CULTURA

Alfredo Vieira, o pintor do Brasil profundo

Fábio Gonçalves · 13 de Setembro de 2020 às 15:14

Conheça um pouco da vida e da obra de um dos maiores artistas plásticos do país

— Mas, meu Deus, como isto é bonito! Que lugar bonito pra gente deitar no chão e se acabar!...
(Guimarães Rosa, Sarapalha)


 

Dona Maria, negra franzina e pobre, vinha que vinha se embrenhando pelas milhares de barracas dos artesãos, na Afonso Pena. Como trouxesse qualquer aperreio no peito, nada conquistou grandemente sua atenção. Até que viu uma tela bonita do sertão de Minas Gerais. Parecia fotografia. Em destaque, um casebre humilde, feito o de sua infância. Estagnou-se a mulher defronte a tenda e entabulou prosa com o pintor:

— É o senhor que desenha?

— É, sim, confirmou o homem.

Dona Maria demorou-se ali a contemplar a tela que a levara à meninice. Dizia todos os detalhes, como se a casa fosse mesmo a de seus pais. A terra batida, barrenta, o rodapé da casa respingado, o arvoredo meio selvagem meio domado enfeitando o derredor, o jirau nos fundos, a panela fumegando na lenha, fazendo um fumaceiro de cheiro bom. Pois até cheiro dona Maria sentiu, semicerrando os olhos, voltando ali, no meio da avenida tumultuosa, aos seus melhores tempos.

*****

Foi num episódio assim que o pintor Alfredo Vieira entendeu o verdadeiro valor da sua arte, que, diz ele, vale menos o que pagam do que as emoções que desperta, as lembranças que enseja.

Conheci o trabalho de Alfredo Vieira no Facebook. Um dos meus amigos desembestou a compartilhar suas sublimes pinturas de paisagens, retratos do Brasil profundo, bandas que moço urbano como eu só vejo de nunca em nunca, em viagens esporádicas ao interior de São Paulo.

Uma tela mais bonita que a outra. Fiquei admirando as pinturas por horas. As cores, a textura, a profundidade, os bichos e as plantas, a gente simples. Vi ali o país que se lê no Guimarães Rosa, no José Lins do Rego, que se ouve no Elomar Figueira.   

Fui então xeretar o artista e lhes trago agora notícias de sua vida e obra.

 

Trajetória

Alfredo Vieira é mineiro nato, da gema, de BH. Se diz pintor desde sempre, desde a concepção. Nasceu com isso. E não pra menos. Alfredo é filho de Afrânio Reis, o Senhor Afrânio da Feira de Artes e Artesanato de Belo Horizonte. Aliás, Afrânio é dos pioneiros da chamada Feirinha Hippie, a maior feira de artesanato da América Latina. Como lá se diz, faça sol ou chuva, todo domingo os mais de 2.300 artistas estendem suas barracas na avenida Afonso Pena, cercanias da Praça da Liberdade, e expõem ali o trabalho de suas mãos.

Alfredo desde menino ia a esta feira com o pai; com efeito, nutriu-se de arte. Tanto que pintou sua primeira tela aos 5 anos e aos 10 conseguiu licença para expor seus trabalhos na feirinha, onde permaneceu 33 anos.

Nesse entretempo, estudou, lapidou-se, e se desenvolveu no seu estilo de maturidade: o hiper-realismo.

O hiper-realismo é uma escola artística surgida nos EUA cujo mote, grosso modo, é a fiel representação pictórica daquilo que vemos, fiel a ponto de não sabermos se é pintura ou fotografia.

Quadro de Alyssa Monks, um dos grandes nomes do hiper-realismo e uma das referências de Alfredo Vieira

 

Em 2002, Vieira foi à Itália participar de exposições e estudar, destarte afiando ainda mais seu pincel. Depois da temporada na Europa voltou ao Brasil, deixou a feirinha para alçar vôos mais altos e desde então dá lições de desenho e pintura, em Minas.

 

Inspirações

Como Newton, nosso artista é grande pois está montado no ombro de gigantes. Tem como inspiradores Caravaggio, Vermeer, Coubert, Bouguereau, Van Gogh. Só gênio. Demais, admira os brasileiros João Bosco Campos e Edgar Walter, dois tesouros que a nossa invencível displicência cuida de deixar soterrados no jardim do esquecimento.

Preparando a ferradura, de João Bosco Campos

 

 

Vacas, de Edgar Walter

 


 

Panorama da arte no Brasil atual 

E sobre essa ignorância nacional aos nossos grandes artistas, pecado nacional que nos confina à mediocridade, ao viralatismo, Alfredo Vieira muito o lamenta.  

Diga-se desde já que, embora Alfredo não tenha frequentado escolas de arte, ele se considera um pintor academicista. E isto por herança paterna.

Grosso modo, o artista acadêmico é o que segue a tradição metodológica derivada das escolas de arte europeias, mais precisamente da Academia Francesa criada no século XVI, sob o cetro de Luís XIV, o Rei Sol.

Pietà, de William Bouguereau. Exemplo de arte do movimento academicista

 


 

No Brasil, os tempos áureos das artes plásticas coincidem com o auge do academicismo fomentado pela Academia Imperial de Belas Artes, fundada em 1816 por el-rei Dom João VI. Saíram dali um Pedro Américo, um Benedito Calixto, um Almeida Júnior.

Caipira Picando Fumo, de Almeida Júnior

 

Todavia, já nas primeiras décadas da República, a arte acadêmica foi sendo paulatinamente escanteada para dar lugar as agora hegemônicas artes modernas e contemporâneas — que, ao fim e ao cabo, operam como antítese, como opositoras ferrenhas dos estilos, por assim dizer, clássicos ou tradicionais.

Abaporu, de Tarsila do Amaral ​​​

 

E Alfredo questiona: por que hoje se dá tanto protagonismo à arte contemporânea, fazendo-se tão pouco caso do academicismo?

E cita como exemplo o Museu Inhotim, de Brumadinho. Grande acervo a céu aberto, espaço excelente, estrutura fantástica. Todavia, cheio de obras grotescas, beirando o estritamente feio.

 

Beam drop, Chris Burden (EUA). Obra exposta no Museu Inhotim

 

 

A importância da beleza

Qual seja, para Vieira, concordando assim com o filósofo britânico recém falecido, o Roger Scruton, a beleza importa.

Pois a arte tem que deslumbrar. E é a beleza o que deslumbra, o que comove, o que emociona. E só a beleza faz isso com qualquer um, bastando ser gente, do simples ao refinado, do pobre ao magnata. Veja-se a dona Maria. A arte tem que ser feita de modo que donas Marias, andando distraídas e acabrunhadas, oprimidas sob o peso da vida, da banalidade, sejam de um golpe arrebatadas, e, diante da obra bela, se lembrem de que a dureza do agora pode ser transcendida.

E é justamente o que, em regra, não faz a arte conceitual, arte que precisa se explicar, que carece de manual de instruções, que só gente mui versada consegue apreciar — honesta ou fingidamente. No fim, é coisa elitista — feita para uma elite autorreferente, uma rodinha, uma panela.

 

A temática rural 

Sobre sua predileção por paisagens rurais, Alfredo cita Tolstói: “Se queres ser universal, comece pintando a sua aldeia”.

E a aldeia do pintor não é só o interior de Minas: é o feérico interior do Brasil, os nossos morros e vales, nossos sertões ora de matas densas ora de chão seco e rachado, nossa gente simples e meio esquecida que fala em sotaque carregado, que conta seus causos, que reza Ave Maria antes de dormir, que tira o sustento dos poucos palmos de terra que o destino lhes conferiu.

É este Brasil que o artista passa o dia desenhando, diligentemente, no seu ateliê.

Aprecie algumas telas de Alfredo Vieira:

 

Lavanderia, 2013

 

 

Refúgio Caipira, 2016

 

 

O Leiteiro, 2014

 

Siga Alfredo Vieira em suas redes sociais: Instagram e Facebook.

 


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