O ANJO DA JUVENTUDE

Carlo Acutis, o santo de tênis e jeans

Brás Oscar · 10 de Outubro de 2020 às 12:10

Conheça a vida do jovem italiano que, em apenas 15 anos de vida, tornou-se um propagador da fé católica em todo o mundo


“Todos nascem originais, mas muitos morrem como fotocópias”
(Beato Carlo Acutis)

 

 

Carlo Acutis foi um jovem italiano que faleceu em 2006, com 15 anos de idade. Ele ficou conhecido como um pioneiro no uso da internet para a documentação de milagres relacionados à Eucaristia. Na última semana, ele foi notícia em jornais do mundo todo: neste sábado, 10 de outubro, Carlo Acutis será beatificado. O milagre que impulsionou o processo de beatificação ocorreu no Brasil.

Carlo nasceu em Londres, numa família italiana, que retornou para Milão quando ele era criança. Os pais de Carlo eram católicos, porém não tinham uma vivência religiosa no dia a dia, e não conversavam sobre assuntos religiosos em casa. Mesmo assim, o menino desenvolveu um profundo interesse pela Igreja e aos 7 anos de idade recebeu a Primeira Comunhão; ao que foi necessária uma autorização especial, em razão da pouca idade.

Os pais se assustavam, no começo, com o empenho religioso do filho: era desapegado de bens materiais, trocava viagens de lazer por peregrinações, assistia à missa diariamente e confessava-se semanalmente. Dono de uma personalidade poderosa, ele instigava os colegas de sua idade a não se rederem ao comportamento mundano e de massa induzido pela mídia; Carlo dizia que cada pessoa nascia única, mas o apego aos valores seculares fazia com que muitos perdessem a individualidade, tornando-se, ao fim de suas vidas, “fotocópias”.

A solução para encontrar a força necessária para não ceder era ajudar os jovens desenvolver a fé. No seu bairro, Carlo era conhecido por alimentar os pobres, cuidar de sem-teto e auxiliar idosos. Na escola, era famoso por defender os mais fracos e os deficientes diante dos valentões, mas sempre com uma coragem movida pela fé, que os dissuadia. Ele também fazia reuniões em sua casa com colegas de escola cujos pais estavam se divorciando, para proporcionar suporte emocional para eles.

O jovem, que tinha uma profunda devoção pela Santa Eucaristia, era também muito hábil em informática e técnicas de edição de vídeo, o que o levou a criar, em 2005, um website para registrar e popularizar todos os milagres eucarísticos reconhecidos pela Igreja. Ele já trabalhava na catalogação desde os 11 anos de idade. Carlo se inspirava no trabalho do Beato Tiago Alberione, fundador da Família Paulina, pioneiro no uso das mídias no início do século XX para divulgar o Evangelho.

Em 2006, ele pediu aos pais para sair em peregrinação por todos os lugares onde os milagres eucarísticos haviam ocorrido, para prosseguir com seu projeto de documentação. Entretanto, as viagens não chegaram a ocorrer, pois um mal-estar que se abateu sobre Carlo, que parecia ser uma gripe forte, era uma leucemia promielocítica aguda, uma doença fulminante.

A morte não era temida por Carlo, que além de não se queixar do sofrimento ― ele dizia, com um misto de maturidade e bom-humor, que havia no mundo quem sofria muito mais ―  ainda afirmou aos pais “todo o sofrimento que hei de ter, eu o ofereço pelo Senhor, pelo Papa Bento XVI e pela Igreja”. Dizia que estava, de fato, feliz, pois iria finalmente ver Jesus; poucos dias após o diagnóstico, em 12 de outubro de 2006, Carlo Acutis faleceu.

Como era um devoto de São Francisco de Assis, expressou o desejo de ser sepultado na cidade de Assis, o que foi cumprido por seus pais. A história do “anjo da juventude”, como é carinhosamente chamado, logo se espalhou por toda a Itália e pelo mundo. Sua minuciosa documentação dos milagres eucarísticos na internet transformou-se numa exposição fotográfica que viajou dezenas de países, fazendo espalhar a fama e o exemplo de Carlo ente os jovens, inclusive no Brasil, onde há dezenas de trabalhos sobre sua vida em canais do YouTube e websites de comunidades de jovens católicos já há alguns anos.

Em 2013, a Conferência Episcopal da Lombardia, Itália, aprovou uma petição para a causa da canonização ser debatida em sua reunião. O cardeal Angelo Scola foi o relator inicial do processo, e em maio daquele mesmo ano Carlo Acutis recebeu do Papa o título formal de Servo de Deus. Em 2018, após a verificação do pré-requisito do candidato à canonização ter levado uma vida de virtudes heroicas, ele recebeu o título de Venerável.

O milagre posto em investigação para impulsionar a petição de beatificação havia ocorrido no Brasil, em Mato Grosso do Sul. Todo dia de 12 de outubro, data de falecimento de Carlo, o padre Marcelo Tenório realiza uma missa, na Paróquia de São Sebastião, com uma relíquia do Venerável ― um pedaço da roupa de Carlo Acutis contendo um pouco de seu sangue ― e naquele dia, em 2010, um menino que sofria de pâncreas anular, uma anomalia congênita rara, muito doente e já raquítico, em risco de vida, com constantes crises de vômito, foi com seu avô até a relíquia e perguntou ao avô o que dizer; o avô disse “peça para parar de vomitar”, e a criança, com a objetividade e sinceridade que é típica, tocou e disse “parar de vomitar!”. E parou.

Após sucessivos exames foi constatada a cura completa da criança, que hoje leva uma vida totalmente normal. Uma comissão nomeada pela Sagrada Congregação para a Causa dos Santos iniciou todo o processo formal de investigação para constatar que a cura havia sido plena e milagrosa. Finalmente, após parecer positivo dos investigadores, em fevereiro de 2020 o Papa autorizou a beatificação de Carlo Acutis, que ocorrerá hoje, 10 de outubro, às 16 horas de Roma, 11 horas de Brasília.

Durante a exumação para a exposição do corpo de Carlo, houve um rumor de que seu corpo estava incorrupto, ou seja, não havia se decomposto. Entretanto, conforme informação da Diocese de Assis, trata-se de um equívoco, provavelmente impulsionado pelas fotografias do corpo após o tratamento que recebeu para a exposição e veneração dos fiéis. O Bispo de Assis, Domingos Sorrentino, disse: “Para efeitos de exposição do corpo, este tinha sido tratado com arte e amor, e o rosto, a única parte que verdadeiramente está visível, foi coberta com uma máscara de silicone”

Apesar de sua vida de santidade, Carlo Acutis era uma “jovem normal”: gostava de futebol, jogava no time da escola, vivia cercado por jovens de sua idade, gostava de histórias em quadrinhos e computadores. Ele é o primeiro beato, e possivelmente futuro santo católico, que é exposto e representado usando calças jeans, tênis esportivos e moleton, e isso tem um forte significado: sua vida foi a prova de que a santidade e a imitação da vida de Cristo não são exclusivas dos célebres mártires e místicos da Igreja que viveram num passado distante, mas está ao alcance do homem contemporâneo, nas pequenas ações da vida, desde que imbuídas de força, reverência, coragem e amor ao próximo.

― Brás Oscar é colunista e correspondente internacional em Portugal para o BSM e para o PHVox.


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