O FANTASMA DO PT

Celso Daniel: 20 anos de um crime sem solução

Paulo Briguet · 18 de Janeiro de 2022 às 08:51

Há exatamente duas décadas, líder petista era assassinado na Grande SP. Confira entrevista especial com Silvio Navarro, autor do livro “Celso Daniel – Política, corrupção e morte no coração do PT”



“Em meu princípio está meu fim.”
(T. S. Eliot)

Em 1914, Franz Kafka escreveu uma novela intitulada “Na Colônia Penal”, que de maneira profética antecipa os horrores dos campos de concentração nazistas e comunistas. Em uma das passagens mais impactantes da narrativa, um chefe da colônia mostra a um visitante uma das torturas que ali se realizavam: os crimes do apenado eram escritos na própria pele do infeliz.

A literatura antecipa a vida. Quando o corpo de Celso Daniel foi encontrado numa estrada de terra em Jequitiba, na Grande São Paulo, com oito perfurações de bala e marcas de tortura, anunciavam-se, de maneira simbólica, todos os crimes cometidos pela organização criminosa que comandaria o País nos anos seguintes. Eu ainda não sabia, mas no cadáver do ex-prefeito petista de Santo André estavam escritos o Mensalão, o Petrolão, a corrupção como método de governo, o financiamento de ditaduras genocidas, a aliança com o narcotráfico internacional, os 70 mil assassinatos por ano, a ruína da educação básica, a sovietização das universidades, o aparelhamento da Igreja, a ruína econômica e moral do País. Ali estava a gênese do abismo — do qual começávamos a sair quando veio a pandemia.

Em 2002, eu ainda tinha ilusões esquerdistas. Mesmo assim, escrevi em minha coluna na época: “Alguma coisa está errada com um país em que o prefeito de uma grande cidade é sequestrado, e assassinado com tiros no rosto e nas costas, e deixado numa estrada de terra”. Eu ainda não enxergava a dimensão das causas do crime, mas logo passei a desconfiar de que havia algo muito errado e sombrio naquela história.

Celso Daniel não é o único morto nessa história. Depois dele, morreram em circunstâncias violentas:
 
1. Dionísio Aquino Severo (sequestrador do ex-prefeito);
2. Sergio Orelha (que acobertou o sequestrador);
3. Otavio Mercier (policial que ligou para o sequestrador na véspera do crime);
4. Antonio Palácio de Oliveira (garçom que serviu Celso Daniel na noite do crime);
5. Paulo Henrique Brito (testemunha da morte do garçom);
6. Iran Moraes Redua (agente funerário que reconheceu o corpo do ex-prefeito);
7. Carlos Delmonte Printes (médico legista do caso);
8. Josimar Ferreira de Oliveira (delegado que registrou a morte do ex-prefeito).

Isso lhe parece um crime comum? Não? Pois as lideranças do PT, desde 2002, insistem que foi apenas um caso de sequestro-relâmpago feito “por engano”. A estranha postura oficial dos caciques petistas talvez possa ser explicada pela existência de um esquema de corrupção na Prefeitura de Santo André, cujo beneficiário último era o PT. Vale lembrar que, ao final, daquele ano, Lula foi eleito presidente da República. Tudo indicava que Celso Daniel seria o seu ministro da Fazenda.

O mais completo trabalho jornalístico sobre a morte do ex-prefeito de Santo André é o livro “Celso Daniel ― Política, corrupção e morte no coração do PT”, de Silvio Navarro ― um mergulho profundo nas águas sombrias do poder petista. Nos 20 anos desse crime sem solução, Navarro conversou com o editor-chefe do BSM, Paulo Briguet. Leia a entrevista:

BSM: Todo mundo se lembra de onde estava no 11 de setembro e na morte de Ayrton Senna. Onde você estava no dia da morte de Celso Daniel e como isso o impactou? Quando você decidiu escrever um livro sobre o caso?

Silvio Navarro: O anúncio de que Celso Daniel estava morto foi feito na manhã de domingo, 20, quando o caseiro de um sítio localizou o corpo estirado numa estrada numa estrada de pedregulhos na região de Itapecerica da Serra. Foi uma manhã confusa e agitada. Mas já fora assim desde a madrugada de sexta, 18, quando os plantões das TVs informaram que ele havia sido sequestrado de forma estranhíssima – ainda que o sequestro fosse a modalidade de crime em alta na época. Tenho ligação com o ABC paulista porque morei lá quando criança, depois retornei para fazer a faculdade em São Bernardo do Campo. Foi chocante. Eu estava de plantão na redação da Folha de S. Paulo. Mas o meu envolvimento real com o caso começou para valer em 2005, quando morava em Brasília, e acompanhei a CPI dos Bingos no Senado. Em janeiro de 2012, quando o assassinato completou 10 anos sem solução, avaliei que faltava um registro histórico sobre a mais misteriosa trama envolvendo um político brasileiro desde a redemocratização.

 

BSM: Qual era o papel de Celso Daniel na estrutura do poder do PT/Foro de S. Paulo? A quem a sua morte beneficiou?

Silvio Navarro: Celso Daniel era um dos principais quadros do PT, com uma administração muito bem avaliada. Era discreto, técnico e seria um dos principais ministros se Lula fosse eleito – quiçá um sucessor. Era o coordenador da campanha de 2002, a mais promissora do PT depois de três derrotas consecutivas. No meio acadêmico, também era respeitado como professor de Economia da PUC e da FGV. Não existe uma prova técnica de quem foi o mandante do assassinato. O modus operandi de desvio de recursos públicos para o suposto roubo altruísta do PT estava a pleno vapor em Santo André, assim como ocorria em Campinas e Ribeirão Preto. Havia um consórcio formado por políticos corruptos e empresários interessados na montanha de dinheiro público.

 

BSM: Em que medida é possível comparar o assassinato de Celso Daniel a outras mortes suspeitas (PC Farias, Eduardo Campos, Teori Zavascki) e à tentativa de assassinato de Jair Bolsonaro?

Silvio Navarro: Do ponto de vista judicial, não há provas técnicas de que foram mortes encomendadas por um grupo político – em alguns casos se trata de acidentes. Mas é claro que mobilizam o imaginário popular por ter características de motivação política como como pano de fundo. Em alguns casos, queima de arquivo. No caso de Celso Daniel, há todos os elementos de um triller policial, um filme de suspense, uma pauta jamais vencida.

 

BSM: Celso Daniel foi praticamente ignorado durante a campanha presidencial de 2002, inclusive pela “oposição” tucana. Vale lembrar que o PSDB governava São Paulo à época do crime. Por que os tucanos não investigaram a fundo a autoria do crime (aliás, dos crimes)?

Silvio Navarro: Quanto mais rápido o caso fosse encerrado, melhor para o PSDB por causa das eleições de outubro. A segurança pública fora o calcanhar de Aquiles da gestão estadual de Mario Covas e, com a morte do governador, o desconhecido Geraldo Alckmin disputaria a reeleição em voo solo. Somente sequestros foram 660 de 2000 a 2002 no Estado. Havia cativeiros por todas as partes. Houve crise interna na polícia paulista porque diferentes delegacias queriam tomar as rédeas das negociações. Era o segundo prefeito importante assassinado em quatro meses – Toninho, de Campinas, morreu no dia 10 de setembro de 2001.

 

BSM: Algo que muito me chamou a atenção no seu livro foi a frieza dos dirigentes petistas em conversas logo após a morte do companheiro. Você acredita que de algum modo o caso Celso Daniel ajuda a explicar as catástrofes da era PT?

Silvio Navarro: Celso Daniel era um morto pouco querido. As escutas telefônicas feitas pela polícia para investigar uma rede de narcotráfico, depois destruídas a pedido do ex-juiz Rocha Mattos, mostram isso. A preocupação do PT era em esconder as engrenagens da corrupção do partido para não atrapalhar a campanha presidencial em curso. Lula era a prioridade. Aliás, ele sabe bem como fazer palanque até ao lado de caixões. Outro detalhe: o PT era comandado por José Dirceu, que nos anos seguintes demonstrou quais são os seus métodos e medidas – algo de quem foi treinado em Cuba.

 

BSM: Você acredita que o crime permanecerá impune?

Silvio Navarro: Sim, infelizmente. São 20 anos, nunca houve vontade política suficiente no Estado de São Paulo – governo estadual, a Assembleia Legislativa e a cúpula do Ministério Público – para resolver o caso de uma vez por todas. A quadrilha da Favela Pantanal ainda cumpre penas duríssimas – muitos já tinham homicídios nas costas. As testemunhas morreram. O empresário, amigo e ex-segurança Sérgio Sombra, que dirigia o carro na noite do sequestro, morreu. Ele não dava entrevistas. Passou catorze anos com paradeiro praticamente desconhecido.

 

BSM: Você publicou o livro em 2016. De lá para cá, descobriu fatos novos? Haverá um Celso Daniel parte II?

Silvio Navarro: Marcos Valério, um personagem triste da nossa história política, quase chacoalhou o caso quando atribuiu a Lula o mando do crime. Mas ele não tem provas técnicas – fosse outro tema, sobre outro partido e outro político, poderia ser o suficiente para se reabrir a investigação. Os tempos também são outros na imprensa tradicional. Hoje, manifestar sua preferência pela esquerda é algo normal nas redações – que estranham justamente quem não as admite. Também há o fator do tempo: já se passaram muitos anos e memória política, convenhamos, não é o forte do brasileiro. Não haverá um Celso Daniel 2, mas trabalho, sim já em um outro projeto que envolve um caso de política e polícia não menos assustador.

 

BSM: Vinte anos depois, o fantasma de Celso Daniel pode assombrar a campanha presidencial?

Silvio Navarro: Celso Daniel é uma perturbação permanente para o PT porque Santo André era o ovo da serpente do que se viu em maior escala no petrolão. Muitos dos políticos que orbitavam o prefeito estão querendo voltar – alguns, depois de anos na cadeia. O fim da prisão em segunda instância e decisões de tribunais superiores ajudaram a promover essa ideia de retorno. O PT hoje aparece sem a maquiagem dos marqueteiros de 2002, mas se Lula entender que tem gente pesada demais para carregar na campanha, serão rifados pelo projeto de poder.

 


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