DIÁRIO DE UM CRONISTA

Carta ao Xandão

Paulo Briguet · 22 de Setembro de 2021 às 10:39

A vida de Wellington Macedo está nas suas mãos



Xandão,

Eu não sei onde você se encontra neste exato momento. É provável que esteja em um gabinete refrigerado, com todos os confortos e privilégios que o seu alto cargo lhe proporciona. Mas tenho certeza de uma coisa: por uma dessas razões que só Deus explica, existe um coração dentro do seu peito ― e ele bate em média 90 vezes por minuto, bombeando sangue para todo o organismo.

Somos irmãos, Xandão. Somos filhos de Deus. Você, assim como todos nós, tem uma alma imortal, criada à imagem e semelhança de Deus. Estamos submetidos à Sua Lei ― que não é a sua nem a minha. Temos as mesmas necessidades e as mesmas limitações. Por exemplo, precisamos de alimento e água para o corpo. Assim, eu rezo constantemente: “O pão nosso de cada dia nos dai hoje”. Você reza, Xandão?

Eu não sei qual a sua localização agora, Xandão, mas eu sei muito bem onde está o jornalista Wellington Macedo. Ele pode ser encontrado no presídio da Papuda. Há 15 dias, ele não se alimenta; só faz ler a Bíblia. Parece que hoje não está conseguindo tomar água também.

Qual foi o crime cometido por Wellington, Xandão? Matou? Roubou? Torturou? Vendeu drogas? Destruiu o país? Deixou de socorrer um irmão? Deixou um doente morrer sem tratamento? Desviou o dinheiro que seria usado em hospitais? Você sabe que a resposta para todas essas perguntas é não.

Wellington foi preso porque exerceu um direito humano básico: o direito de se expressar. E esse direito inclui a possibilidade de falar mal de você, de criticá-lo, de defender a sua demissão ― de declarar, alto e bom som, que você não merece estar aí, em seu confortável e seguro gabinete, enquanto um pai de família definha numa cela por ter desagradado um figurão.

Deixe-me dizer claramente, Xandão: alguma coisa pode acontecer com o Wellington nas próximas horas. Estamos em oração para que essa coisa não seja o pior. Você deve saber qual foi a resposta de Caim quando Deus lhe perguntou sobre Abel:

― Acaso eu sou o guarda de meu irmão?

Deixe-me dizer, Xandão: você é o guarda de seu irmão Wellington Macedo. Tudo que acontecer a ele será responsabilidade sua, e você terá de responder por isso diante do tribunal de Deus.

Wellington, você e eu temos mais alguma coisa em comum, Xandão: nós respiramos. Uma velha tradição judaica afirma que a respiração do homem reproduz o tetragrama YHWH. Em outras palavras, o nome de Deus está no cerne da nossa vida. Eu, você e Wellington estamos pronunciando o Nome de Deus agora: ele numa cela, você no gabinete e eu à frente do computador. Salve a sua alma, Xandão, e não permita que esse Nome seja a sua condenação.

Paulo Briguet é cronista e editor-chefe do BSM.

 


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