MEDITAÇÃO DO BRÁS

Bernardo Küster, o negacionista que ama a verdade

Brás Oscar · 11 de Maio de 2021 às 14:14

Ah, Bernardo! Seria tão mais fácil você aceitar o consenso das autoridades, que tornam a nossa vida tão mais fácil e segura...

Dicit ei Pilatus: "Quid est veritas?”
(João 18, 38)

Acordei com um certo estranhamento; uma manhã de segunda-feira ensolarada golpeava meus olhos ainda grudados de sono. Algo estava errado. Havia olhado o aplicativo da meteorologia antes de ir pra cama: chuva forte era a previsão, que ainda se mantinha na tela do celular, informando-me que naquele momento havia um aguaceiro. Pelo sim, pelo não, resolvi vestir meu corta-vento impermeável por cima do pijama para poder sair ao quintal – quem sou eu para contestar os especialistas do The Weather Channel? Apesar do desconforto, menos térmico que estético, desci as escadas de pedra da lateral de casa com muito cuidado. Estavam secas como ossos velhos, mas na falta de consenso entre meus olhos e os doutores do tempo, eu prefiro a prudência.

Encontrei minha irmã ainda a tomar o café na cozinha do térreo e ela me contou de sua colega de trabalho, uma moça ucraniana chamada Ulyana, que ao saber um dia desses do seu resultado positivo para o teste de Covid, correu para o estacionamento, trancou-se no carro e chorou a tarde toda. Eu imagino que Ulyana estava ciente que não há consenso científico sobre tratamento precoce; logo, não seria possível levar tal hipótese a sério. O único consenso que temos em Portugal, e em toda a parte da Europa, e no Brasil, e na América, é que o Covid é uma praga medonha a fazer pilhas de mortos nos hospitais. Nunca vi um noticiário da SIC, da RTP, nem da Globo ou da CNN discordarem disso. Verdadeiro consenso, sim senhor.

Mas hoje o mundo resolveu acordar com um espírito negacionista; pois não é que a Ulyana não teve nem febre e as dezenas de pessoas com quem ela havia se aglomerado num evento de sua família por horas tiveram todas resultado negativo para a praga do século. O pior estava por vir. Fui ler a Folha de São Paulo, para não me desconectar da realidade no Brasil, e topo com uma entrevista do Bernardo Küster; um bom homem, mas com uma mania incurável de discordar da verdade expressa no consenso das autoridades que fazem as nossas vidas um lugar mais fácil e seguro.

Bernardo, dizendo coisas como “marxismo tomou conta da cultura”, “comunismo isso, comunismo aquilo” perde toda a sua credibilidade, pois fica evidente que ele não entende que vivemos os tempos mais democráticos que já existiram e que o comunismo é algo que caiu junto com o muro de Berlim em 1989. Até a China é capitalista, Bernardo: eles bebem Coca-Cola e fabricam nossos iPhones.

Não por menos, os comentários dos leitores devem ter deixado o bom Bernardo embaraçado, coitado. Um homem dizia lá que o Sr. Küster inventava sua própria realidade. Não penso que seja assim, e tenho outra teoria. Bernardo é uma alma inquieta e de pouca fé, apenas isso. Falta-lhe fé no bem saber da nova gaia ciência, nossa mãe e protetora, que nos pega pela mão e tapa nossos olhos, não por censura, mas por caridade, como a mãe taparia os olhos da criança pequena se alguma indecência lhe surgisse a frente. O mundo por si é confuso, bruto e cheio de pormenores que não cabe a nós, Bernardo, contestar. Por que faz sol quando o celular diz que chove? Por que a Ulyana e seus parentes não estão mortos ou acamados? Por que o PT usa termos como “socialismo” e se alia ao PCdoB, e por que existe um PCdoB, se o comunismo é algo do passado? Veja, meu caro, esses desajustes são culpa de infiéis como você, que insistem em não concordar com o consenso, transformando-o num dissenso e impedindo que, através dos poderes da unanimidade, eles se tornem a verdade cristalizada em nossas mentes.

Eu acredito num mundo melhor, num mundo onde eu não precise de ter o trabalho medievalesco de sair por aí escarafunchando as coisas para entendê-las. Eu voto e pago imposto para isso, Bernardo: para não ter de me preocupar com essas querelas da vida, para os especialistas pensarem nas coisas difíceis por mim e por aqueles não tiveram o privilégio de poder estudar muito. Você deveria usar seu privilégio de homem das letras e concordar com a opinião correta o oficial, fazendo assim a vida das pessoas mais segura e transformando o consenso em verdade.

– Brás Oscar é colunista e correspondente internacional para o BSM e para o PHVox.


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