MANIFESTAÇÕES

Dia da Pátria e Dia da Vergonha: o Brasil entre a realidade e a narrativa

Paulo Briguet · 13 de Setembro de 2021 às 11:28

O abismo entre o dia 7 e o dia 12 mostra com clareza o país real do povo e o país fake dos políticos


“Recebe o afeto que se encerra
Em nosso peito juvenil,
Querido símbolo da terra,
Da amada terra do Brasil!”

(Olavo Bilac, Hino à Bandeira)
 

“Nel mezzo del cammin di nostra vita
Mi ritrovai per una selva oscura
Che la diritta via era smarrita.”

(Inferno, Canto I)


No espaço de apenas cinco dias, o Brasil viveu dois momentos opostos e combinados. No 7 de setembro, o Dia da Pátria. No 12 de setembro, o Dia da Vergonha. No dia 7, a Nova Independência. No dia 12, a nova irrelevância. No dia 7, patriotas na rua. No dia 12, militantes na rua. No dia 7, milhões. No dia 12, centenas. No dia 7, cidadãos comuns, de todas as idades. No dia 12, velhos políticos e ativistas juvenis. No dia 7, famílias e trabalhadores. No dia 12, partidos políticos. No dia 7, a via direita. No dia 12, a via perdida. No dia 7, o Brasil real. No dia 12, o Brasil fake. No dia 7, a bandeira do Brasil. No dia 12, a bandeira do arco-íris. No dia 7, o civismo. No dia 12, o cinismo. No dia 7, a liberdade. No dia 12, a dancinha. No dia 7, a História. No dia 12, a narrativa. Na história recente do país, nunca o lado da verdade e o lado da mentira estiveram tão nítidos e separados quanto agora. Você escolhe o caminho ― e só há dois.

“Você vai acreditar em mim ou nos seus próprios olhos?”, disse certa vez o melhor marxista de todos os tempos, Groucho. Sinto aqui discordar do nosso mestre Olavo de Carvalho, mas a grande mídia não me parece ser gramsciana; ela é groucho-marxista. No entanto, seja qual for a denominação que se lhes dê, a última semana foi difícil para a imensa maioria dos meus colegas de profissão. Como negar e relativizar aquilo que salta aos olhos de todos? Como voltar as costas à realidade, se ela insiste em lhe morder a bunda? Como chamar a maioria pacífica e convicta de minoritária e a minoria estridente e isentona de majoritária? Como enxergar o golpe onde só há democracia e enxergar democracia onde só há golpe? Como chamar a multidão de vazio e o vazio de multidão? Não está fácil para os jornas da grande mídia.

O abismo de diferenças que separa o dia 7 e o dia 12 se torna ainda mais impressionante quando pensamos no comportamento da imprensa e da elite política nos dias que antecederam os dois eventos. O dia 7 foi apresentado, pelas grandes TVs e jornais (que de grandes só têm a antiga fama), como um movimento golpista e sanguinário. Os patriotas sairiam atirando em adversários e devastando prédios públicos. Na realidade, tudo que eles fizeram foi ocupar pacificamente lugares que já são deles ― a Esplanada dos Ministérios, a Paulista, a Praia de Copacabana, etc. ―, além de cometer aqueles dois crimes terríveis de cantar o Hino Nacional e rezar o Pai-Nosso. (Ah, também teve o buzinaço dos caminhoneiros às seis da manhã; mas eu precisava mesmo acordar cedo.)

E o dia 12? Ó que lindo dia! Contou com o entusiasmo e a propaganda não apenas da mídia, mas também dos políticos, dos formadores de opinião, dos selinhos azuis e dos movimentos que supostamente seriam os reis da rua. O resultado foi simplesmente um dos maiores vexames políticos dahistória deztepaís. O próprio PT, que não é bobo, percebeu que o negócio iria fracassar e tirou o time. É aquela história: há petistas honestos e petistas inteligentes; o problema é que os inteligentes não são honestos e os honestos não são inteligentes. Mas os que possuem cérebro, como o companheiro Daniel, estão no comando. E esse é o perigo.

Durante a semana, o PSOL Kids anteviu o fracasso e, em gesto de desespero, suplicou à velha esquerda para não abandonar a nova. Foi constrangedor ver o sapo de fábula pedindo ao escorpião para que fizessem juntos a travessia do rio, mesmo conhecendo a inevitabilidade da picada. Creio que a mesma súplica se repetirá nas eleições do ano que vem. E a picada fatal também virá. (No poder, a esquerda fuzilaria os PSOL Kids antes mesmo de prender a gente.)

Estive em Brasília na grande manifestação do dia 7 e desde então vinha repetindo que o dia 12 seria necessário e até mesmo pedagógico. Sei que até relógio parado acerta duas vezes por dia, mas creio que não estava errado. O dia 12 serviu para várias coisas: provar que a terceira via não passa de uma piada de mau gosto; expor os traidores ao vexame público; mostrar o povo sem políticos e os políticos sem povo; e, por fim, demonstrar a necessidade, extrema e imprescindível, do voto impresso e auditável e da contagem pública dos votos na eleição de 2022. Os políticos sem povo que passaram vexame em praça pública ontem só têm uma esperança: as urnas do Barroso.

Falei em povo sem políticos ― o que não é exato. O povo sempre necessitará de alguma representatividade, e ela hoje só existe no presidente Bolsonaro e um grupo de apoiadores que ainda resistem no poder. Mas, como sabemos, o povo é de Abel e os políticos são de Caim. É fundamental haver algum tipo de entendimento com a classe política, e foi isso que também aconteceu na semana passada. Entre o dia 7 e o dia 12, conforme noticiou em primeira mão o BSM, houve o dia 8 ― com o acordo entre Bolsonaro e parte da elite política, representada por Michel Temer. Não veio o golpe, não veio a utopia, não veio a revolução. Sobre a natureza desse acordo, já falei bastante. Mas caberia acrescentar aqui que ele terá de passar pelo teste da realidade. E nada melhor usar para isto as palavras de quem é a própria Verdade: “Pelos frutos os conhecereis”.

O Brasil só se livrará do mesmo destino do dia 12 se o dia 8 for cumprido por todas as partes. Caso contrário, o povo terá que voltar ao dia 7 e lá permanecer ― até que o poder finalmente reconheça a fonte da qual emana.

Paulo Briguet é escritor, jornalista e editor-chefe do BSM.

 


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