GLOBALISMO CHINÊS

As sandálias do pescador imbecil

Olavo de Carvalho · 30 de Março de 2020 às 20:35

O capitalismo ocidental transformou a China no que ela é hoje: uma potência econômica e militar disposta a dominar o planeta. 

Vocês se lembram do best-seller mundial de Morris West, "The Shoes of the Fisherman" (As Sandálias do Pescador), de 1963, depois filmado em 1968 com Anthony Quinn no papel principal? Provavelmente nem ouviram falar. O passado desaparece da memória pública com mais velocidade do que nunca, fazendo com que cada um de nós, ao longo da sua existência terrestre, passe por várias vidas descontínuas e inconexas, de modo que mesmo em tempo de paz todos vivam a experiência assim descrita pelo exilado Stefan Zweig na II Guerra Mundial: “Entre o nosso hoje, o nosso ontem e o nosso anteontem, não há mais pontes.” Assim, as linhas de força que moldam o curso da História se tornam invisíveis, fazendo com que mesmo as conseqüências mais previsíveis das causas mais óbvias desabem como surpresas demoníacas sobre a estupefacta humanidade.

A história do romance de Morris West é a seguinte: um bispo ucraniano recém-libertado do Gulag foge para Roma e é sagrado cardeal. Logo em seguida é eleito Papa. No trono de Pedro, ele é naturalmente acossado por todos os tipos de problemas mundiais que requerem dele uma tomada de posição. O mais grave é a miséria que está matando de fome milhões de chineses e inspirando ao governo de Pequim os mais loucos planos belicosos para a destruição do Ocidente.  Após muito meditar, o Papa decide vender os bens da Igreja para salvar a população chinesa e assegurar a paz no mundo. A decisão é anunciada num discurso triunfal do alto das janelas de São Pedro. 

Não interessa agora discutir a suposição pueril de que os bens da Igreja bastassem para salvar da miséria a mais vasta população da Terra, ou a de que os generais chineses desistiriam dos seus planos de guerra justamente no momento em que lhes chegavam, a custo zero, recursos mais que suficientes para realizá-los. A primeira dessas suposições baseia-se na total ignorância de que, no sistema bancário universal, o Banco do Vaticano é uma quitanda do interior facilmente manipulada pelas grandes fortunas internacionais. A segunda, na idéia imbecil de que para os generais chineses a guerra contra o resto do mundo fosse apenas a reação natural e justa a uma tragédia econômica produzida, supunha Morris West, pelos malvados ocidentais e não pelos revolucionários chineses que acabavam de trucidar setenta milhões dos seus compatriotas.

Diante disso, digo que também não interessa discutir se West era apenas um autêntico e sincero imbecil ou um esperto agente de influência plantado no meio literário ocidental, como milhares de outros, pelos serviços de inteligência da URSS e da China.

O que interessa é o seguinte: É quase impossível que o sucesso do livro e do filme não tenha excitado nem um pouquinho a imaginação do secretário de Estado americano Henry Kissinger, que então meteu na cabeça do seu chefe, o presidente Richard Nixon, a ideia de visitar a China em 1972 e restabelecer as relações diplomáticas e comerciais com a ditadura comunista de Pequim.

Após a viagem de Nixon, a ajuda financeira do governo americano e os majestosos investimentos de inumeráveis capitalistas ocidentais tiraram a China do buraco e acabaram por transformá-la na potência econômica e militar que hoje anuncia e vai realizando, como se fosse a coisa mais modesta do mundo, sua mimosa intenção de dominar o planeta.

Essa história mostra, da maneira mais clara possível, a ligação entre a cultura dominante, a linguagem da mídia, as decisões dos governantes e as escolhas dos investidores, com todo o cortejo de consequências que, na época, alguns analistas mais espertos, carimbados pelos demais como “teóricos da conspiração”, não deixaram de anunciar. 

Durante o governo Bill Clinton, quando os investimentos americanos na China alcançaram seus níveis mais altos, não faltou quem perguntasse se injetar tanto dinheiro na mais assassina das ditaduras não seria um crime contra a espécie humana e um risco que ameaçava destruir o Ocidente. 

A resposta liberal, dengosa como sempre, foi que a liberalização da economia acabaria por transformar a China numa democracia capitalista como os EUA. Essa ilusão liberal jamais teria parecido verossímil se o suposto dever de ajudar o governo chinês já não tivesse se imposto à massa dos cretinos ocidentais como uma obrigação moral cristã tão vital e irrecorrível que, para atendê-la, ficava justificada até mesmo a autodestruição financeira da Igreja católica.

Hoje assistimos perplexos à velocidade e a desenvoltura com que a China, espalhando o alarmismo contra um vírus que ela mesma criou e disseminou no mundo, se torna, da noite para o dia, a potência que decide a seu bel-prazer o destino de dezenas de nações e povos.
 

Olavo de Carvalho é filósofo, escritor e o presidente conselho editorial do Brasil Sem Medo.

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