DIÁRIO DE UM CRONISTA

Carta ao povo da minha cidade

Paulo Briguet · 8 de Julho de 2020 às 10:48

Não podemos aceitar de braços cruzados e cabeça baixa a morte de Londrina

Cidadãos londrinenses:

O governador do Paraná, Ratinho Junior, o secretário de Saúde, Beto Preto, e o presidente do TJ-PR, Adalberto Jorge Xisto Pereira, decretaram, a seis mãos, a morte de Londrina. Os dois primeiros, por determinarem o fechamento do comércio local, mesmo contra todas as evidências estatísticas, que demonstram estar controlada a epidemia de coronavírus na cidade; e este último por negar o pedido liminar para reabertura do comércio londrinense.

A Santa Igreja ensina que leis iníquas e ordens injustas devem ser desobedecidas. Diz o Catecismo da Igreja Católica, em seu parágrafo 1903:

“A autoridade só é exercida legitimamente na medida em que procurar o bem comum do respectivo grupo e em que, para o atingir, empregar meios moralmente lícitos. No caso de os dirigentes promulgarem leis injustas ou tomarem medidas contrárias à ordem moral, tais disposições não podem obrigar as consciências. «Neste caso, a própria autoridade deixa de existir e degenera em abuso do poder»”.

Londrina nasceu como empresa; a liberdade de trabalhar e empreender está inscrita na alma da cidade. Na medida em que as autoridades públicas estaduais nos negam esse direito humano básico, é facultado ao cidadão promover a desobediência civil. De modo pacífico e não-violento, a sociedade londrinense precisa trabalhar — para que a cidade não morra.

Devemos obediência às autoridades que promovem a ordem pública, jamais àquelas que flertam com o caos. Fechar as portas do comércio de Londrina, ferido e agonizante após meses de pandemia, equivaleria a semear desemprego, miséria e desespero em nossa cidade. Talvez as autoridades públicas, que têm todo mês garantido o seu polpudo salário na conta, não compreendam a necessidade dos empresários londrinenses. Mas isso não torna a nossa situação menos dramática — nem a postura das autoridades admissível.

Fechar Londrina, agora, será um golpe de morte na cidade — pior do que aquele que a cidade sofreu há 45 anos, com a geada negra.

Alguém pode perguntar: “Você não tem medo de ser preso ao pregar a desobediência civil?” Eu respondo com um simples NÃO. Chegamos a um ponto, em nosso país, que não podemos temer o exercício da liberdade, sob pena de assistir à sua morte.

Que os nossos filhos, daqui a muitos anos, se lembrem de nós como aqueles que não se curvaram — e assim salvaram a cidade.

Encerro com os versos de nosso hino, escritos há 61 anos por Francisco Pereira Almeida Junior, presidente da ACIL, uma das entidades que sempre lutaram pela liberdade nesta amada terra:

Londrina!
Cidade de braços abertos
A todos os filhos do nosso Brasil!
(...)

De braços abertos, dá pouso e guarida,
A todos que a buscam, materna e gentil!
Porém, destemida, se os brios lhe ofuscam,
Sói ser atrevida, impávida, hostil.

Seu solo fecundo, feraz, generoso.
A quem, carinhoso, lhe deita a semente,
Por uma dá mil!
Padrão de trabalho plantado na história!
Londrina!
Cidade que um povo viril
Ergueu para a
Glória
Do nosso Brasil!

Paulo Briguet é cronista e editor-chefe do BSM.

 


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