho Superior de Saúde, declarou-se surpreso e “absolutamente espantado”. Sua colega também integrante do comitê, a ex-vice-presidente do Partido Democrático Italiano e atual subsecretária do Ministério da Saúde, a jornalista Sandra Zampa, disse que aguarda as “evidências científicas” do Dr. Zangrillo, e que, até lá, ele deveria evitar de “confundir as idéias dos italianos, favorecendo comportamentos perigosos para a saúde.” Ao que Zangrillo prontamente rebateu: “Sinto muito que Locatelli esteja ‘espantado’. Na medicina não existem pontos de vista, e quem diz que o meu é somente um ponto de vista, está vendo a situação de uma perspectiva errônea. Eu trago apenas a realidade dos fatos...