DIÁRIO DE UM CRONISTA

Dizei uma palavra e sereis morto

Paulo Briguet · 1 de Julho de 2022 às 15:42

O policiamento da linguagem é sintoma da doença espiritual do nosso tempo, o esquerdismo
 



Triste é o mundo em que uma frase ou mesmo uma palavra fora do lugar podem destruir a vida de uma pessoa. Vivemos nesse mundo. A milícia do pensamento está de plantão para nos apanhar em flagrante delito diante de qualquer termo que ofenda o manual esquerdista do “mundo melhor”. Qualquer um pode ser a próxima vítima: eu, você, o seu filho, o seu pai, a sua mãe, o seu vizinho. A não ser que você seja militante de esquerda. Nesse caso, tem salvo-conduto e pode dizer a besteira que quiser, desde que não ofenda Maomé ou alguma ala do movimento LGBT.

Dias atrás, o tricampeão mundial de F1 Nelson Piquet sofreu um linchamento moral por utilizar a palavra “neguinho” durante um comentário sobre outro campeão da modalidade, o inglês Lewis Hamilton. Qualquer pessoa que tenha ao menos dois neurônios em funcionamento está cansada de saber que o termo “neguinho”, nesse contexto, é um sinônimo da palavra “cara”, no sentido de “sujeito”, “indivíduo”. Sempre usei o termo dessa maneira, independentemente se me referia a um caucasiano, árabe, negro, japonês, judeu, turco-otomano, mongol, tailandês ou aborígene. Se alguém vier dizer que sou racista por isso, será processado e usarei o dinheiro da indenização para comprar livros do Thomas Sowell.

O policiamento da linguagem é um dos sintomas mais evidentes da doença espiritual do nosso tempo, o esquerdismo, que se encontra disseminado em todas as instituições. Nesta semana, um vereador foi condenado a um ano de prisão (isso mesmo, um ano de prisão) por dizer que um colega seu, intitulado mulher trans, é na verdade um homem. Para os militantes do caos, a negação gnóstica da evidência dos sentidos tornou-se um dever do cidadão. Você é obrigado a dizer que um homem é uma mulher, mesmo que esteja vendo diante de si um indivíduo que claramente é um homem.

Uma passagem bíblica que me emociona sempre é a resposta do centurião romano quando Jesus se oferece para ir até a casa dele: “Eu não sou digno de que entreis em minha morada, mas dizei uma palavra e meu servo será salvo”. Essa frase encantou Jesus, que declarou não ter visto uma fé tão grande mesmo entre os filhos de Israel. O diabo – nome cujo sentido é “aquele que acusa” ou “aquele que divide” – afirma-nos exatamente o contrário: “Dizei uma palavra e sereis morto”.

Conheço um homem que passou um longo período na prisão – onde foi diariamente violentado – por ter escrito uma frase infeliz. O que me assombra, no caso, não é a reação das pessoas contra uma palavra, mas a impossibilidade de perdão.

No romance A Marca Humana, de Philip Roth, um professor universitário faz uma piada sobre alunos que nunca apareceram nas aulas. Chama-os de “spooks” (fantasmas). Ocorre que os alunos, os quais o professor nunca tinha visto, eram negros. E “spooks”, descobre-se depois, vem a ser uma antiga gíria racista em desuso. O professor tem a sua vida e carreira destruídas. Sem perdão.

Um dos meus hábitos preferidos é percorrer livrarias e bibliotecas em busca de palavras que me salvem a vida. Às vezes eu as encontro, como no dia em que abri o livro de um poeta português chamado Herberto Helder. Li ao acaso as seguintes palavras: “Os ombros estremecem-me com a inesperada onda dos meus vinte e nove anos. Devo despedir-me de ti, amanhã morrerei”. O impacto desses versos marcou profundamente a minha vida de leitor. Ele me deu palavras de vida, não de morte.

Aristóteles diz que a política é a arte de promover o bem das pessoas. Mas ele também alerta: quando desvirtuada, a política transforma o homem no pior dos animais. Os patrulheiros da linguagem utilizam a política como forma de aniquilação do oponente. Na sociedade socialista que eles defendem, só haverá um tipo de crime: o crime de palavra. Enquanto isso, os verdadeiros crimes serão transformados em virtudes, e dentre as virtudes as mais sagradas serão o aborto dos inocentes e o assassinato dos inimigos.

Paulo Briguet é escritor e editor-chefe do BSM.

 


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