OPINIÃO

O pedido de desculpas de Daniel Silveira e o Estado Total

Braulia Ribeiro · 22 de Fevereiro de 2021 às 15:16

Na noite de sexta-feira, quando o Congresso manteve a prisão de Daniel Silveira, o Brasil deu um salto em direção totalitarismo

Do teatro do absurdo que presenciamos no Congresso Nacional, na última sexta-feira (19), o que mais me perturbou foram os contínuos pedidos de desculpas do deputado Daniel Silveira (PSL/RJ). Depois que a relatora do caso leu as falas do dito cujo com todos os seus palavrões sem titubear nem corar, ficou já estabelecido o seu destino. Ele, até então o deputado preso injustamente, passou de vítima a agressor. De protagonista de um Congresso que mantinha ainda a aparência de independência, passou ao papel de pária da instituição que agora, aos olhos de todos, é apenas uma máquina corporativa, um mero apêndice burocrático do cadáver que é a democracia brasileira.

Tudo mudou em poucos minutos —porque o brasileiro cordial considera como o pior dos crimes morais a falta de polidez, a grosseria, principalmente quando vem das classes consideradas baixas.  Ao final do discurso da relatora, foi tudo para o espaço. Morreu naquele momento a liberdade de expressão, que ao me consta inclui o direito de se emocionar, de se irritar, de se irar e de dizer palavras de baixo calão. Todos esqueceram naquela hora das causas maiores pela qual se reuniram os parlamentares: a integridade da Constituição e a independência dos poderes da República. A vergonha das palavras feias era a grande sombra sobre o Congresso. E foi assim que correu a noite, a maioria esmagadora dos legisladores escolhendo agradar de maneira subserviente e abjeta os algozes da Constituição Federal e a nação perplexa assistindo a tudo pela TV.

Não existe muita diferença entre um estado paternalista e o estado totalitário. Para que o primeiro, ao qual nós brasileiros estamos muito bem acostumados, se transforme no segundo, só bastam alguns passinhos. Na noite da sexta-feira, demos um grande salto em direção do totalitarismo. Quando um de seus poderes se arroga o dever de gerenciar áreas da vida do indivíduo sobre as quais ela, a pessoa no singular, deveria ter a prerrogativa de decidir de acordo com a sua consciência, o Estado totalitário está configurado. Se na ocasião da prisão de Oswaldo Eustáquio e Sara Winter já tínhamos nos aproximado perigosamente da sensação do controle totalitário,  agora não podemos mais ter dúvidas de estarmos completamente debaixo dele. Mas, a meu ver,  não foram os votos dos congressistas pusilânimes que nos  colocaram ali; foram os pedidos de desculpas de Daniel Silveira.