ENTREVISTA EXCLUSIVA

A CORAGEM DE ALFABETIZAR

Paulo Briguet · 27 de Fevereiro de 2020 às 08:52

Ilona Becskeházy fala sobre a luta do governo Bolsonaro para melhorar a qualidade da educação básica e vencer um dos maiores problemas do país: o analfabetismo gerado dentro da escola

Apesar do bombardeio diário de dardos venenosos, urros, xingamentos, golpes rasteiros, facadas virtuais, ofensas, chiliques, imprecações, maledicências, faniquitos e, principalmente, fake news contra o governo Bolsonaro, ainda é possível escutar, em meio à algaravia midiática brasileira, algumas vozes dissonantes que, para espanto geral das classes matraqueadoras nacionais, manifestam esperança naquilo que o atual presidente e sua equipe vêm realizando. Uma dessas vozes é a de Ilona Becskeházy. Doutora em políticas educacionais, com mais de 20 anos de dedicação e um vasto conhecimento da produção científica internacional na área, Ilona tem, para dizer o mínimo, uma visão bastante positiva do Plano Nacional de Alfabetização (PNA) elaborado pelo governo federal. Desde o ano passado, em suas manifestações públicas — artigos, entrevistas, comentários no rádio ou publicações em redes sociais —, Ilona não se furta a debater com os críticos e adversários do governo Bolsonaro que ocupam espaços de destaque na grande mídia, nas universidades e nas poderosas fundações globalistas com interesses na educação.

Mas o que é isso?! Uma doutora que elogia Carlos Nadalim, Abraham Weintraub e... Jair Bolsonaro?! Sim. Pela primeira vez, desde que começou a estudar políticas educacionais, Ilona Becskeházy vê chances reais de mudança na máquina gigantesca que durante décadas revelou-se eficientíssima para enriquecer picaretas e cronicamente incapaz de vencer o analfabetismo funcional de milhões de crianças brasileiras.

Quando Ilona fez a sua tese de mestrado, procurou responder a duas questões:

1) O que é o modelo de educação em Sobral (CE), conhecido pelos excelentes resultados na alfabetização de crianças?

2) É possível implantar esse modelo em todo o Brasil?

Ilona encontrou no governo Bolsonaro a esperança de que a segunda pergunta seja respondida afirmativamente.

Admirado de sua coragem, decidi conversar com a professora Ilona sobre o recém-lançado programa “Tempo de Aprender”, e conhecer um pouco de sua singular e enriquecedora trajetória nesta guerra pela educação. Vale a pena saber o que ela pensa sobre o passado, o presente e o futuro da alfabetização no Brasil.

 

Paulo Briguet: Como a sra. entrou nessa guerra pela educação?

Ilona Becskeházy: Comecei a trabalhar na área em 1996, com programas de bolsas de estudo. O meu interesse profissional pelo assunto uniu-se a uma motivação moral e espiritual. Depois de algum tempo, quando fui fazer mestrado e doutorado, comecei a comparar a produção acadêmica do Brasil e do exterior — e percebi que havia alguma coisa estruturalmente errada na forma de educar aqui no Brasil. Como alfabetizar de uma maneira efetiva? Como garantir que rapidamente um aluno, a partir dos 5 anos, adquira a capacidade de ler no código alfabético, com compreensão, e consiga escrever de maneira autônoma, comunicando-se com as outras pessoas por linguagem escrita? É preciso levar para a sala de aula aquilo que a ciência confirma. Estamos há alguns séculos ensinando milhões de pessoas a ler e escrever; o processo escolar nos países desenvolvidos já tem 200 anos. Com base nessa experiência, é possível dizer que algumas técnicas funcionam, aceleram o processo. Hoje é totalmente normal que uma criança de 5 anos leia e compreenda um texto simples, uma fábula, entenda por que um personagem é bom ou mau, qual o resultado da ação de um personagem. A ciência percebeu que essa etapa do aprendizado da leitura na primeira infância organiza as sinapses dentro da mente da criança. Uma das falácias que existem dentro do Brasil — e cada vez mais eu acredito que ela não existe por ignorância, mas é sistemática e intencional, embora conte com a manipulação de uma massa mal informada — é negar que a capacidade de processamento do aluno depende do estímulo desde muito pequeno. Aqui no Brasil, há uma oposição sistemática a objetivos de aprendizado desde a pré-escola. Se você proíbe de fazer isso, você está alijando uma parte da população de organizar as sinapses na cabeça da criança desde cedo.

 

Paulo Briguet: Em 2011, a ex-presidente Dilma Rousseff elaborou um plano para combater o analfabetismo no Brasil. Por que não deu certo?

Ilona Becskeházy: Eu não duvido que a presidente Dilma estivesse realmente preocupada com o problema. Mas, quando o seu comando bateu no MEC, enfrentou as trincheiras bem estruturadas lá dentro. Quando você lê o PNAIC (Pacto Nacional pela Alfabetização na Idade Certa), percebe que as pessoas responsáveis por elaborar o programa não foram capazes de estudar as referências técnicas atualizadas. Elas não lêem inglês — nem querem aprender. O MEC estava consolidado na ignorância. E gente do Conselho Nacional de Educação simplesmente se recusou a ajudar. Dilma não conseguiu que o seu governo produzisse um material adequado de alfabetização porque o sistema todo estava ocupado por gente que não queria alfabetizar. O MEC, as secretarias, as universidades se recusaram a participar do processo de organização mental das crianças brasileiras desde a primeira infância. Foram R$ 3 bilhões investidos em um projeto de péssima qualidade, e que fracassou em seus objetivos porque não respeitava a ciência cognitiva nem levava em conta os modelos bem-sucedidos de outros países.

 

Paulo Briguet: Quando entrevistamos Abraham Weintraub, eu perguntei ao ministro qual foi o MEC que ele havia encontrado. Agora eu pergunto à sra.: qual é a real situação da educação brasileira após décadas de erros?

Ilona Becskeházy: A educação brasileira é uma terra arrasada. É diferente do que acontece com a economia. Antes de trabalhar com educação, eu trabalhei em banco. Vi o Brasil se transformar rapidamente em uma década. As pessoas foram estudar fora, o país ganhou um corpo de economistas de padrão internacional, o mercado financeiro mudou completamente, o governo tem gente de carreira nas diversas áreas da atividade econômica. A educação não tem isso. A educação é um campo absolutamente desolado, é terra arrasada. Arrasada do ponto de vista da produção acadêmica, da capacidade de qualificar o corpo técnico (porque eles não sabem inglês e não querem aprender). É raríssimo aparecer um texto em inglês na pós-graduação, e quando aparece os alunos fazem motim!

 

Paulo Briguet: E como é possível começar a mudar esse quadro desolador?

Ilona Becskeházy: Pela primeira vez, eu vejo um governo disposto a fazer as transformações necessárias. Percebi isso antes mesmo da posse do presidente Bolsonaro, mas tive a certeza de que os rumos estavam mudando quando conheci o trabalho do professor Carlos Nadalim [secretário de Alfabetização do MEC] e li o Plano Nacional de Alfabetização. No ano passado, participei da Conabe (Conferência Nacional da Alfabetização Baseada em Evidências). É uma iniciativa que outros países já tiveram: antes de modificar uma política educacional, você reúne especialistas para refletirem a respeito do estado da arte daquele assunto. Veio gente de Portugal, da Alemanha, dos Estados Unidos. Por exemplo, o professor Nuno Crato (ex-ministro da Educação de Portugal) fez uma palestra sobre as práticas educacionais bem-sucedidas nas escolas portuguesas. Essas informações coletadas vão fundamentar as mudanças na política de alfabetização do Brasil. E o governo só pode fazer isso por indução, cumprindo o que está determinado pelo Artigo 211 da Constituição Federal: “A União organizará o sistema federal de ensino e o dos Territórios, financiará as instituições de ensino públicas federais e exercerá, em matéria educacional, função redistributiva e supletiva, de forma a garantir equalização de oportunidades educacionais e padrão mínimo de qualidade do ensino mediante assistência técnica e financeira aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios”.

 

Paulo Briguet: Como a sra. avalia a qualidade do programa Tempo de Aprender, lançado recentemente pelo MEC?

Ilona Becskeházy: Desde 1966, com a publicação do famoso Relatório Coleman nos EUA, começou um forte questionamento internacional sobre os gasto com educação, Iniciou-se, nos países desenvolvidos, um amplo processo de pesquisa sobre a eficácia escolar. Nos últimos anos, somou-se a esse arcabouço técnico uma série de trabalhos sobre o impacto do aprendizado no cérebro das crianças. Os estudiosos identificaram um nexo causal entre certas políticas educacionais e a capacidade de aprendizado dos alunos. Mas o Brasil, infelizmente, ficou alijado desse processo. O programa atual do MEC finalmente incorpora esse conhecimento científico às políticas educacionais do governo. Há o enfoque em alfabetizar no primeiro ano. Para avaliar se essa alfabetização foi bem-sucedida, haverá a medição de fluência: o número de palavras de um determinado tipo de texto que uma criança lê em voz alta, com prosódia e compreensão. Isso é uma medida básica na alfabetização — e que estava praticamente proibida nas escolas brasileiras! A medição de fluência na leitura está para a alfabetização como o termômetro está para uma consulta médica. É o básico. Além disso, o programa contempla o oferecimento de material de instrução para os professores. Isso acontece em vários países. É necessário que professor entenda o estado da arte sobre aquilo que vai ser ensinado.

 

Paulo Briguet: Todo o programa Tempo de Aprender se baseia na livre adesão. Não há nada imposto de cima para baixo. A sra. acredita que os secretários municipais e estaduais vão adotar o programa?

Ilona Becskeházy: É um fato que temos grupos organizados torcendo contra esse programa e, aliás, contra o sucesso do governo Bolsonaro como um todo. E o MEC, como você disse, só pode agir por indução. Mas há o seguinte: ao criar um sistema de avaliação de alfabetização, você expõe aquele pessoal que não está trabalhando bem. O importante é que o governo federal faça, junto aos estados e municípios, e à população em geral (e este é um componente fundamental), uma campanha de esclarecimento sobre o que é fluência. Os pais são grandes aliados nesse processo. Porque todo pai e mãe quer ver o seu filho alfabetizado. É possível, sim, induzir as pessoas a mudarem hábitos. Não houve resistência inicial ao uso obrigatório de cinto de segurança e capacete, à proibição do fumo em lugares públicos? A população mudou hábitos. Os professores brasileiros também podem mudar seus hábitos pedagógicos e educacionais... Para isso, é preciso que o governo federal se comunique com clareza, e essa comunicação não pode ser direcionada somente às escolas e ao corpo dos educadores. A comunicação tem que ser feita ao público em geral. Qualquer pai ou mãe vai entender o que é fluência de leitura se você explicar, no rádio, na televisão, no jornal. O governo tem que ocupar espaços. Tem que dizer aos pais: “Se seu filho tem 6 anos, ele precisa ler esse texto aqui e responder a essas perguntas aqui”. Precisamos ter os dias nacionais do teste da fluência. Nós conseguimos quebrar a resistência em outros campos com campanha de esclarecimento. O governo precisa captar uma força importante: o filho que está na escola elementar. A maioria dos pais consegue fazer alguma coisa por essa criança dentro de casa. Primeiro, porque há uma dependência afetiva, emocional, psicológica, até a pré-adolescência. E outra: são conceitos elementares, que os pais compreendem. Se você tem um material didático bom, o pai consegue se sentar com o aluno e ajudá-lo.

Paulo Briguet: A sra. estudou profundamente o modelo de educação adotado pelo município de Sobral (CE). Como a sra. avalia a experiência de Sobral?

Ilona Becskeházy: Quando ouvia falar de Sobral, eu dizia: Isso só pode ser fraude. Não é possível. Mas eu aceitei o desafio de escrever o currículo de Sobral. Havia conhecido o secretário de Educação do município, uma pessoa fantástica, o Júlio Alexandre. No primeiro dia de trabalho, fui visitar uma escola bem pobre. Uma escola muito pequena, com telhas à vista, tudo muito simples. Mas não faltava nada do que era necessário para o aprendizado. E todos os alunos estavam alfabetizados no primeiro ano. Eu me lembro das máquinas de xerox modernas, que ficavam numa sala com equipamento de ar condicionado, e um aviso na porta: “É proibido fazer cópias de atividades não aprovadas pela diretoria”. A coordenadora pedagógica vinha com as planilhas de progressão de todos os alunos da escola, indicando o progresso de cada um na leitura. Nas aulas, não havia ninguém no fundo da sala, esquecido. Todo mundo trabalhando. Naquela época, minha filha estava em processo de alfabetização numa escola de elite em São Paulo. Ela já sabia ler, mas seus colegas de classe não. Resolvi tirá-la da escola depois de conhecer a experiência de Sobral. Naquele momento eu percebi que havia algo muito errado com a alfabetização brasileira. E comecei a me perguntar: — Como é que pode existir uma coisa dessas e não ser a regra? Como é que as universidades — inclusive as cearenses — podem ignorar e até criticar um trabalho desses? Um aluno de Sobral, aos 6 anos, é do mesmo nível de um aluno de país desenvolvido. Só não está no mesmo nível no 5º e no 9º ano porque o material didático no Brasil é muito ruim. No 1º ano, está.

Paulo Briguet: E como aplicar esse modelo no Brasil todo?

Ilona Becskeházy: Quando eu escrevi minha tese, afirmei que era impossível reproduzir a experiência de Sobral no país inteiro. Mas, na minha defesa de tese, uma das professoras da banca examinadora disse que eu não poderia afirmar isso com toda certeza. E se aparecesse alguém disposto a queimar capital político para aplicar no Brasil aquilo que acontece em Sobral? É o que está acontecendo agora... Essa pessoa é o Bolsonaro, é o Weintraub, é o Nadalim! Eles estão dispostos a enfrentar os interesses organizados contra a educação. Os irmãos Ferreira Gomes — eu tive bastante contato com o Ivo, que foi secretário de Educação e depois prefeito de Sobral, uma pessoa incrível — conseguiram quebrar a resistência às mudanças. Antes, os diretores e professores eram indicados pelos vereadores. Mas eles conseguiram criar, em torno da educação, uma cultura organizacional séria. Se você transpuser essa situação para o MEC atual, haverá um custo muito grande: o custo de transformar o critério político em critério técnico. E isso só se faz com convicção moral e apoio das pessoas — principalmente dos pais e mães de alunos. O chefe do Executivo tem que bancar essas reformas: e eu vejo essa convicção no presidente Bolsonaro. Ele hoje é a esperança da alfabetização no Brasil.

 

Paulo Briguet: A sra. falou em “interesses organizados contra a educação”...

Ilona Becskeházy: Veja, eu trabalhei na Fundação Lemann por dez anos, e acredito que uma fundação ou uma ONG pode marginalmente ajudar o governo. Mas quem tem que dizer para onde vai a educação é quem foi eleito para isso. Infelizmente, a maioria das ONGs educacionais – que também são as fontes da grande mídia – acaba sugando o governo ao patrocinar um processo de baixíssima qualidade. Há gente que se beneficia da baixa qualidade: faz um material chinfrim e vende a peso de ouro para o governo. É uma caixa de ressonância. Criou-se um sistema de fornecedores de material de baixo nível que são muito poderosos. Isso envolve muito dinheiro, enriqueceu muita gente, são autores, editores, com uma força incrível. Gente que construiu toda a sua vida sobre a educação de baixa qualidade. Chegar e dizer, de repente, como o Weintraub: “Vocês não mandam mais!” – é chamar para a guerra! E estou nessa guerra. Ajudo o governo sem ganhar nada com isso. A terra arrasada da educação brasileira é também um campo minado, em que será preciso superar muitos obstáculos e armadilhas de quem não quer mudar a educação no Brasil para melhor. Eu vejo a esperança de ganhar essa guerra no professor Carlos Nadalim — que tem o apoio do ministro da Educação e do presidente da República. Enquanto eles estiverem nesse rumo, eu lutarei também.

Paulo Briguet é editor-chefe do BSM.

 


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