NOVO GOVERNO DOS EUA

Bandeiras no lugar de gente: o funeral da América

Braulia Ribeiro · 22 de Janeiro de 2021 às 09:44

Sem a presença do povo americano, posse de Joe Biden lembrou cenas de filmes de ficção que mostram a destruição dos Estados Unidos



Os organizadores da festa de posse do Presidente Biden, realizada na última quarta-feira, ao invés de permitirem a entrada de espectadores do povo que normalmente viaja a Washington para participar da inauguração do novo governo, criaram barreiras no centro da cidade para impedi-la. Barreiras de metal foram colocadas na entrada das ruas principais que dão acesso ao Capitólio. A coisa toda foi uma montagem política bem feita; a Guarda Nacional já ocupava as ruas desde o evento fatídico do dia 6, e a presença dos militares só foi aumentando nos dias que precederam a inauguração. Soldados vieram até do território de Guam, no meio do Pacífico Sul, a 7,9 mil milhas de distância de DC, para reforçar a segurança.

A prefeita socialista Muriel Browser, juntamente com o governador de Maryland, o republicano Larry Hogan, e o governador da Virgínia, o democrata Ralph Northam, fizeram uma declaração conjunta sobre a cerimônia explicando que a cidade seria fechada e que a participação da população seria virtual, devido aos atos violentos do dia 6 e ao Covid-19.  E foi mesmo fechada a cidade. Cercas não-escaláveis de metal de 2 metros de altura com arame farpado em cima foram instaladas para impedir passantes em toda a região do Capitólio. Soldados fortemente armados se tornaram a visão mais comum nas ruas da capital. Pontes e estações de metrô foram fechadas.

O local que normalmente seria ocupado pelo público foi “decorado” com milhares de bandeiras americanas. As cadeiras que os pouquíssimos convidados ocuparam na frente do palanque em que a cerimônia aconteceu estavam devidamente separadas umas das outras a uma distância segura. Enfim, a cena era pós-apocalíptica e parecia uma cena tirada desses filmes de ficção cuja história inclui a destruição do governo americano.

O ar de desolação ganha status de profecia quando pensamos o que essa inauguração representou para o país. Depois de uma eleição conturbada, debaixo de suspeita de fraude, que apesar de não ter sido provada nas cortes parece real para milhões de americanos ao redor do país, sobem ao palanque duas figuras estranhas e profundamente impopulares. A principal é um velho senil, hoje o fantasma de um homem que mesmo em seus melhores dias não passou de um burocrata medíocre, oportunista e subserviente aos interesses corporativos e do establishment político. A segunda figura, também sem brilho e sem carisma, é uma mulher cujo discurso divisionista e carregado de ressentimento assustava até seus pares.

Kamala fez seu juramento com a mão sobre uma Bíblia que, diz ela, pertence a uma amiga da família. Filha de acadêmicos provavelmente ateus, a vice-presidente já promoveu o Kwanzaa, feriado inventado agora artificialmente identificado como “africano” e fez um vídeo com seu esposo (judeu de origem, mas não na religião) falando sobre o valor do Hanukkah, o feriado judaico do final de ano. A Bíblia não passou de uma stage-prop. É isso que você pode esperar dela: performances populistas, manobras manipulativas para dar a impressão disto e daquilo, mas nunca a verdade. É ela quem mais me apavora nesse novo governo.

Naquele palanque se consolidou a derrota final do povo americano. Novamente, como na era pré-Trump, a elite volta ao centro de Washington. A mente que agora vai ditar toda a política interna e externa americana é a progressista, que cultiva a percepção identitária do mundo, presume que é o papel do governo cuidar de cada detalhe da vida social e até privada do país, que não acredita em fronteiras, que para criar uma população que vai eleger políticos paternalistas vai legalizar milhões de ilegais.

Essa mentalidade visa a destruir o conceito de gênero (que é objetivamente biológico) e elevar o conceito de raça (que é subjetivo). Quem cultiva essas ideias não crê que a história tem algo a ensinar; ao contrário, esforça-se em limpar a história de todos os marcos que inspiram valores. São eles os seres iluminados, moralmente superiores aos deploráveis e incorrigíveis, essa “gente baixa” que janta no Olive Garden (um xingamento, segundo o jornalista Anderson Cooper).

Os progressistas da elite são os únicos a ter o direito de falar por você.  Quem acompanhou os anos Trump sabe que mesmo durante a sua presidência a máquina do estado nunca deixou de ser ocupada por esses progressistas. Foram eles que perseguiram impiedosamente o governo passado, desde dentro.  

Esses acólitos criaram a história falsa da conspiração com a Rússia. São funcionários de carreira que ocupam todas as áreas do estado americano ― do FBI à zeladoria da Casa Branca. A maioria deles vem das melhores universidades americanas e são contratados por causa do nível de sua educação e competência profissional. A maioria deles serve fielmente à nova religião, que é fruto do iluminismo, combinado com o negativismo da teoria crítica e a esperança da utopia terrena do marxismo. Essa nova religião é atraente e oferece muito a seus devotos. A fé progressista domina as melhores instituições e é mais contagiosa que o coronavírus. Seus fiéis se sentem moralmente superiores a todos os outros vis mortais. Sentem-se no direito de castigar, silenciar e cancelar os infiéis como membros das religiões “fundamentalistas” pelas quais eles expressam tanto desprezo.

Dessa religião só se livram as mentes mais curiosas e persistentes. A maior ilusão dos progressistas é a de que eles trabalham para o bem coletivo. São educados para pensar que conhecem o povo e o que seja melhor para ele. Infelizmente essa mesma educação é a que afasta os devotos ocupantes da máquina burocrática de DC do povo que eles pretendem servir.

A elite progressista está feliz com a saída do selenita laranja que os atormentou por quatro anos. Washington DC volta ao “normal”. Os iluminados novamente ocupam todos os espaços da vida púbica americana: a presidência, o congresso, a mídia, o mundo do entretenimento. Agora estão caminhando depressa para também revogar o direito à dissidência privada.

A imagem que ilustra este artigo vai marcar o dia 20 de janeiro de 2021. Ela deve nos causar arrepios de desconforto. O povo americano, as pessoas reais, de carne e osso, foram substituídas pela ideia do povo, representada pelas bandeiras. O “povo” agora não passa de um construto na mente dos iluminados.  A verdadeira interlocução com a massa do povo americano não mais existe para os novos ocupantes de DC. O que o povo quer não tem mais importância ― porque a elite é quem sabe mais e melhor.

Bolsonaro agora é talvez o último político que representa a verdadeira vontade popular ainda no poder do Ocidente.

— Braulia Ribeiro tem especializações em política latino-americana, bioética e mestrado em divindade pela Universidade de Yale e é doutoranda em teologia política pela Universidade de St. Andrews. É colunista do BSM nos EUA.


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