ORIENTE MÉDIO

Análise do resultado das eleições em Israel (parte I)

Ricardo Gancz · 7 de Março de 2020 às 17:08

A popularidade de Benjamin Netanyahu foi mais uma vez confirmada. Seus adversários do partido Azul-e-Branco tiveram resultado decepcionante

A mídia brasileira e internacional está enfatizando a vitória de Benjamin Netanyahu. A situação é muito mais complexa do que parece. Se você não conhece como funciona o processo de formação do governo em Israel, por favor, leia meu artigo anterior. As explicações lá contidas são essenciais para entender a análise desse e dos próximos dois artigos.

O resultado das eleições

No Brasil, estamos acostumados a ver a apuração dos votos com ansiedade e expectativa e horas após o fechamento das urnas normalmente já temos indicação de quem será o próximo presidente. Em Israel, o processo é muito mais longo uma vez que nenhum partido consegue votos suficientes para ter 61 ou mais cadeiras no parlamento.

 

No momento que eu escrevo todas as urnas foram apuradas, com exceção dos votos dos diplomatas, soldados, presos e hospitalizados. O resultado até o momento é o seguinte:

Likud: 36

Azul-e-Branco: 33

Lista Conjunta: 15

Shas: 9

Ahdut haTorah: 7

Avodah-Gesher-Meretz: 7

Yisrael Beitenu: 7

Yamina: 6

O resultado pode mudar levemente (algum partido ganhar ou perder uma cadeira) em função do sistema de alocação de votos excedentes. Nesse artigo e no próximo, eu falo um pouco sobre cada partido e o que o resultado significa para ele. Em seguida irei fazer uma análise sobre as opções de Netanyahu a partir desse resultado.

 

Demonstração de força na vitória: Likud

Certamente Netanyahu foi o grande vencedor das eleições. Desde o ano passado, ele enfrenta acusações de corrupção e essas acusações se tornaram motivo de uma guerra política. Aliados de Netanyahu acusam o Judiciário – que é de esquerda em sua maioria – de tentar manipular o sistema para retirá-lo do poder, uma vez que não conseguem fazer isso nas urnas. O público israelense parece concordar.

 

Nas eleições de setembro de 2019, o Likud ganhou 32 cadeiras, quatro a menos do que agora. A diferença, de aproximadamente 150 mil votos, é bastante expressiva, sendo o melhor resultado da história do Likud sob a liderança de Netanyahu (no passado, o Likud já obteve mais cadeiras sob a liderança de Menachem Begin, Itzhak Shamir e Ariel Sharon). Considerando que Netanyahu já serviu quatro termos como Primeiro-Ministro, o resultado é expressivo pois mostra a satisfação do israelense com o Governo.

Dois elementos podem ser destacados. Em primeiro lugar, a economia de Israel continua funcionando muito bem. Apesar do custo de vida elevado, o salário mínimo é de 7 mil reais e o desemprego está na taxa de 3,6%. Netanyahu ainda colhe louvores da época que foi ministro da Economia (2003) quando, levantando a bandeira do liberalismo econômico, introduziu muitas mudanças para diminuir o welfare-state, diminuiu a máquina pública e fomentou empregos. Desde então, a economia continuou crescendo e o desemprego diminuindo. Não é por acaso que o Likud é o partido de maior expressão entre a classe média israelense.

Em segundo lugar, o recente anúncio do Plano de Paz de Trump realçou um dos aspectos de Netanyahu mais em alta com os israelenses: a sua capacidade de fazer política externa. Mesmo parte dos eleitores do partido Azul-e-Branco consideram Netanyahu como o político israelense mais hábil para conduzir a política externa.

Quando o país rumou às terceiras eleições, parte da grande mídia israelense decretou que Netanyahu seria derrotado. O motivo foi a que nas eleições de abril de 2019, o Likud ganhou 35 cadeiras enquanto em setembro de 2019, 32. Analistas esperavam que o Likud poderia cair ainda mais. O resultado é um banho de água fria em toda a esquerda israelense (e mundial) pois mostra que a popularidade de Netanyahu continua imbatível.

 

Os derrotados: Azul-e-Branco

O Azul-e-Branco tem, no momento, 33 cadeiras (dependendo do resultado final pode cair para 32), o que é um resultado similar ao obtido nas eleições de setembro de 2019. O partido nasceu da nasceu da união de um partido de centro-esquerda, o Yesh Atid, com um partido recém-formado pelo ex-ministro da defesa, Moshe “Bogie” Yaalon, que era membro do Likud, e com um partido recém-formado pelo ex-comandante do exército Benny Gantz.

 

Na bandeira deles estão inclusos o aumento dos benefícios sociais e da máquina estatal e um afastamento maior da participação da religião na esfera pública. Contudo, a maior bandeira deles é a de ser uma espécie de #elenão israelense. O grande foco da campanha política foi o de trazer uma alternativa ao governo do Netanyahu.

A maior dificuldade enfrenta por eles foi a de ficarem em cima do muro em diferentes questões importantes. Por exemplo, quando o Plano de Trump foi anunciado, o Azul-e-Branco teceu elogios e disse que colocaria o plano em prática junto e com o apoio dos órgãos internacionais. O que exatamente isso quer dizer? Que eles iriam de fato trabalhar para colocar o plano em prática ou que eles só iriam fazê-lo com um apoio da ONU e da União Européia que não virá e, portanto, estão rejeitando o plano? Os líderes do partido não desfizeram a ambigüidade nessa e em outras situações.

Um dos motivos é que, por um lado, o partido só teria chance se conseguisse tirar os votos do Likud e, portanto, precisavam de uma imagem que apelasse para o público que vota no Likud, ou seja, que tende à direita do espectro político. Contudo, tanto a Yemina (a direita israelense) quanto os ultra-ortodoxos dificilmente aceitariam uma coalizão com um partido que não tem uma visão firme sobre a segurança e que querem diminuir a influência da religião. Para o Azul-e-Branco, isso significa que eles teriam que fazer uma coalizão com os partidos árabes, os comunistas e toda a esquerda israelense, além de precisar convencer mais um dos partidos ou, ao menos, alguns parlamentares (provavelmente do Likud) a trocar de partido. Nas eleições de setembro de 2019, Benny Gantz teve a oportunidade, mas não conseguiu formar tal coalizão.

Justamente por ter que jogar nos dois lados, o partido não deixou nenhuma mensagem realmente clara para além de ser uma alternativa ao governo de Benjamin Netanyahu e o resultado praticamente semelhante ao das últimas eleições foi uma grande decepção para o partido.

Como uma última observação, algo que simplesmente não está no escopo da mídia israelense – grande ou pequena – é que o Azul-e-Branco seria um partido bastante favorável à agenda globalista.

 

Na Parte II...

As 36 cadeiras que o Likud recebeu fazem do Likud o partido mais votado dessas eleições e certamente Netanyahu será o responsável por tentar formar a próxima coalizão. Antes de analisar como Netanyahu poderá formá-la, faz-se necessário conhecer os partidos menores pois eles terão um papel importante no processo.


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