DESAGRAVO

Carta aberta a um amigo promotor

Diego Pessi · 12 de Fevereiro de 2021 às 15:02

Que Ministério Público é esse, meu amigo, onde se prega abertamente a supressão da dissidência, real ou imaginária?

Vejo-me obrigado a deixar momentaneamente meus afazeres – que não são poucos – para me manifestar acerca de um episódio assaz inusitado que ganhou certa repercussão nas redes sociais e envolve meu nome.

O fato é que fui citado numa sessão do Egrégio Conselho Superior do Ministério Público de Minas Gerais, destinada a apreciar a nominata da banca de concurso para Promotores de Justiça daquele Estado. Na oportunidade, um conselheiro, cujo nome esqueci e não faço questão de recordar, tentou desqualificar a indicação do colega e amigo Marcelo Schirmer Albuquerque para composição da referida banca, imputando-lhe duas graves faltas: sua relação de amizade comigo e o fato de supostamente comungar do entendimento expresso na obra “execrável” intitulada “Bandidolatria e Democídio”.

Tivesse o conselheiro se dado ao trabalho de ler a obra antes de utilizá-la como tacape, teria percebido, já pela capa, que o livro possui dois autores e não um, como afirmou. Feita tal ressalva, abstenho-me de realizar qualquer outra observação em relação às suas opiniões (?) sobre o livro (quem se interessar pelo assunto que o leia e tire as próprias conclusões). Vou além, afirmando que é como um tributo que recebo a informação de que a obra é execrada em determinados círculos, pois, de detratores incapazes de diferenciar os conceitos de “democídio” e “demonicídio” nada espero além da vaia. O reconhecimento que efetivamente me importa já foi dado por colegas do Ministério Público de todo o Brasil, inclusive o de Minas Gerais que me honrou com o convite para participar, como debatedor, do XXII Congresso Nacional do MP, realizado em Belo Horizonte.

Dito isso, o que efetivamente me move a escrever é a necessidade inescapável de prestar minha solidariedade ao colega Marcelo; ao amigo Marcelo e, acima de tudo, ao Promotor de Justiça Marcelo Schirmer Albuquerque, cuja história de abnegação e bons serviços prestados ao Ministério Público e à sociedade mineira não pode ser maculada por insinuações de baixa estatura.

Quão embotada pelo coletivismo é uma percepção incapaz de identificar, num colega como o Marcelo, a presença de uma consciência individual fulgurante, de uma personalidade própria, de uma inteligência autônoma, plenamente devotada ao bem da sociedade e da instituição? Que mentalidade é essa, afinal, que nada respeita além das próprias convicções? Que investe com fúria contra tudo aquilo que a ela não se conforme e submeta, sem se importar com as consequências?

Que Ministério Público é esse, onde se prega abertamente a supressão da dissidência, real ou imaginária? Onde uma opinião é refutada mediante atribuição de rótulos infamantes e a menor dissensão rebaixa seu autor à condição de inimigo? Onde se ouvem os ecos de uma mentalidade totalitária, intolerante e sombria, que, numa história recente, justificou a queima de livros, tendo na “Bücherverbrennung” o prelúdio da eliminação física daqueles que ousassem pensar por si próprios?

Lamento, caro amigo, que, mesmo involuntária e indiretamente, eu tenha lhe causado tal dissabor. Parabenizo-o pela indicação, recebida a despeito do constrangimento sofrido, penhorando-lhe minha incondicional solidariedade e meu irrestrito apoio. Aos colegas e amigos do Ministério Público de Minas Gerais – inclusive aqueles com quem mantenho fraternais discordâncias – agradeço as inúmeras mensagens, felicitando-os pela decisão do Egrégio CSMP e pela postura altiva de seu Procurador-Geral de Justiça. Esse é o Ministério Público no qual um dia sonhei ingressar e que hoje tenho a honra de defender.

Que Deus os abençoe sempre!

— Diego Pessi é promotor de Justiça no RS, pós-graduado em ciências policiais (criminologia e investigação criminal) pelo Instituto Superior de Ciências Policiais e Segurança Interna de Portugal e co-autor do livro “Bandidolatria e Democídio”.


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