AGÊNCIA ESPACIAL BRASILEIRA

O Brasil e a conquista do espaço

Claudio Dirani · 15 de Maio de 2022 às 10:26

Em entrevista exclusiva ao BSM, o presidente da AEB, Carlos Moura, abriu o jogo sobre o uso da Base de Alcântara, o monitoramento de queimadas na Amazônia e o futuro dos lançamentos de satélites com tecnologia 100% nacional

 

 

 

 


Em fevereiro de 2021, o Brasil entrou oficialmente para o clube dos 20 países que possuem tecnologia espacial 100% nacional. Graças à parceria inovadora com a Índia, o satélite de observação de recursos naturais Amazonia 1 fez sua estreia a cerca de 750 quilômetros da Terra, aproximando, assim, a Agência Espacial Brasileira às mais avançadas do planeta. Um ano após o feito, a AEB já sonha com novas missões mais ousadas, a curto e médio prazo.

Em meio às comemorações de 28 anos da Agência Espacial Brasileira – comemorados em 10 de fevereiro, conversamos com o presidente da instituição, Carlos Moura, para saber mais o presente e o futuro do órgão vinculado ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, comandado pelo Marcos Pontes.
 

BSM: Quais foram as grandes mudanças – se aconteceram – na Agência Espacial Brasileira após o ex-astronauta Marcos Pontes assumir o ministério?

Carlos Moura: São pouquíssimos os astronautas no mundo. E (Marcos Pontes) é o único brasileiro. Ele tem um carisma especial. Um de seus grandes valores é que ele deu muito mais visibilidade ao nosso programa e aumentou a conectividade com os jovens, proporcionando um estímulo ao estudo. Logo no primeiro ano, Marcos Pontes conseguiu destravar no congresso uma operação de salvaguardas tecnológicas – um acordo que assegurava para os EUA, que a tecnologia das empresas que eventualmente viessem ao Brasil fossem respeitadas. Depois de seis audiências públicas, ele conseguiu resolver o impasse em tempo recorde.

 

BSM: Após o Congresso aprovar a parceria com os EUA em Alcântara, como o Brasil tem atuado para viabilizar esta cooperação?

Carlos Moura: Temos quatro empresas que podem começar a operar em Alcântara no final do ano ou no começo do próximo. Isso deve dar muito mais dinamismo parra o setor. O mercado espacial tem crescido entre 5% e 8% ao ano e o Brasil quer uma fatia desse mercado de transporte. São como spin-offs. Queremos ter serviços logísticos, técnicos, acadêmicos e pesquisas. Fazemos votos de que o Alcântara se transforme em um novo polo tecnológico Brasileiro. Algo como São José dos Campos é hoje (Com a EMBRAER e o CTA), uma das principais cidades do mundo para inovar e investir.


 

BSM: O satélite Amazônia 1 – o primeiro 100% nacional – foi lançado em fevereiro de 2021 pelos indianos, tendo como um de seus objetivos principais monitorar ações criminosas, como as queimadas. Como tem sido a resposta dessa tecnologia?

Carlos Moura: Sim, a observação dessas atividades por sensoriamento remoto era um de nossos objetivos principais. O satélite chegou para ser mais um observador do espaço, seja no setor territorial ou marítimo. O Amazonia 1 aumentou a frequência com que obtemos as imagens de um mesmo lugar. Então, quando você coloca no espaço um satélite desse tipo, você tem mais dinamismo e consegue observar mais atividades (como as queimadas) e com mais frequência. Além disso, o Amazônia 1 pode ser útil, tanto para o meio-ambiente como para a agricultura

BSM: Após o acidente trágico em agosto de 2003 com o VLS (Veículo Lançador de Satélites), o Brasil ainda pretende seguir como o programa? Em que estágio nos encontramos nesse restrito mercado de colocar satélites em órbita?

Carlos Moura: O Brasil continua perseguindo sua meta de ter capacidade própria de lançamento de satélites. O mercado de nanosatélites é o que mais cresce atualmente e temos 10 sendo produzidos neste momento. O projeto que temos hoje, e já vem de alguns anos, é o VLM (Veículo Lançador de Microsatélites) que substituiu o VLS porque ele havia sido concebido no início dos anos 90 e já se tornou obsoleto. Já fizemos o primeiro teste do motor do VLM com grande sucesso e continuaremos esse trabalho.


BSM: Por que o processo para o desenvolvimento e lançamento de satélites é tão complexo e demorado?
Carlos Moura:
Precisamos eliminar todos os fatores de risco antes do lançamento. Além disso, estamos desenvolvendo uma nova tecnologia. Para você ter uma ideia, o motor do VLS tinha 1 metro de diâmetro e o do VLM tem 1 metro e meio. Houve também um aumento grande da capacidade do motor, e com isso, as preocupações do risco de sua integridade. Podemos dizer que o primeiro teste funcionou muito bem e devemos fazer em 2023 o segundo ensaio, preso no solo (o chamado tiro em banco) para termos certeza de que ele está pronto. As coisas não acontecem na velocidade que gostaríamos, mas é a forma mais segura.


BSM: A SpaceX, uma empresa particular, tem dominado o cenário e realizado a maioria dos lançamentos nos Estados Unidos. O sr. diria que a tendência é a atuação cada vez mais frequentes dessas companhias no mercado? 

Carlos Moura: Na verdade, os americanos têm fomentados desafios para que mais empresas particulares como a SpaceX façam os lançamentos espaciais. No mundo todo está mudando a forma de fazer espaço. Antigamente, eram só governos e falava-se sempre de equipamentos enormes, muito caros e longe da realidade do cidadão. Agora, com a miniaturização e aumento da qualidade da tecnologia podemos fazer satélites menores e com muito mais capacidade. Hoje, já temos universidades e empresas brasileiras produzindo dez satélites, e isso nos permite fazer mais com menos recursos.  A AEB também está coordenando a produção de uma constelação de satélites com recursos que não vem do programa espacial. Começou com recursos de emendas parlamentares de Santa Catarina e está sendo abraçado por outros estados, como Paraná e Rio Grande do Norte. Uma inovação muito forte na forma de fazer espaço. A ideia original era para ajudar a defesa civil. Mas estamos vendo uma gama muito grama, como agricultura e serviços urbanos.


BSM: Como os satélites podem ser mais úteis no dia a dia do brasileiro em geral?
Carlos Moura:
Quando falamos hoje de agricultura 4.0 e Internet das Coisas, isso tudo só funciona com a melhora da conexão. Na verdade, grande parte das pessoas nem sabe que está usando o serviço de satélite. Um entregador de comida, por exemplo, usa informações georreferenciadas para trabalhar – e isso é só possível com as telecomunicações. Outra aplicação é a meteorologia, para o cidadão comum, agricultura e questões ambientais – como os acidentes de Mariana e Brumadinho. Isso só pode ser melhorado usando o monitoramento de satélites.

 


BSM: Quando poderemos ter investimentos para formar mais astronautas brasileiros?
Carlos Moura:
  Hoje em dia temos muitos mais jovens querendo ser astronautas, graças ao ministro Marcos Pontes. Porém, infelizmente, ainda não temos fôlego financeiro para bancar missões tripuladas.  Entramos no programa Artemis, da Nasa, que tem como objetivo retornar à Lua. Esse programa conta com a participação de 12 países e o Brasil agora estuda as possibilidades de como se engajar nisso. Em breve, anunciaremos qual será a primeira missão junto ao programa Artemis. Os americanos e russos são ainda os países que dominam as missões tripuladas. O nosso ministro Marcos Pontes foi treinado na Nasa, mas o cronograma foi atrasado após o acidente com o ônibus espacial e o Brasil se aproximou da Rússia (Agência Roscosmos) para seguir rumo à Estação Espacial Internacional. Mesmo com a preparação pela Nasa, ele precisou fazer todo o treinamento na Roscosmos. Nesse período, até os americanos precisaram recorrer aos russos para fazer seus lançamentos.

 

BSM: Apesar de o VLM ainda não subir este ano, como andam as outras modalidades de lançamento da Agência Espacial Brasileira?
Carlos Moura:
Temos dois lançamentos suborbitais previstos para este ano. Um deles é o do módulo desenvolvido no Brasil: a Plataforma Suborbital de Microgravidade. Ele deve acontecer por volta da metade do ano. O outro lançamento é de nosso programa de pesquisas suborbitais.

 

BSM: A AEB também é forte no setor educacional e de pesquisas. O que o leitor do BSM precisa saber mais sobre a agência?
Carlos Moura:
Além de trabalhar no desenvolvimento tecnológico e relações internacionais, nós tentamos ser uma referência segura para informações sobre espaço. Temos um programa chamado AEB escola que ajuda a despertar o interesse científico da garotada e há uma recepção muito boa da sociedade. Também temos cursos. Isso abrange desde o ensino básico até a pós-graduação. Temos grupos de cooperação com a Nasa para despertar vocação em cientistas-mirins e muitas outras coisas.

 


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