EXCLUSIVO BSM

Áudio de Lula é verdadeiro, aponta laudo

Paulo Briguet · 16 de Setembro de 2022 às 09:57

Perícia confirma autenticidade de gravação de 2017 em que o ex-presidente comenta acusações de Antonio Palocci: “Ninguém teve a competência e a coragem de acabar com esse cara”
 

 




Um laudo técnico-científico obtido com exclusividade pelo BSM demonstra a autenticidade de um áudio em que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva comenta as denúncias do ex-ministro Antônio Palocci durante a exibição de uma reportagem no Jornal Nacional em 7 de setembro de 2017. A gravação de 3min23s, que circula pelas redes sociais, havia sido considerada falsa pela agência Comprova em julho deste ano. Segundo a conclusão dos checadores, amplamente divulgada pela mídia, a voz na gravação era de um imitador de Lula. No entanto, o laudo assinado em agosto de 2022 pela perita criminal federal aposentada Nerci Lino de Almeida Tonaco, com 20 anos de experiência em perícias de som, demonstra que o áudio é verdadeiro – e que a voz é de Lula.

 

A análise pericial começa por refutar a informação de que a gravação foi feita por grampo telefônico autorizado pela Justiça. Segundo o laudo, a voz foi captada por um equipamento de gravação ambiental, provavelmente colocado em uma das extremidades da linha telefônica utilizada por Lula. As vozes e sons que se ouvem ao fundo correspondem à matéria do JN veiculada em 7 de setembro de 2017. O vídeo e a transcrição da matéria podem ser vistos aqui.

O áudio analisado na perícia circulou nas redes sociais juntamente com uma edição de dois vídeos. Um deles mostrava o ex-presidente Lula perguntando durante um podcast: “O que é que foi que eu roubei?” O segundo era um trecho do depoimento de Antonio Palloci à Lava Jato, em que o ex-ministro acusava Lula de diversos atos de corrupção. A divulgação simultânea dos três conteúdos acabou gerando interpretações errôneas de que o áudio de 3min23s teria sido editado. O laudo desfaz essa confusão.

Para avaliar a autenticidade das falas atribuídas a Lula no áudio, a perita Nerci Lino utilizou 37 gravações de Lula (grampos da Lava Jato, entrevistas à imprensa, depoimentos a Sergio Moro, conversas com Dilma Rousseff, Jacques Wagner, Rui Falcão, Lindbergh Farias, Eduardo Paes e outras pessoas). Com isso, ela fez uma meticulosa comparação entre as gravações de conhecimento público e o áudio questionado.

Nos 3min23s da gravação, o suposto Lula conversa com um interlocutor desconhecido. Ao fundo, ouve-se o som de uma TV ligada. Veja a transcrição das falas:


Alô! Pode falar! Como é que tu queria que eu tivesse?

(...)

Eu falei... inclusive pra ti... que um dia... mais dia, menos dia... ele é... ia abrir a boca.
(...)

– Eu tô vendo ele aqui agora, no Jornal Nacional.

(...)

– Falou tudo que tinha que falar! Lascou comigo... lascou ainda mais com a Dilma! Falou do apartamento... falou... do sítio, tá falando de tudo!

(...)

– Ninguém teve coragem de fazer o que tinha de ser feito com esse cara. Ele ficou preso em Curitiba... Tá preso em Curitiba há mais de um ano. Ninguém teve a competência e a coragem de acabar com esse cara, agora taí... o Joesley, vai ser pior!

(...)

– Por que que vai se pior? Agora ele já começou a cantar. Vai cantar mais...

(...)

– O Supremo tá querendo acabar com os benefício dele, ele vai ser preso aqui e nós vamos nos lascar!

(...)

– Ó lá! Tá falando lá! Abrindo a boca!

(...)

– Não adianta, meu querido, agora não adianta mais nada!

(...)

– Tu diz pra ele pegar o apoio dele, esse vagabundo, e enfiar no cu dele! Enfia no cu! Ah, ele que enfie no cu essa porra... desse caralho.... dessa... desse contato que ele tem.

(...)

 – Quando a gente precisou dele, ele não se meteu.

(...)

– Agora, que tá feita a merda, ele vem querer fazer rapapé?

(...)

– Por que que ele não foi comigo? Por... por que que ele não foi comigo, semana passada, na Bahia?

(...)

– Por que que ele não foi comigo na Paulista?

(...)

– Porque é um baita dum filha da puta!

(...)

– Ladrão, sem-vergonha... é só o que ouvi! Ladrão, sem vergonha...

(...)

– Não teve um trabalho de marketing! Não teve ninguém pra me ajudar!

(...)

– Ó aí, ó! Tu tá ouvindo? Cada vez... ca... merda! Agora tão falando... da minha defesa... que o Palocci tá sob pressão! Não adianta tá dizendo isso agora!

(...)

– Tá falando do... Emílio Odebrecht, o tal do... depoimento dele... É outro filho da puta, desgraçado!

(...)

– É um porra do caralho!

(...)

– Eu vou dar um telefonema pra... pra figura amanhã.

(...)

– Ah, vamo tudo la... lascado! Se fudemo tudo, que que tu a... que que tu acha?

(...)

– Tá bom.

(...)

– Eu vou ver, meu querido, o que que eu posso fazer! Agora não adianta mais nada, tá?

(...)

– Té mais!

(...)

– Vamos ver, eu não tenho condição agora! Não tenho condição agora! Eu tô cercado! Eu não tenho como...

(...)

– Tá?

(...)

– Eu tô aqui... tô... tô...

(...)

– ...dentro desse apartamento, cercado! Eu num posso... Eu não posso sair nem do prédio!

(...)

– Tá? Eu vou ver o que eu faço, tá bom?

(...)

– Tá bom!

(...)

– É muita pressão! Muita pressão!

(...)

– Tá... tá bom! Tchau pra ti. Boa noite!


As análises da gravação foram feitas inicialmente para avaliar se o conteúdo da gravação obedecia aos processos normais de articulação da fala, tais como coarticulação, ajuste temporal, prosódia e ritmo. Do ponto de vista físico-acústico, a perícia estudou os registros de áudio por meio da verificação de sua forma de onda (oscilograma), dos espectros de frequências e dos espectrogramas (gráficos em que a frequência da voz é representada no eixo vertical; o tempo, no eixo horizontal e a intensidade pelas diferenças de gradação da voz). Com base nessa varredura da gravação, o laudo aponta que “não foram encontrados indícios de eventos de interrupção, corte, superposição, deslocamento, emenda ou edição – em suma, não foram encontrados eventos indicativos de edição de caráter fraudulento”.

Ao comparar o áudio questionado com as 37 falas de Lula, a perícia buscou comprovar ou refutar a hipótese de que a voz é de Lula ou de um imitador. Nesse trabalho, há uma combinação entre as análises perceptivo-auditiva e acústica. “Em ambas as análises são considerados os parâmetros técnico físico-comparativos relacionados à anatomofisiologia do aparelho fonador, à condição neurocognitiva e ao comportamento linguístico do falante”, diz o laudo.

Utilizando esses parâmetros, há nove níveis de avaliação do conteúdo gravado. Tomando-se uma hipótese – A voz é de Lula – são possíveis os seguintes resultados:


+4: o resultado suporta muito fortemente a hipótese;
+3: o resultado suporta fortemente a hipótese;
+2: o resultado suporta moderadamente a hipótese;
+1: o resultado suporta levemente a hipótese;
0: o resultado nem suporta nem se contrapõe à hipótese;
-1: o resultado contrapõe-se levemente à hipótese;
-2: o resultado contrapõe-se moderadamente à hipótese
-3: o resultado contrapõe-se fortemente à hipótese
-4: o resultado contrapõe-se muito fortemente à hipótese.


A conclusão da perícia é que se observou uma plena conformidade entre o áudio questionado e as 37 gravações da voz de Lula, em relação ao sexo (características vocais masculinas), à fase do ciclo de vida (características vocais compatíveis com adulto em processo de senescência), às maneiras de iniciar e pontuar a conversa telefônica, aos marcadores do discurso e às características sociolinguísticas da fala.

Um exemplo é a ocorrência constante de monotongação, haplologia e harmonização vocálica nas falas gravadas. Monotongação é a mudança fonética que ocorre quando um ditongo é pronunciado como vogal simples, como nos caos de falô (por falou), lascô (por lascou) e começô (por começou). Haplologia é o apagamento total de uma sílaba, como em falodapartamento (por falou do apartamento) e prisidendarepública (por Presidente da República). Harmonização vocálica é a mudança de uma ou duas vogais na mesma palavra, criando uma sensação de uniformidade, como em quiridu (por querido), pricisu (por preciso) e pididu (por pedido).

Do ponto de vista acústico, o laudo apontou uma variação de frequência semelhante, tanto no áudio questionado quanto nas outras gravações, naqueles momentos em que o locutor aparenta se aborrecer com o assunto tratado ou com o interlocutor. “Os registros que compõem o material questionado são permeados por vários trechos de fala com o pitch (sensação de som grave ou agudo) bem mais agudo, provavelmente devido ao fato de estas emissões apresentarem um discurso com fala alterada, de conotação irritadiça e que transmite agressividade”, diz o laudo.

Sobre o comportamento comunicativo, os materiais analisados apresentaram evidentes semelhanças de repertório verbal, notadamente com “uso de expressões chulas, como palavrões, gírias e/ou xingamentos”. Observe alguns exemplos:


 


O laudo também destaca as manifestações hesitativas e repetições de palavras típicas do interlocutor, presentes em todos os materiais analisados. “A hesitação revela procedimentos adotados pelos falantes para resolverem problemas que surgem durante o processamento da fala. Sua característica básica é a presença de rupturas da fala”, afirma o laudo. E mostra exemplos:



 

Diante dessa quantidade notável de evidências, a perita Nerci Lino de Almeida Tonaco conclui:

“Embasada unicamente nos elementos de ordem técnica que revestem o presente laudo, considerados os graus de relevância (raridade) e de recorrência (frequência) dos achados a partir dos materiais analisados, tem a perita a consignar que o resultado obtido (evidência) ao final dos exames suporta muito fortemente a hipótese de que os registros de voz e fala presentes no material sonoro questionado tenham sido proferidos pelo mesmo locutor que produziu o material sonoro padrão – o ex-presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva, correspondendo ao nível +4 na escala utilizada por este trabalho, cuja faixa varia de -4 a +4”.

Em outras palavras, a voz é de Lula.

 


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