MÚSICA

B.J. Thomas: “Sentir-se amado é maior do que qualquer outra coisa”

Claudio Dirani · 5 de Junho de 2021 às 12:09

A voz por trás de “Rock and Roll Lulaby” e de dezenas de hits nos deixou aos 78 anos, no último sábado, vítima de câncer – mas não antes de descobrir o amor por Cristo

Novembro, 1978. Bob Dylan estava bem perto de finalizar sua apresentação na San Diego Sports Arena quando notou um crucifixo brilhante atirado ao palco. Por algum motivo inexplicável, ele se agachou e colocou o objeto de prata no bolso.

Dylan ainda não suspeitava – muito menos fãs e imprensa – que a misteriosa atração sentida naquela noite pela cruz atingiria seu coração de forma radical. Era a descoberta da fé em Cristo que renderia três álbuns e uma turnê dedicada à conversão.

Sim, toda a transformação espiritual experenciada pelo bardo de Minnesota pode ter soado muito estranha à opinião pública e aos seguidores do artista. Porém, não foi o que aparentou para outro famoso cantor americano chamado Billy Joe Thomasou B. J. Thomas (1942-2021) – alcunha usada pelo nativo de Hugo, Oklahoma, para conquistar cinco prêmios Grammy, um Oscar, além de 15 músicas no Top 10 da Billboard.

Para investigarmos melhor esse rico currículo, é tarefa obrigatória recordar dois de seus mais estelares hits que antecederam sua conversão ao cristianismo.
 

 

O primeiro deles – “Raindrops Keep Fallin’ On My Head” – é uma das obras-primas da dupla Burt Bacharach e Hal David que passaria como tempestade pelas ondas do rádio em 1969, alcançando o 1º lugar em quase todo o Planeta.

Interpretado por Thomas com calor e convicção, o tema de Butch Cassidy and Sundance Kid (ou Dois Homens e Um Destino) também ganharia o Oscar de Melhor Canção na cerimônia seguinte.

Já a segunda música responsável por ampliar a fama de B.J. Thomas também ficou marcada por invadir o cotidiano dos brasileiros. Em uma era distante das ideologias inseridas em novelas, “Rock And Roll Lulaby” se transformou em um hino para os espectadores de Selva de Pedra – atração estrelada pela então Namoradinha do Brasil e mais tarde, ex-secretária de cultura, Regina Duarte.
 

Em 2010 – um ano após seu ainda recente show em São Paulo – B.J. comentaria sobre o carinho especial recebido pelos brasileiros:

“Diversas músicas que gravei fizeram muito sucesso, especialmente no Brasil. Eles sempre as adoraram – até os discos gospel. Por isso, nunca mais deixei de visitar o país – o que faço pelo menos a cada dois ou três anos”...

***

Com mais de cinco décadas ativas no showbiz, torna-se impraticável resumir a carreira de B.J. Thomas somente em duas canções, mesmo que elas tenham transformado tantas e tantas vidas.

Ainda que seja uma tarefa que exija dedicação e tempo, não é aceitável ignorar a fase de maior transformação de sua jornada pelo pop internacional.

Em 1976, após árduas batalhas contra o uso de drogas, B.J. Thomas decidiu que a melhor opção era abandonar de vez os caminhos do vício. Junto com o fim das drogas e das bebidas alcóolicas viriam gravações com interpretações de músicas dedicadas a Jesus Cristo.

Em entrevista concedida ao repórter Howard Kebel em 2014, Thomas comentou sobre a reviravolta:

As coisas mais importantes são amor e respeito para consigo mesmo. Era algo que nunca havia experimentado e que tive de aprender aos poucos. O que se passa pela cabeça é algo como – se eu fiz isso, certamente irá me matar... mas, quer saber uma coisa? Eu não me importo”.

 

A jornada tortuosa encontra um final feliz

Ao notar que a estrada construída pelo consumo de drogas o levaria para um destino trágico, Thomas decidiu converter-se ao cristianismo – exemplo seguido por sua mulher, Gloria Richardson, dias mais tarde.

O primeiro fruto dessa nova fase apareceria naquele mesmo ano, com o álbum Home Where I Belong, preenchido por canções gospel. Assim como aconteceria a Bob Dylan dois anos depois, muitos fãs não aprovariam o novo gênero musical escolhido.

A reprovação do público, entretanto, não foi o suficiente para barrar B.J Thomas. Até o fim de sua carreira – melancolicamente encerrada pelo câncer no último dia 29 de maio – o astro americano ainda gravaria uma série de discos devotados ao cristianismo ou ligados ao Natal, incluindo Amazing Grace (1981), I Believe (1997) e That Christmas Feeling (2005).

Antes de partir para se apresentar em palcos bem mais elevados do que os terrenos, ele daria mais pistas sobre a grande virada. Ao comentar sobre sua fascinação pela música To Be Loved, de Jackie Wilson, B.J. Thomas concluiu:

A canção também fala sobre como algumas pessoas lutam por fama e para adquirir riqueza, mas realmente e verdadeiramente, no final das contas, ser amado é tudo o que importa. É simplesmente maior do que qualquer outra coisa”.


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