OPINIÃO

As mortes no Capitólio

Fábio Gonçalves · 7 de Janeiro de 2021 às 17:35

Analisando os acontecimentos no Capitólio, Fábio Gonçalves fala sobre a diferença entre Marco Antônio e Donald Trump

“Entre a desonra e a guerra, eles escolheram a desonra, e terão a guerra”
(Winston Churchill)

 

Na peça de Shakespeare, diante do crime no Capitólio, César múltiplas vezes perfurado, Marco Antônio veio diante dos cidadãos romanos e concitou-os à rebeldia.

Depois do seu discurso, bradou o povo, inflamado e irritadiço:

"...as casas incendiemos de todos os traidores", "trazei fogo", "derrubemos os bancos", "derrubai logo janelas, cadeiras, o que for".

A isto, vendo a turba ensandecida indo no encalço dos assassinos e golpista, disse Antônio:

"Que vá por diante. Desgraça, estás de pé; toma ora o curso que bem te parecer".

Na tarde de ontem, outra morte se consumou dentro do Capitólio. Os senadores americanos, como os conspiradores aliados de Brutos, Cássio e Casca, feriram de morte, a punhais afiados, a vontade popular. Pois era César a vontade popular de Roma, como a democracia, a vontade popular americana. Mas o Senado, como o dos tempos de Cícero, traiu, dentro do Capitólio, a vontade popular; mataram a democracia como os de outrora mataram a César.

Quando a vítima, dilacerada no chão do Capitólio, deu seus últimos esgares agonizantes, olhando vesgamente a mão ensanguentada dos assassinos, e deixou escapar pelos dentes o último bafo de vida, enquanto isso, do lado de fora, Donald Trump, como Antônio, em discurso que a um tempo pranteava o cadáver e acusava os verdugos e os trapaceiros, atiçou a cólera e esquentou o sangue dos cidadãos.

Com efeito, a massa americana, como a romana, com o peito inflado do sentimento de injustiça e os músculos tesos pelo desejo de vingança, desabalou a correr atrás da canalha que, no Capitólio, matara, pelas costas, a vontade popular. E o povo americano entrou no Capitólio, mausoléu da democracia, novo templo da ignomínia e dos vilões. A desgraça estava novamente de pé.

Acontece que Trump, ao contrário de Antônio, arrependera-se dos sentimentos que espicaçara, espantou-se diante do fogaréu que acendera. Antônio só parou quando vingou o sangue de César em Filipos. Trump parou horas depois, convidando o mesmo povo que excitara, na frente do Capitólio, a lamentar em casa, ordeira e pacificamente, a finada democracia.

Não chamo, com isso, Trump de covarde. Não suportaria por algumas horas o que ele suportou nos últimos cinco anos. É um homem honrado, de caráter firme, fiel às suas palavras e ao seu povo. Fez muito pela América; retardou bastante o avanço das raposas húngaras, dos urubus iranianos e dos ursos chineses. Deu uma última esperança aos Estados Unidos e ao mundo de que a democracia, por muito que estivesse cercada de traidores, de Brutos e Cássios, resistiria mais algum tempo. E foi longe na briga. Não tão longe como Antônio, mas foi.

E é exatamente sobre essa diferença entre Antônio e Trump que gostaria de lhes falar.

Trump fez o máximo que permite a mentalidade política do Ocidente moderno. O máximo é o papel e as letras ali impressas. O máximo é a reclamação judicial. O máximo é a pressão retórica sobre algum parlamentar claudicante, sobre algum ministro indeciso. Está aí o limite, não importa a que situação se esteja querendo responder, a que problema se esteja buscando remediar.

O filósofo Eric Voegelin, em A Nova Ciência da Política, chamou a isto delírio gnóstico liberal. Se o comunista tem o delírio de que algum dia, em alguma terra sem dono, manará, das pedras comunais, leite e mel, o liberal-burguês acredita, por sua vez, que a terra prometida será conquistada, não pela ditadura, mas pela implementação global de uma Constituição, de um Parlamento e da Livre Concorrência.

É claro que dos dois delírios derivam modelos sociais concretos — em nada parecidos com os sonhos — e que, sob todos os aspectos, o liberal-burguês é melhor que o comunista.

É melhor, mas também derivado de um delírio. E aí está sua falha.

Diante da Invasão ao Capitólio, quando o povo, alvoroçado pelo líder — assim como fizera Antônio — teve o ímpeto honrado de fazer justiça ante o suplício de sua vontade, que era a democracia, conservadores, liberais e direitistas de todos os vieses vieram a público pontificar sua repulsa, sua ojeriza, seu repúdio, não ao crime, mas à reação popular diante dele.

O mantra é: “Nada justifica a violência”.

Repetiram-o o próprio Trump, o Ted Cruz e todos os republicanos, dos melhores aos piores; repetiram-no políticos do mundo inteiro, de países democráticos e de tiranias sanguinolentas; repetiram-no também nossos políticos, direitistas inclusive, e nossos juízes, inclusive os que louvam o Iluminismo, o da guilhotina, o da Vendéia.

Repetiram-no, assim, à náusea, à inconsciência, pois é este o mandamento dos mandamentos desta como que religião moderna, que é o Estado de Direito.

Veja-se o caso emblemático do Chamberlain, primeiro-ministro britânico quando da ascensão nazista. Hitler, de um lado, prometendo a violência total, a brutalidade, o genocídio; Chamberlain, do outro, propondo um trato por escrito, a assinatura de um papel. Até que alguém vigilante, como Churchill, interrompesse a marcha de Hitler, usando-se, como não podia deixar de ser, da mesma virulência, o líder alemão matou milhões e milhões de pessoas.

Ocorre que, desgraçadamente, o chamberlainismo, apesar de fracassado, tornou-se o timbre do homem-político Ocidental, mesmo o dos mais valorosos, como Donald Trump.

Com relação ao Trump e seu recuo, há de se fazer mais um reparo: não sei, não tenho a mínima ideia de qual seja a real distribuição de forças nesse campo de pré-guerra civil americana. O Trump provavelmente sabe. E pode ser que ele, ao contrário de Antônio, não tenha a seu favor um exército, fato que tornaria qualquer tentativa mais assanhada de revolta mero suicídio, mero massacre.

Todavia, mesmo considerando essa hipótese, que creio seja a mais verossímil, há a reação geral, a reação pomposa dos que, diferente do Trump, não pediram a paz por suposta prudência e compaixão, mas, como Chamberlain, por escrúpulos medrosos, por tibieza, por pusilanimidade. Medo, tibieza e covardia, aliás, justificadas por virtudes cívicas, por altivez civilizacional.  

O fato é que no Capitólio morreu a democracia e não há quem repare este crime. O mundo está nas mãos dos traidores.   

Vale notar que, metáforas à parte, como em Roma, morreu alguém de carne e osso no Capitólio. Uma mulher, uma patriota, tão patriota que servira às Forças Armadas do seu país, uma veterana de guerra. Não tenho notícias pormenorizadas de sua vida e não pretendo aqui romanceá-la. Tenho somente o fato bruto: morreu no Capitólio americano, ao lado da democracia, uma patriota. Chamava-se Ashli Babbit.

Além de Babbit, a polícia local anunciou a morte de outras três pessoas que, na hora do tumulto, estavam nos arredores do Capitólio.

Pode ser que destas mortes derive uma reação — quer pacífica, quer violenta. Claro, não uma reação dos políticos entorpecidos, por melhores intencionados que sejam, mas do povo, esta última sentinela da liberdade num Ocidente que definha. Como Roma definhou. 


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