DIÁRIO DE UM CRONISTA

Dia dos Pais sem meu pai

Paulo Briguet · 9 de Agosto de 2020 às 12:53

Memórias gravadas no coração

— O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o pulmão direito infiltrado.
— Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?
— Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.

Em 1978, você me deu de presente de Natal um gravador de voz da CCE. Nesse gravador, havia uma fita cassete da 3M; nessa fita, nós gravamos nossas vozes. Quando chegou a sua vez de gravar, você recitou um poema de Manuel Bandeira que muito me impressionou. Aos oito anos, eu ainda não sabia que poetas podiam escrever assim. Depois você me explicou que Bandeira escreveu aquele poema porque, na juventude, doente de tuberculose, havia sido desenganado pelos médicos. O irônico é que Bandeira não apenas sobreviveu como chegou à idade provecta de 82 anos, tornando-se um dos mais importantes nomes da literatura brasileira.

Aquela fita desapareceu, o gravador também, mas a sua voz — grave, serena, imponente — continua até hoje no meu coração, pai. E é curioso que seja precisamente um tango argentino a trilha sonora que estou ouvindo agora, ao escrever estas linhas. Chama-se “Adiós Nonino”. Piazzola compôs essa linda música quando estava em Nova York, ao saber da morte de seu pai, Vicente, carinhosamente apelidado de “Nonino” (vovozinho, em italiano). Quando deram a notícia a Piazzola, ele se retirou para a cozinha do apartamento, sozinho com seu bandoneón, e começou a tocar as notas que imortalizariam Nonino. Não consigo ouvir essas notas sem pensar em você.

 

 

No dia em que nasci, 10 de julho de 1970, você foi sorteado no consórcio e tirou um Fusquinha cor de vinho, com o qual veio nos buscar na maternidade do Hospital São Camilo. Ali, naquele mesmo hospital, dias antes de Aracy dar-me à luz, havia sido internado um terrorista assaltante de banco, baleado por outro companheiro. O terrorista se arrependeu e passou a colaborar com a polícia da ditadura. Nos anos seguintes, seus dois melhores amigos, pai, o Arno Preis e o João Leonardo, que haviam caído na clandestinidade, perderam a vida naquela luta insana. Você poderia ter escolhido o caminho deles, mas não o fez. Decidiu formar uma família. Devo a minha vida a essa decisão.

 

 

Quando você morreu, quatro dias antes do Natal de 2008, havia na sua cabeceira um livro de Isaac Bashevis Singer, “Breve Sexta-Feira”. Certa vez, Singer disse numa entrevista a Philip Roth (outro escritor que admirávamos): “Quando morre uma pessoa que é próxima a você, nas primeiras semanas essa pessoa fica tão distante de você quanto é possível estar; é só com o passar dos anos que ela se torna mais próxima, e aí chega um momento em que você está quase vivendo com ela”.  

Por isso eu não posso, de maneira alguma, dizer que tenho saudade de você, pai. De tal forma você está presente na minha vida e nos meus pensamentos que é como se você fosse parte do que eu sou, a essência mesma do meu coração. Não éramos tão parecidos fisicamente — puxei mais a mãe —, mas frequentemente, quando olho sem querer para um espelho ou uma vitrine, vejo você. 

Este é o meu 12º Dia dos Pais sem você, pai. Mas, de certo modo, afirmar isso é um absurdo. Como se pode pensar em ausência quando você está mais perto de mim do que eu mesmo?

 


Se passa um Fusquinha na rua, eu olho para o motorista na tola esperança de que seja você. Principalmente se o Fusca for cor de vinho, laranja ou bege — as três cores dos seus três primeiros carros. E a Brasília verde-garrafa, placas UM 1270? Por onde andará agora? Estará passando pela Estrada de Itapecerica da Serra, rumo à AABB de São Paulo, onde havia uma enorme castanheira, e à sombra dessa castanheira uma barraquinha de doces, e nessa barraquinha de doces um homem cuja vida foi salva por você, e que por isso não me cobrava nada pelas balas Chita e chocolates Galak que eu encontrava ali?

Ah, pai. Como eu queria me sentar com você, diante de uma cervejinha — “Vamos tomar só duas, hein, Paulão? Exercício da moderação!” — e contar que estou lendo “Guerra e Paz” de novo, 30 anos depois, e que o livro continua esplêndido, e que me apaixonei de novo por Natasha Rostov, e que morri duas vezes com as duas mortes do príncipe André, e que marchei ao lado de Pedro Bezukhov feito prisioneiro pelos franceses. Falaríamos também sobre a festa de aniversário, minha e da Fernanda, em 1980, em Mirandópolis, um dia depois da morte de Vinicius de Moraes, coincidência de que vim a saber só muitos anos depois? E a festa dos meus 20 anos, o churrasco na AABB de Araçatuba (clube que nem existe mais), quando o pessoal todo de Londrina — Preto Parceiragem Véio de Guerra, Marcelo Picareta, Marcelo Locaço, Ernesto Borgnine, Francelino França, Valtinho Treix Coisax, Turco Baixaria, Betão, Renatão, Simone — dançou e cantou o melô da UEL:


Tcha-na-na-na-na
Tcha-na-na-na-na-na!
De Londrina a Brasília
A UEL é maravilha!

Tcha-na-na-na-na
Tcha-na-na-na-na-na!
De Londrina a Bauru
A UEL é pau no cu!


E pensar que isso foi há 30 anos, pai.

Depois, em 2000, quando eu e Preto passamos por Ribeirão Preto para ir a Ouro Preto (não é gozação, é isso mesmo), você me ligou no celular, que naquela época só servia de telefone mesmo, imitando o Nelson Rodrigues: “Que é que você tomou no café da manhã? Tinha pão, tinha manteiga, o café com leite estava gostoso, tinha alguma fruta?”. Era uma referência ao livro que eu tinha lido e emprestado pra você, “O Inventário das Sombras”, uma piada que só eu e você podíamos entender, e eu ri muito, tanto é que rio até hoje, e chego mesmo a chorar. Dias depois daquela ligação, eu voltei a acreditar em Deus, diante de uma igreja incendiada em Mariana.

Eu poderia ficar aqui me lembrando de centenas e centenas de coisas, de pequenos acontecimentos, de casos engraçados, de tristezas e alegrias, de frases e coincidências, daquilo tudo que ao mesmo me define e consola. Do sargento do Exército que o chamava de “Ingrêis”, pois não conseguia pronunciar o “l”, e dizia sempre: “Soldado tem que vir pro quartel comido, cagado e mijado!” Dos seus professores de inglês que riram até chorar quando lhe perguntaram se estava chovendo e você respondeu “Yes, cats and dogs!”. Do diretor de cursinho que lhe disse que você não tinha a mínima chance de passar na São Francisco — e você passou. Da musiquinha que você cantava na faculdade e também registrou na fita 3M do gravadorzinho CCE:

Quando se sente bater
No peito a heroica pancada
Quando se sente bater
No peito a heroica pancada
Deixa-se a folha dobrada
Enquanto se vai morrer...

Naquela época eu não entendia a música, pai, mas hoje eu entendo. A heroica pancada é a batida final no coração de quem a gente ama. A folha dobrada é a de um livro em que está narrada a vida de cada um. E a morte... Bem, a morte é o último inimigo a ser vencido por Deus.
 

Paulo Briguet é cronista e editor-chefe do BSM. Em 1996, publicou um livro de crônicas em parceria com seu pai, o advogado Paulo Lourenço (1941-2008).


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