SOCIALISMO

Crise sem fim na economia faz argentinos clamarem por Bolsonaro

Claudio Dirani · 2 de Setembro de 2022 às 16:36

Em meio ao agravamento da situação, argentinos e brasileiros que moram no país de Alberto Fernández revelam o impossível desejo de algum dia ter o presidente brasileiro no comando da Casa Rosada
 




Poucos meses antes de trancar as portas do país para enfrentar a pandemia de covid-19, a Argentina de Alberto Fernández decidiu resgatar uma política fiscal que já havia provado ser ineficaz em inúmeros períodos de sua história.

Logo em sua primeira entrevista após assumir o cargo, concedida em 17 de dezembro de 2019, o ministro da economia, Martin Gúzman, comunicou à população os planos do governo recém-eleito para tentar solucionar problemas herdados do ocupante anterior da Casa Rosada, o liberal Maurício Macri, e de sua antecessora (e atual vice-presidente), Cristina Kirchner.

Entre as medidas incluídas no pacote, as que mais geraram preocupação foram o congelamento das tarifas de serviço público por 180 dias, o pagamento de bônus extraordinário pelas aposentadorias mínimas para driblar rombos na previdência, além da aplicação de um imposto de 30% sobre a posse de ativos financeiros no exterior.

Quase três anos depois da tentativa, e com a economia mais debilitada ainda, o país vizinho (hoje, literalmente nas mãos do mais recente ministro da economia, Sergio Massa) amarga inflação anual de 71%, maxidesvalorização da moeda (1 peso vale cerca de 38 centavos de real) e falta de produtos nas prateleiras dos supermercados.

“Quando Macri falhou em sua proposta econômica, especialmente no final de seu governo, ele condenou sua reeleição”, analisa Javier Lubelski, morador de Buenos Aires.

“É uma opinião pessoal, mas acredito que o povão vota com seus bolsos. E se os bolsos estiverem vazios, esses eleitores são até capazes de ignorar a corrupção como fizeram em 2019”, opina o argentino, ao relembrar as boas intenções do ex-presidente Mauricio Macri, que havia sido eleito para consertar os estragos provocados por Cristina Kirchner, mas acabou perdendo a corrida para o rival indicado pela própria ex-presidente e atual vice.

“A imagem do presidente Alberto Fernández está totalmente desgastada, como nunca esteve. A economia está uma bagunça. O país está uma bagunça. Apesar disso, Fernández continua com uma influente base de apoio composta principalmente por partidos de esquerda e artistas, que procuram apontar outros motivos pela falência do país, como o imperialismo americano e até a guerra entre Rússia e Ucrânia”, explica Lubelski, ressaltando que as rédeas da nação, ao menos por agora, estão praticamente nas mãos do ministro Sergio Massa do que nas do próprio presidente.

“Hoje, Alberto Fernández está numa posição coadjuvante no governo, e participa pouco das decisões do país”, ratifica o cidadão portenho. “Precisamos de um Bolsonaro”, desabafa.


Inflação descontrolada: a luta para driblar a constante alta de preços

Em outubro de 2021, o governo federal anunciou seu plano para tentar frear a constante alta dos produtos alimentícios. A solução não foi inédita, sendo praticada pelo próprio Mauricio Macri, oriundo de uma escola liberal, em duas oportunidades: o congelamento de preços. Naquele momento, a gestão de Alberto Fernández decidiu fixar os valores de 1247 itens pelo período de três meses.

“É uma prática bastante comum em países que optam pelo populismo (como forma de governo)”, aponta o economista Eduardo Cavendish. “É uma tentativa de causar artificialmente uma maquiagem dos preços, como maneira de controlar a inflação. Está provado que não funciona – e já tivemos um grande exemplo disso até no Brasil, com os ‘fiscais do Sarney’”, complementa Cavendish.

 “O que funciona, nesses momentos, são medidas como a redução da emissão de dinheiro. E a única forma disso acontecer é fechando a torneira. Se isso não for feito, o problema irá persistir”, conclui o cofundador do grupo Soma$, que afirma ser indispensável para o governo argentino controlar suas despesas e promover reformas a longo prazo, se deseja realmente alterar o atual cenário.

A análise apresentada por Eduardo Cavendish é compartilhada pelo colega de profissão, Márcio Hermes.

“Sim, apesar de nunca ter funcionado como medida econômica (o congelamento de preços) funciona como medida populista, pois ‘parece’ que funciona para a maioria da população quando ela não tem conhecimento mínimo de economia ou história”, destaca o economista.

 “Essa (prática), suponho, talvez seja a principal razão para a esquerda e populistas em geral serem absolutamente contra a proposta de ensino dos princípios básicos de economia no ensino secundário – ao mesmo tempo que defendem com o máximo vigor o ensino de filosofia ou sociologia”, avalia Hermes, que sugere como remédio para os atuais males que assombram nossos vizinhos de continente, medidas como mais liberdade econômica, estado reduzido e menor regulação.

“É assim que o atual governo brasileiro, nos limites legais, tem feito”, finaliza.

Na visão do consultor em estratégia financeira e comércio internacional na Próspero Business Consulting, Túlio Marques Júnior, medidas como a do congelamento de preços têm caráter puramente político.

“A meu ver, (o cenário) é uma tentativa populista e desesperada de adiar os efeitos da inflação galopante sobre o humor do eleitor”, aponta o analista.

“Afinal, em 2023 teremos eleições presidenciais na Argentina. E mesmo que o congelamento de preços não funcione e leve a desabastecimento ou criação de um mercado negro, isso demanda algum tempo para ocorrer. Num primeiro momento, os preços até podem parar de subir a depender do tamanho dos estoques nos varejistas”, complementa o economista, destacando que o governo de Alberto Fernández apostou de forma errática que o desabastecimento só ocorreria depois das eleições.

Já sobre os altos índices de inflação, Túlio Marques Júnior afirma que não há remédio a curto prazo que possa resolver o problema.

“Inflação é uma doença econômica que se torna crônica rapidamente, depois que se instala”, aponta o consultor financeiro. “O único remédio conhecido é controle da moeda via aumento de juros, e depois esperar que o remédio faça efeito. Porém, o processo pode durar dois anos ou mais”, conclui.

Enquanto as citadas medidas de recuperação não são tomadas pela Argentina, seus habitantes prosseguem na luta diária contra a variação frenética de preços.

“Nós temos enfrentados inflação altas por décadas – então você meio que se acostuma com isso”, afirma Javier Lubelski, totalmente resignado.

“Quando você saca seu salário em pesos e a moeda perde o valor mensalmente entre 5% e 7%, isso se torna uma luta diária e constante. Uma prática bastante comum é o estoque de alimentos”, revela.

“Outro ponto importante, é que ninguém na Argentina economiza em pesos. Quando os salários são pagos, as pessoas correm para as casas de câmbio trocar seus pesos por dólares, e essas reservas salvam a lavoura”, aponta Lubelski, reforçando que o estoque da moeda norte-americana já é uma das práticas financeiras mais antigas em seu país.

 

Maria Laura de Assis


Uma brasileira no olho do furacão argentino

Em junho de 2021, o presidente Alberto Fernández anunciou, por meio de decreto, que o governo federal iria tomar o controle da Vicentim, a quarta maior companhia de cereais da Argentina, responsável pelo emprego de mais de 2 mil funcionários. De imediato, a medida gerou pânico interno externo sobre o papel intervencionista do estado.

Não estamos expropriando uma empresa próspera, estamos expropriando uma empresa falida”, justificou o presidente, apontando para débitos da companhia em torno de US$ 1,3 bilhão.

De forma simultânea, a precariedade econômica era sentida pelos consumidores que se deparavam com gôndolas de supermercados vazias. Em suma, após ser vítima de uma série de medidas artificiais para tentar controlar os preços, a escassez de produtos à venda surtiu como um choque de realidade aos argentinos.

Em seu programa diário transmitido pelo canal A24, a jornalista Viviana Canosa se descolou da maior parte da mídia, disparando contra o cenário caótico de seu país: “Estamos cada vez mais perto da Venezuela”, resumiu.

O diagnóstico apresentado por Viviana Canosa em quase nada se distancia da visão de uma brasileira que há mais de uma década mora no vizinho sul-americano. Formada em Comunicação Social pela Universidade de Buenos Aires, Maria Laura de Assis oferece uma análise detalhada dos bastidores da sociedade argentina e de seus eventuais ecos na política externa.

“Com os preços aumentando todos os dias, você gasta diariamente em torno de dois mil pesos”, conta a moradora do bairro Recoleta, onde se encontram os restos mortais da ex-primeira-dama argentina entre 1946 e 1952, Maria Eva Duarte de Perón, a Evita.

“Com sorte, com 2 mil pesos você deixa o supermercado com sete ou oito produtos. Já em uma compra maior, esse valor pode chegar a 15 mil pesos (cerca de R$ 564 reais pela cotação oficial em 1º/9/2022)”, avalia a jornalista e colaboradora de veículos como Jovem Pan, La Derecha e do próprio jornal Brasil Sem Medo.

Enquanto o Brasil se prepara para decidir seu futuro em outubro, os argentinos acompanham o nosso processo eleitoral com um olho nos resultados das urnas eletrônicas e outro nos reflexos que o próximo presidente pode causar em seu país em suas próximas eleições, marcadas para 2023.

Para os descontentes com o peronismo/kirchernismo de Fernández, a boa notícia é que a oposição triunfou no prélio de 2021, que renovou parte do poder legislativo. Seria um sinal de virada do jogo?

Em meio a tantos problemas, Maria Laura de Assis conta que o povo argentino ainda é bastante dependente de políticos da esquerda que formam a atual situação, o que eventualmente compõe um obstáculo para mudanças significativas.

“Embora ele tenha afirmado que irá tentar se reeleger, a popularidade de Alberto Fernández está realmente baixa, com cerca de 50% e 60% de desaprovação”, aponta a brasileira.

“Acredito que Cristina Kirchner deva lançar como candidato o (superministro) Sergio Massa. Já no caso de Lula vencer as eleições, acho que ela mesma concorra à presidência ou coloque seu filho, Máximo Kirchner, que hoje é deputado”, pondera a jornalista, ao mesmo tempo que expõe uma situação paradoxal dos apoiadores do atual governo.

“Na verdade, não existem muitos apoiadores de Cristina Kirchner”, pontua. “Outro dia fui perto da casa dela fazer uma matéria para a Jovem Pan e vi apenas uns 40 gatos pingados (de apoiadores) por lá. Mas o problema é que cerca de 40% dos argentinos ainda dependem do estado. Por isso que você multidões nas ruas durante os protestos. Eles são, em maioria, sindicalistas”, identifica Maria Laura.

Questionada sobre a visão dos argentinos a respeito do presidente Jair Bolsonaro, a brasileira oferece um perfil que não costuma ser traçado pela mídia.

“A Argentina ainda depende muito da televisão”, lembra a jornalista. “E a maioria das pessoas acredita que Bolsonaro deva perder as eleições, porque têm como fonte as notícias que chegam do Brasil, e não existe um canal opositor”, pondera.

“Já os que têm mais contato com as redes sociais acreditam que Jair Bolsonaro irá vencer. Apesar de toda essa informação negativa que chega dele por aqui – aquelas típicas acusações de machista, genocida etc. – os argentinos amam muito Bolsonaro como presidente, e até fazem piadas do tipo – espero que um dia ele conquiste a Argentina, e tudo isso”, conta a jornalista que adotou a Argentina, mas sem desprezar uma gota sequer do amor por sua terra natal.


Nota

Minutos após a conclusão desta matéria, a vice-presidente Cristina Kirchner foi vítima de uma ameaça de assassinato, enquanto se dirigia para sua residência no bairro da Recoleta, em Buenos Aires, aproximadamente às 21h da quinta-feira, 1º de setembro.

Segundo o Ministério da Segurança, o autor da tentativa foi um brasileiro residente na capital, Fernando Andrés Sabag Montiel, detido pela Polícia Federal depois de chegar a ser linchado por apoiadores de Kirchner. A arma de Montiel, uma semiautomática, estava carregada e teria falhado após o suposto disparo. Kirchner, que estava no chão durante a ocorrência, nada sofreu.

Em 2021, o paulistano Fernando Andrés Sabag Montiel havia sido detido pela polícia pelo porte uma faca, quando recebeu apenas uma advertência.

Logo após o incidente, entramos em contato com Maria Laura de Assis para obter mais informações. Na opinião da jornalista, o incidente levantou suspeitas. “O mais estranho foi o comportamento da segurança de Kirchner – uma das melhores da Argentina – que não adotou seu protocolo normal”, apontou. 

Maria Laura de Assis ainda chamou atenção para o fato de que o suposto atentado ocorreu poucos dias após Cristina Kirchner ser denunciada pelo MP argentino, que pediu detenção de 12 anos para a ex-presidente, além do confisco de uma soma aproximada a US$ 1 bilhão.

Pelo Twitter, Lula foi o primeiro candidato à presidência a se manifestar sobre o ataque. “Toda a minha solidariedade à companheira Cristina Kirchner, vítima de um fascista criminoso que não sabe respeitar divergências e a diversidade”.                                                                                                

 

 


"Por apenas R$ 29/mês você acessa o conteúdo exclusivo do Brasil Sem Medo e financia o jornalismo sério, independente e alinhado com os seus valores. Torne-se membro assinante agora mesmo!"