DIÁRIO DE UM CRONISTA

Conheci um homem

Paulo Briguet · 26 de Janeiro de 2021 às 07:07

Uma caminhada pelo Jardim da Saudade 



Conheci um homem que lia muito. Se lhe tirassem o jornal ou o livro por um só dia, seria o mesmo que deixá-lo sem almoçar. Gostava de recitar poemas de Manuel Bandeira; na sua cabeceira, numa triste segunda-feira, foi encontrado um livro de Isaac Bashevis Singer, marcado com uma nota de 100 cruzados.

Conheci um homem que fumou por 50 anos, até mesmo no dia em que foi operado. Eu sei disso porque vigiei a porta do quarto do hospital, para avisar caso a enfermeira se aproximasse.

Conheci um homem que me ensinou a nadar e a jogar xadrez, mas não conseguiu me ensinar a dirigir. E todas as três coisas ele fazia melhor do que eu. Conheço um homem que já escrevia antes do meu nascimento; também isso ele fazia melhor.

Conheci um homem que tinha certeza de que iria morrer. Todos nós estamos certos disso, mas ele tinha, digamos, uma convivência mais próxima com a indesejada das gentes. Talvez porque, na juventude, tenha lido muito os existencialistas. Quando eu o visitava em Araçatuba, ele logo ia me convidando: “Vamos pegar um cemitério?” E lá íamos nós, caminhar e conversar entre os túmulos do Jardim da Saudade. Era divertidíssimo; tenho muita saudade de nossas caminhadas no Jardim da Saudade.

Conheci um homem que cuidava de sua mulher de um modo não menos que comovente – e ela também cuidava dele. Tinham lá suas manias e diferenças, é claro. Mas ficaram juntos por quase 40 anos – e até hoje é quase impossível pensar no homem sem pensar na mulher. Sei que ele disse a ela, um dia: “Sem você, eu já teria ido há muito tempo”.

Conheci um homem que se preocupava. Com a vida, com a morte, com as contas, com os seguros, com os prazos, com os remédios, com os parentes, com os amigos, com a política, com o país, com a história, com o mundo. As coisas que hoje nos angustiam já preocupavam o homem muito tempo atrás.

Conheci um homem que se preocupava até com a rotina do caixa de supermercado, da balconista da loja, do frentista do posto. Sempre que podia, lhes dava uma dica de filme em DVD. “Esse pessoal trabalha muito, precisa de um elogio, de uma palavra simpática.”

Conheci um homem que fazia listas. De filmes elogiados pela crítica; de remédios que deviam ser tomados (dias, horários, posologias); de cartas que escreveu ao jornal; de coisas sempre urgentes para fazer. Conhecia um homem que torcia para a Palmeiras, o que acabou me tornando palmeirense também. Não era muito fanático, não. Mas sabia sempre os resultados. E me ligava de manhã para comentar o último jogo.

Conheci um homem que não se dava muito bem com a tecnologia moderna. Tinha que pedir para a mulher encontrar as minhas crônicas na internet. Apesar de fazer muito bem todas as operações do banco eletrônico, não aprendeu a guardar telefones na memória do celular. Fiquei surpreso quando ele disse que o telefone da mulher estava no celular. Fui ver, estava mesmo. Colado com fita adesiva.

Conheci um homem que ao mesmo tempo era o mais previsível e o mais surpreendente dos homens.

Esse homem era meu pai — e hoje ele faria 80 anos.

Paulo Briguet é filho do bancário, advogado e cronista Paulo Lourenço (1941-2008).


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