DIÁRIO DE UM CRONISTA

Almas esquecidas

Paulo Briguet · 27 de Julho de 2022 às 16:41

A secretária que ficou três anos abandonada em um apartamento e um seminarista que se lembra de nós

 


“O desafio é fazer do sofrimento uma oferta agradável a Deus.”
(Igor Pavan)



Em fevereiro deste ano, a polícia de Londres atendeu a um chamado em um prédio residencial em Peckham, região sul da capital britânica. A presença dos policiais foi solicitada para que eles avaliassem os danos causados por uma tempestade no prédio. Ao arrombarem a porta de um dos apartamentos atingidos, que estava trancado e aparentemente vazio, os agentes da lei encontraram o corpo de Sheila Seleoane, uma secretária médica de 61 anos.

Acontece que Sheila estava morta desde 2019.

Durante três anos, ela foi esquecida por todos. Alguns vizinhos chegaram a reclamar do cheiro proveniente do apartamento, mas a ninguém ocorreu perguntar pela moradora. O lockdown decretado em 2020 só dificultou as coisas. Sem amigos ou parentes próximos, Sheila simplesmente não foi procurada.

Minto. Entre 2019 e 2021, a empresa administradora do prédio residencial emitiu 89 comunicados – entre e-mails, cartas e telefonemas não atendidos – sobre a falta de pagamento do aluguel do apartamento. Nenhum funcionário se preocupou em saber o motivo da inadimplência. Como o diretor da empresa declarou, em um pedido público de desculpas, ninguém fez a pergunta mais importante: “Você está bem, Sheila?”

Quando soube da triste história da secretária inglesa, imediatamente pensei que ela não deve ter sido a única alma esquecida nestes nossos tempos. É provável que milhares de pessoas, em diferentes graus, tenham experimentado uma solidão semelhante. Pensei nos idosos que morreram em Nova York – está lembrado deles? –, e nas crianças que morreram dentro do ventre de suas mães, assassinadas sem conhecer a luz do dia, e nos mendigos que eu encontrava na rua e não encontro mais, e nos afogados e baleados, e nos zumbis da Cracolândia, e em tantas outras vidas silenciosas, que partiram sem adeus e sem lágrimas, a não ser as delas próprias.

Sheila me fez lembrar Almas Mortas, o genial livro que o ucraniano Gogol deixou inacabado, e que tanto furor causou aos nacionalistas russos de seu tempo. De Gogol, autor daquela que é uma das mais perfeitas novelas que já li – O Capote, obra que meu velho e querido pai também admirava –, meus pensamentos se voltaram para as almas do Purgatório, esquecidas por todos, mas não por Deus. Pobres e santas almas do Purgatório, que padecem, mas padecem com esperança, porque um dia – talvez hoje! – lhe está reservada a graça de Deus, essa participação na glória divina da qual só temos pequenos vislumbres neste vale de lágrimas que é o nosso mundo.

E por falar em almas, não convém esquecer as maiores. Estou falando do seminarista Igor Pavan, cuja longa guerra contra a doença estamos testemunhando há vários meses. Dias atrás, o repórter Diógenes Freire, aqui do BSM, ligou para Igor para entrevistá-lo e, em vez de encontrar alguém a ser consolado, viu uma alma que consola, um homem de fé mais preocupado com a salvação e o bem daqueles que se puseram a ajudá-lo em sua luta contra o câncer. Diante de uma personalidade tão luminosa, é o caso de perguntar, com o Apóstolo: “Ó morte, onde está o teu aguilhão?” Almas como a de Igor Pavan jamais serão esquecidas, porque não se esquecem de ninguém. Nenhuma alma será deixada para trás onde estiver o amor de Deus.

Rezemos pelas Sheilas e todas as almas esquecidas – porque o Igor está rezando por nós.

– Se você quiser colaborar com o tratamento do seminarista Igor Pavan, clique aqui.

 


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