DIÁRIO DE UM CRONISTA

Bernardo Küster e a salvação das almas

Paulo Briguet · 21 de Janeiro de 2023 às 10:06

Homenagem ao comunicador católico e diretor do BSM, que está completando a idade de Dante na Divina Comédia



Meu amigo, meu irmão:

Há algum tempo, quando entrevistamos nossa querida amiga e afilhada de casamento no Conexão KGB, perguntamos se ela tinha medo das perseguições e ameaças dos senhores deste mundo. A resposta da Cláudia é algo que ecoa em minha alma até hoje:

— Eu tenho medo é de ir para o inferno.

Hoje eu sonhei com o inferno, Bernardo. Sei que parece um tema inadequado em uma ocasião como esta, em que celebramos os seus 35 anos. Hoje é dia de festa, de alegria, de paz — a paz possível dentro da nossa guerra. Mas atentemos para o sentido da palavra comemoração; tem algo a ver com memória, com aquilo que os homens-livro guardam no coração. Portanto, você, que é um homem-livro, me entenderá.

Hoje eu sonhei com o inferno e lembrei a história da sua conversão. Doze anos atrás, se não me engano, você estava voltando para casa, depois de uma noite de farra, quando viu as chamas vermelhas da perdição sobre uma multidão que se divertia na balada. Cada chama vermelha era uma alma perdida para o demônio. Ao chegar em casa, Bernardo, você tinha o rosto tão transtornado que sua própria mãe não o reconheceu.

Sua conversão é uma passagem digna de Santo Agostinho, Pascal ou Bernanos. Mas também me faz lembrar a primeira coisa que Nossa Senhora mostrou aos pastorinhos de Fátima em 1917: uma visão do inferno. Das mais variadas formas, essa visão se apresenta a todos nós. Minha Óstia (ou meu Damasco) foi menos fenomenal, mas igualmente perturbadora. Na curva dos 29 anos, vi uma igreja queimada em Mariana, e percebi que era um retrato da minha alma e do lugar para o qual eu estava me encaminhando a passos largos. Estava escrito por Deus, Bernardo, que um dia nos encontraríamos para compartilhar nossas descidas ao inferno. Por especial graça, eu ainda tive o privilégio de testemunhar a sua volta para Casa – a Igreja Católica.

Homem-livro que é, você deve saber que Dante fez sua descida ao Inferno com a idade de 35 anos. Por isso, ele inicia a Commedia com os famosos versos:

Nel mezzo del cammin di nostra vita
mi ritrovai per una selva oscura
ché la diritta via era smarrita.

A duração média da vida humana, para um homem como Dante, era de 70 anos. Estar “no meio do caminho desta vida”, portanto, significa ter a idade que você está completando agora. A ação dA Divina Comédia tem início na Sexta-Feira Santa do ano de 1300. Dante Alighieri, nascido em 1265, passava então por uma das fases mais difíceis de sua vida. Perseguido por razões políticas, o poeta foi obrigado, sob pena de morte, a exilar-se de sua amada Florença.

O inferno que vi no meu sonho de hoje tem algo do regime que os atuais ocupantes do poder querem implantar em nosso país, mas na verdade é muito pior. Trata-se uma viagem sem volta por um poço lamacento e envenenado onde as sombras se retorcem. Mas a principal diferença é que nesse inferno não existe esperança. Nós, não, Bernardo. Nós temos esperança. Por mais doloroso que seja o purgatório socialista, ele terá fim.

Como sempre digo, não acredito em coincidências. Por isso, sei que não é uma obra do acaso você estar comemorando os seus 35 anos três dias antes de se completar um ano da morte de nosso querido professor. Uma coisa que muitos não sabem — inclusive admiradores sinceros — é que o trabalho do Olavo nunca se limitou ao campo do poder político, mesmo no sentido mais nobre da palavra. O coração da obra de Olavo de Carvalho e dos seus continuadores — e você é um dos mais importantes entre eles — não é melhorar o país, não é transformar o mundo, não é promover os “valores conservadores”, não é nem mesmo vencer o comunismo. O que o Olavo queria era a salvação das almas.

E quantas almas ele salvou, Bernardo! Quantos olhos ele abriu, quantas verdades ele revelou, quantos sofrimentos ele aliviou, quantos aflitos ele confortou. O que o Olavo ensinou para o Brasil, e para os seus milhares de alunos e leitores, nunca poderá ser desfeito; está inserido para sempre na estrutura da realidade.

Quarenta anos mais jovem que o Olavo — já lhe contei que em 1988 eu cursava Filosofia na USP? —, você é o continuador do mestre no trabalho de salvação das almas. Seu filme, seus cursos, seus vídeos, suas postagens, seus encontros semanais com os Filhos do Trovão, seu exemplo de vida, a família que você e a nossa querida Glória iniciaram — tudo isso é parte da missão de resgatar aquelas almas marcadas pelo inimigo vermelho e colocá-las de volta na estrada do Céu. Nada do que você fez e faz será apagado.

A lei humana ­— essa que os políticos escreveram — diz que 35 anos é a idade mínima para exercer os cargos de Presidente, Vice-Presidente e Senador da República. Eu te enganei dizendo que escreveria uma crônica sobre a sua idade “senatorial”. Na verdade, sei que você não dá a menor importância para essas banalidades do poder. Sua missão é outra — e você está apenas no meio do caminho.

Parabéns, Claraval! Bora salvar almas, e tome uma Bud por mim.

— Do seu amigo Paulo Briguet, trocadilhista profissional, imitador amador, sósia de Mr. Burns, Kiko, Mr. Bean, Yamandu Costa, Kassab, Slobodan Milosevic e Fredo Corleone.

 


"Por apenas R$ 29/mês você acessa o conteúdo exclusivo do Brasil Sem Medo e financia o jornalismo sério, independente e alinhado com os seus valores. Torne-se membro assinante agora mesmo!"