TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO

Carta vazada por bispos católicos ataca o governo Bolsonaro

Douglas Pelegati · 27 de Julho de 2020 às 10:52

A “Carta ao Povo de Deus” é o suspiro distante da velha Teologia da Libertação dos anos 70 e expõe uma realidade desconhecida por muitos católicos: a divisão cada vez mais acentuada da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil

No último domingo (26) foi vazada uma suposta carta assinada por 152 bispos, arcebispos e bispos eméritos da Igreja Católica no Brasil. A “Carta ao Povo de Deus”, divulgada na Folha de São Paulo pela jornalista Mônica Bergamo, é o suspiro distante da velha Teologia da Libertação dos anos 70 e expõe uma realidade desconhecida por muitos católicos: a divisão cada vez mais acentuada da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil. 


A “Carta ao Povo de Deus”

O documento começa com a boa e velha apresentação de credenciais. Os signatários afirmam-se bispos da Igreja Católica, “em profunda comunhão com o Papa Francisco e seu magistério e em comunhão plena com a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil”. Entre elucubrações e afirmações de desinteresse político, o documento afirma que o Brasil enfrenta uma “tempestade perfeita” com o caos na saúde e a crise econômica, situação “provocada em grande medida pelo Presidente da República e outros setores da sociedade”.

De acordo com o texto divulgado, o Brasil possui uma “sociedade estruturalmente desigual, injusta e violenta”. Cabe aos 152 signatários, em nome do Evangelho, a defesa dos excluídos e da vida humana, já que “percebemos claramente a incapacidade e inabilidade do Governo Federal em enfrentar essas crises”.

O documento também critica a atuação do Governo Federal na Amazônia, o aumento da devastação e dos crimes ambientais  frutos da “ação inescrupulosa de madeireiros, garimpeiros, mineradores, latifundiários e outros defensores de um desenvolvimento que despreza os direitos humanos e os da mãe terra”. Não falta, é claro, a menção aos mortos da pandemia e a crítica ao governo por “discursos anticientíficos, que tentam naturalizar ou normalizar o flagelo dos milhares de mortes pela COVID-19”. As reformas trabalhista e previdenciária são criticadas como “armadilhas que precarizaram ainda mais a vida do povo".

Após criticar o ministro da economia, Paulo Guedes, os prelados afirmam que “o sistema do atual governo não coloca no centro a pessoa humana e o bem de todos, mas a defesa intransigente dos interesses de uma ‘economia que mata’”.


Quem escreveu a “Carta ao Povo de Deus”?

O documento divulgado por Mônica Bergamo não traz o nome de nenhum dos 152 alegados signatários, mas não é difícil deduzir quem seriam alguns deles. Uma fonte do Brasil Sem Medo na CNBB afirmou que a “Carta ao Povo de Deus” foi escrita “por várias mãos” mas com a proeminência do bispo auxiliar de Belo Horizonte, Dom Joaquim Giovani Mol Guimarães. Desde 2019, Dom Giovani Mol é Presidente da Comissão Episcopal Pastoral para a Comunicação da CNBB.

Em 2017, no site do CONIC (Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil), Dom Giovani Mol publicou um artigo intitulado “A guinada conservadora ameaça os pobres”. Muito semelhante à “Carta ao Povo de Deus”, o texto do bispo auxiliar critica a redução da maioridade penal, a posse de armas por cidadãos de bem, a Reforma da Previdência (então em trâmite no Congresso), o tratamento dispensado aos indígenas e  “a defesa dos interesses do grande capital”.

Apesar de muitas semelhanças entre outros textos de Dom Giovani Mol e a “Carta ao Povo de Deus”, ele não agiu sozinho. Outra figura proeminente que teria “trabalhado” a redação do documento é o advogado Carlos Daniel Dell Santo Seidel, membro da Comissão Brasileira Justiça e Paz (CBJP), um órgão da CNBB.

Daniel Seidel é um velho conhecido da esquerda católica. Em 2002 foi candidato a deputado pelo Distrito Federal. Seu partido era o PT. 


 

Já em 2010, o advogado foi citado no escândalo de uma nota da CBJP que criticava o “uso político da fé cristã” e o então candidato José Serra (PSDB). O documento era uma óbvia promoção da desconhecida Dilma Rousseff (PT). Durante o Sínodo da Amazônia (2019) Seidel foi um dos responsáveis pela organização da renovação do Pacto das Catacumbas. Celebrado em 1965 nas Catacumbas de Domitilla, em Roma, o Pacto das Catacumbas é conhecido com um dos marcos fundadores da Teologia da Libertação. Em sua renovação “amazônica”, organizada por Seidel, mais de 40 padres sinodais participaram do ato e da missa celebrada pelo Cardeal Cláudio Hummes.

 

O distanciamento na CNBB

Apesar de só divulgada agora, a “Carta ao Povo de Deus” já era de conhecimento interno na CNBB desde pelo menos o dia 22 e gerou muitos atritos. Sabe-se que a cúpula da entidade era contrária à publicação do documento até sua análise pelo Conselho da Conferência. Vetado pela CNBB o documento saiu como um “vazamento” e foi divulgado pela Folha de São Paulo. De acordo com a jornalista Mônica Bergamo “há um temor entre signatários do documento de que o setor conservador do órgão impeça a divulgação”.

O episcopado brasileiro, atualmente, é composto por 489 bispos, arcebispos e bispos eméritos. É por isso que, logo no começo, a “Carta ao Povo de Deus” afirma sua comunhão com o Papa Francisco e com a própria CNBB. Os 152 signatários representam menos de um terço da Conferência Nacional e afirmar a “unidade” com os demais bispos e com o Papa é uma clara tentativa de legitimar o documento perante os católicos. 

Além disso, fontes ligadas ao Brasil Sem Medo relataram que a publicação causou muito descontentamento na CNBB, sobretudo pela esperada reação dos conservadores. Fala-se, inclusive, na quebra da unidade e da colegialidade episcopal.

Embora devam obediência somente ao Papa, que tem o primado de jurisdição, desde o começo do século XX os bispos católicos têm se organizado em conferências e organizações de colegiado em que, como pares e iguais, tomam decisões que são aceitas em comum. A formação dessas conferências, inclusive, foi muito incentivada pelos progressistas que, agora, parecem se rebelar contra essa unidade.

A publicação do documento através de um vazamento à imprensa expõe os conflitos internos da CNBB e a revolta de um grupo minoritário e radical que tenta manobrar a Conferência para seus fins políticos. 

 

Por que a pressa?

A divulgação a qualquer custo da “Carta ao Povo de Deus” tem um endereço certo: a popularidade de Jair Bolsonaro. O Presidente da República aparece derrotando todos os adversários em um cenário de reeleição e mantém altos índices de aprovação mesmo em meio à “tempestade perfeita” a que se refere o documento.

Além disso, a maioria dos católicos tem apoiado o governo e desmascarado bispos e padres adeptos da Teologia da Libertação ou que usam o sacerdócio para fazer política partidária. O caso mais recente é o do padre Edson Adélio Tagliaferro, da diocese de Limeira em São Paulo. Padre Edson chamou Bolsonaro de “bandido” e disse que quem havia votado nele “deveria se confessar e pedir perdão”. O caso ganhou destaque nacional e o vídeo com o trecho da homilia do religioso ganhou o país.

Com a repercussão negativa, em 6 de julho o bispo da Diocese de Limeira, Dom José Roberto Fortes Palau, disse que o padre Edson Adélio Tagliaferro “reconhece que se excedeu em suas palavras e pede desculpas ao Sr. Presidente da República e a todos que se sentiram de algum modo atingidos”.


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