DIÁRIO DE UM CRONISTA

Carta de uma jornalista com o coração nas mãos

Paulo Briguet · 9 de Setembro de 2020 às 09:42

As ilusões perdidas de uma profissional que teve a coragem de escolher a verdade

Dias atrás recebi esta carta, assinada por uma jornalista da grande mídia:

“Paulo,

Há alguns anos você disse que todo jornalista deveria escrever ‘com o coração nas mãos’. Desde então venho procurando seguir o seu conselho em meu trabalho. Como você bem explicou naquele momento, geralmente as pessoas usam a palavra coração apenas no sentido romântico do termo. Mas não é a esse coração que você se referia, e sim ao coração como centro da consciência, como sede das coisas todas que sabemos, sentimos e pensamos.

Eu tentei, meu amigo. Tentei ser uma jornalista digna dessa sentença. Algumas vezes, consegui; muitas vezes, tive o consolo de tentar; mas, de uns tempos para cá, as mãos que escrevem as notícias, a boca que as pronuncia e o coração que as guarda têm sido violentamente separados em meu trabalho. Agora, quase sempre, as notícias que leio no ar contradizem aquelas que trago na minha consciência. E essa é uma sensação terrivelmente angustiante para quem sonhou tanto em ser uma jornalista de verdade, para a verdade, com a verdade.

Mas chega uma hora em que a angústia se torna insuportável. Chega uma hora em que a voz não quer mais falar daquilo que o coração não conserva. Chega uma hora em que a necessidade de respirar o ar puro da vida real nos força a romper a bolha do comodismo. Chegou a hora de pôr para fora tudo aquilo que estava entalado na garganta. O dever de limpar todas as mentiras que me mandaram dizer é maior do que a segurança de um emprego. Não mais.

Não mais notícias pela metade. Não mais mentiras completas. Não mais recortes parciais de visões distorcidas. Não mais palavras de ordem que só propagam o caos, clichês que só transmitem o engano, frases que só servem para ocultar o que deveria ser dito. Não mais esse pântano de factoides, essa cloaca de não-notícias, essa algaravia de opiniões levianas travestidas de informação. Não mais torturar os fatos até que eles confessem o que se quer ouvir. Não mais — nunca mais.

Vou pedir demissão em breve. Quero deixar para trás, como quem acorda de um pesadelo, os rostos desaprovadores e os comentários irônicos de colegas que me desprezam porque eu me recuso a amar o ódio que eles alimentam com tanta avidez. Quero limpar da minha memória, como quem limpa os estragos de uma turba de vândalos, as armadilhas que eles diariamente inventam para destruir alguém que jamais tentaram compreender. Quero apagar da minha vida as murmurações, as indiretas, as risadinhas cínicas de quem só vê o mundo pela lente da suspeita, da malícia, da desconfiança.

A gota d’água, para mim, foi uma entrevista com a mulher que denunciou os horrores da pedofilia. Desde que escolhi ser jornalista, um dos meus anseios era exercer meu ofício de modo a ajudar as pessoas mais indefesas — as crianças. Sou casada e tenho uma filha pequena, a quem amo demais. Desde garotinha eu sentia em meu coração a necessidade de proteger, de cuidar, de acolher e de amparar. O sentimento materno fez morada em mim, e foi esse sentimento que me revoltou quando ouvi as palavras daquela mulher corajosa sobre o calvário de tantas crianças brasileiras. Ingenuamente pensei: ‘Agora será diferente. Eles não gostam dela, mas desta vez os crimes denunciados são muito grandes para ficarem ocultos’.

Pois é, Paulo. Eu estava enganada. Não só meus chefes e colegas não disseram uma palavra sobre as denúncias de pedofilia, como também atacaram a mulher como se ela fosse uma louca, uma bandida, uma desqualificada. O ódio deles é maior do que a compaixão pelas crianças torturadas. E esse ódio está me torturando, porque me separa da verdade, da justiça e do bem.

Eu me recuso a amar o ódio de meus colegas de profissão. Em breve, deixarei de respirar essa atmosfera de mentiras e calúnias. E sabe quem me fez tomar essa decisão, Paulo? Foi minha filha. Naquela noite, cheguei em casa extenuada, triste, sem forças — e contemplei o rosto de minha filha que dormira sem o meu boa-noite. Pensei que crianças iguais a ela, naquele exato instante, estavam sendo atacadas e feridas por monstros que meus colegas e chefes protegeram por omissão e por ódio.

Com um sentimento de alívio, escrevo esta carta para lhe dar uma boa notícia: a partir de agora, eu sou uma jornalista de verdade. Sem emprego, mas também sem medo.

Fique com Deus,

A.”

Paulo Briguet é cronista e editor-chefe do BSM.


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