OPINIÃO

Do Nordeste, aos eleitores sulistas

Vinicius Sales · 6 de Outubro de 2022 às 09:32

O fato de Bolsonaro ter uma votação maior nessa região, em comparação a 2018, já mostra que avançamos em muito na quebra da hegemonia da esquerda

 


“Quando oiei' a terra ardendo
Qual fogueira de São João
Eu preguntei' a Deus do céu, uai
Por que tamanha judiação?”

(Luiz Gonzaga)

 

A eleição deste ano entrou em seu segundo turno e pela terceira vez vemos o fantasma do “país versus nordeste” aparecer como argumento para uma possível eleição do Lula. Eleitores contrários ao PT já olham envergado para seus compatriotas por uma escolha eleitoral. A questão é: estão dispostos a entenderem o que realmente aconteceu e acontece no Nordeste?

Como diz meu amigo e jornalista do BSM Fernando de Castro: “Subdesenvolvimento é escolha”. Moro em Pernambuco. Um estado que foi assolado pelo PSB por 16 anos. Aqui, vimos o desemprego crescer, a fome bater na porta, a violência se disseminar nas cidades e a saúde desmoronar. O cenário pode ser comparado ao de muitas cidades pelo resto do país, mas no Nordeste o caos ganha contornos bem maiores.

A pergunta que mais recebo das pessoas de fora é: como vocês deixam isso acontecer? A resposta não é muito simples, mas farei aqui um esforço em respondê-la.

O modus operandi da esquerda nordestina foi agregado ao coronelismo. Regiões de diversos estados foram tomadas como currais eleitorais em prol de um projeto político. Isso ocorreu, basicamente, por dois fatores: extrema pobreza e a ausência de políticas públicas – sejam estaduais ou regionais.

O caldo sociocultural gerado foi uma propensão mais revolucionária por parte da população. O anseio da assistência estatal nunca foi propriamente uma questão de amor ao estado, mas de sobrevivência. Quando se vive em uma região praticamente desabitada, a autoridade local é de quem possui mais recursos e não de quem tem o mandato. O prefeito pode ser eleito pelo povo, mas é o coronel que possui a fazenda com fontes de água que realmente manda.

Devemos lembrar que Norte e Nordeste possuem os climas mais extremos para se viver. Calor pela manhã e frio pela noite. Para certas regiões, o caminhão-pipa é o maná de cada dia.

Outro fator a ser observado é que essa pobreza, aliada ao desprezo do Sul e Sudeste, reforçou o espírito regionalista. Ser nordestino se tornou um ato contínuo de afirmação, chegando até a um bairrismo exacerbado.

Quando olhamos para a elite nordestina, vemos uma clara divisão entre aqueles que mantiveram a postura personalista do coronelismo e aqueles que partiram para a luta revolucionária esquerdista.

Por conta da situação social, ambos conseguem operar na sociedade civil com sucesso. O primeiro promete obras, já o segundo justiça social.

É verdade que esses grupos não são distintos. Aqui também temos a esquerda patrimonialista. Uma fusão entre coronéis e revolucionários.

Essa esquerda concentrou seus esforços em tomar a máquina pública e utilizar os cargos que ela oferece como cabos eleitorais.

Prova do que estou falando é que o próprio PSB foi denunciado no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) após um documento apontar quais regiões os secretários e comissionados deveriam atuar para garantir a eleição de Danilo Cabral, candidato do governo de Pernambuco.

Parte disso ocorre porque vender o voto é a garantir o pão de amanhã. Em outras regiões do país existe a pobreza e até a extrema pobreza. Entretanto, o Nordeste possui a verdadeira miséria.

Além dessa esquerda patrimonialista, devemos adicionar o impacto que o trabalhismo exerce sobre o pensamento do nordestino médio. É fato que tal ideologia é comum em todo o país, mas no caso nordestino vemos que o anseio por trabalho e dignidade sempre foi um componente importante do voto.

Ao contrário do que parte da direita pensa, o nordestino médio não é um revolucionário marxista que deseja o fim da propriedade privada ou um revolucionário da nova esquerda que defende pautas identitárias. Tais abordagens ganharam peso com a dominação da esquerda, é verdade. Mas o sertanejo em si é conservador.

Foi nesse ponto que o Lula e PT fizeram sucesso por muito tempo. Resguardadas as pautas da nova esquerda, o trabalhismo foi amplamente recebido pela população mais pobre ao pregar um suposto progresso com o avanço da justiça social e da regulamentação do trabalho.

Nesse contexto, igrejas e sindicatos tiveram um papel fundamental para garantir que a mentalidade popular focasse muito mais na “luta” do que os reais efeitos das medidas populistas.

Com isso, o nordestino se agarrou à seguinte ideia: continuamos pobres porque a luta ainda não acabou.

Para quem está de fora, o diagnóstico é simples: alienação. A conclusão não está inteiramente errada. A esquerda conseguiu engendrar no Nordeste que o problema sempre será o “outro”.

Entretanto, reduzir essa parcela da população somente a “gado eleitoral”, sem entender os reais motivos, é pura ignorância. O Nordeste continuará sendo de esquerda enquanto a esquerda e os políticos locais trabalharem para minar a independência intelectual e social da população.

O professor Olavo de Carvalho deu a receita: ocupar os espaços de influência. Aos poucos isso vêm sendo feito. Diversos grupos de direita têm se articulado ao longo dos anos para ocuparem a política, a universidade e espaços de cultura. O próprio Josias Teófilo, diretor de O Jardim das Aflições, é um exemplo.

Entretanto, tudo é um processo. O fato de Bolsonaro ter uma votação maior nessa região, comparando com 2018, já mostra que avançamos em muito na quebra da hegemonia da esquerda.

O início dessa ruptura se deu quando indivíduos conservadores e liberais decidiram que a mentalidade local deveria mudar. Prova do que estou falando é a existência de grupos organizados que levantaram essa bandeira, como o Direita Pernambuco e Grupo de Estudos Olavo de Carvalho PE.

Menosprezar as contribuições dada pelo Nordeste ao país – na música, religião, arte, literatura, entre tantas outras áreas – é ignorar a própria identidade nacional. Não existe um Brasil sem o Nordeste. O endosso do divisionismo neste momento fundamental da história, atende, na realidade, a um dos objetivos da esquerda.

A busca pela divisão da sociedade mediante diferenças regionais, é, na realidade, uma forma de conquistar mais poder para tiranizar o país como um todo. Esse é o verdadeiro objetivo da esquerda que pretende retomar a chefia da nação para fazer cessar todas as liberdades.
 

 


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