PERFIL

Adrilles: o linchamento de um inocente

Paulo Briguet · 14 de Fevereiro de 2022 às 16:39

Cancelado pelo Tribunal da Internet, Adrilles Jorge está sendo usado como bode expiatório pelos que desejam criminalizar o conservadorismo no Brasil
 


O filósofo político Leo Strauss (1899-1973) usou a expressão reductio ad Hitlerum (em latim macarrônico) para designar um truque retórico que consiste em ignorar os argumentos do adversário e associá-lo caluniosamente à figura de Adolf Hitler. Trata-se de uma falácia utilizada quando um dos lados em discussão se vê em nítida desvantagem e não tem mais para onde apelar; o jeito é vincular o adversário a uma figura que unanimemente simboliza o mal absoluto. “Se você não concorda comigo, você é nazista.” Um truque semelhante tem sido usado, por exemplo, pelo atual primeiro-ministro canadense Justin Trudeau, também conhecido como Fidel Jr., e seus apoiadores esquerdistas, que tentam desqualificar o movimento dos caminhoneiros canadenses ao chamá-los de racistas e associá-los ao nazismo. Durante as eleições presidenciais de 2018 ganhou destaque o caso da moça que denunciou bolsonaristas por terem desenhado à faca uma suástica em sua barriga. A polícia descobriu que a suástica fora feita pela própria moça ― um caso extremo de reductio ad Hitlerum.

Na semana passada, o comentarista Adrilles Jorge foi demitido da Jovem Pan após se despedir ao fim de um debate na emissora. O gesto de tchau, que por diversas vezes Adrilles repetia ao final dos programas (acompanhado da frase “Até sempre”), foi interpretado como uma saudação nazista (Sieg Heil). Talvez por ter sido um debate acalorado, Adrilles estava com uma postura corporal mais rígida, o que é perfeitamente compreensível. Mas quem assistiu ao debate sabe que ele se manifestou com veemência contra a legalização de partidos nazistas, que era o tema em questão. Como se sabe, dias antes, o podcaster Monark havia feito uma declaração infeliz, na qual defendia que nazistas e antissemitas tinham o direito de formar partidos. Em suas falas, Adrilles foi bastante enfático ao condenar a ideologia nazista e a opinião do podcaster (que depois de desculpou). Nada em suas palavras, nem mesmo na sua expressão facial, sugere o mais mínimo traço de condescendência com o nefasto nacional-socialismo.

Mas há um detalhe que pode explicar a fúria caluniosa dos canceladores de Adrilles. Naquele que seria o seu último debate na Pan, ele indicou o caráter criminoso de uma outra ideologia que, ao contrário do nazismo, é amplamente aceita pelas classes falantes da mídia e das universidades: o comunismo. Se levarmos em conta os fatos históricos ― e todos têm direito às suas opiniões, mas não aos seus fatos ―, o sistema coletivista simbolizado pela foice-e-martelo deveria ser tão repudiado quanto aquele simbolizado pela suástica do Terceiro Reich. E é compreensivelmente esse assunto que os comunistas e socialistas não toleram discutir: eles sabem que, ao aderir ao marxismo, estão automaticamente assumindo a corresponsabilidade pela montanha de 150 milhões de cadáveres deixada pelos regimes comunistas. Ao mesmo tempo, quem se declara comunista tem de lidar com o fato de que a lista dos países em que o socialismo deu certo pode ser lida na testa de Vladimir Lênin. Quando um Adrilles chama atenção para essas realidades incontornáveis, é preciso cancelá-lo antes que as pessoas fiquem sabendo e venham a conhecer obras como “O Diabo na História ― Comunismo, Fascismo e Algumas Lições do Século XX”, “Lênin, Stálin e Hitler ― A Era da Catástrofe Social”, “Os Ditadores ― A Alemanha de Hitler e a Rússia de Stálin”, “O Livro Negro do Comunismo”, “O Grande Culpado ― O plano de Stálin para iniciar a Segunda Guerra Mundial” e tantas outras.

Incapaz de lidar com os argumentos e conhecimentos dos conservadores ― os poucos que ainda restam nos grandes veículos ―, a esquerda brasileira, tendo por auxiliares seus jagunços políticos, judiciais e midiáticos, tenta criminalizar o conservadorismo no Brasil. Se prestarmos atenção ao linchamento virtual de Adrilles, perceberemos que ele foi demitido e está sendo perseguido por causa de um meme ― um print de tela em que a sua mão se encontra na posição que os intelectuais da cracolândia do Twitter interpretaram como sendo um gesto nazista. Todas as pessoas ― da maior celebridade da lacração ao mais humilde trabalhador anônimo ― fazem cotidianamente o mesmo gesto que Adrilles fez. A diferença é que Adrilles o fez depois de denunciar com todas as letras o caráter perverso e assassino das ideologias totalitárias. A partir daí, qual será o próximo crime inventado pelo Tribunal da Internet? Dizer que Mao e Stálin mataram mais do que Hitler, deixando para o bigodinho um terceiro lugar no pódio do ódio? Se dizer isso é crime, podem me prender.

Conheci pessoalmente Adrilles Jorge em dezembro último, durante um jantar em que estavam presentes figuras queridas como Tereza Mainardi, Ludmila Lins Grilo, Alan Ghani, Thamea Danelon e Zoe Martínez. Conversamos sobre poesia, Nelson Rodrigues (alguém que seria cancelado hoje em dia), religião e um grande amigo em comum, Olavo de Carvalho. Adrilles é um exímio contador de histórias engraçadas, um sujeito bastante gentil e educado. Mas não é preciso tê-lo conhecido de perto para saber que ele não é, nunca foi e nunca será um nazista: basta rever suas participações nos programas da Jovem Pan. Com base em suas opiniões, qualquer pessoa com inteligência média perceberá que Adrilles é um ferrenho inimigo de tudo aquilo que une nazistas e comunistas numa espécie de Pacto Ribbentrop-Molotov eterno: o coletivismo, a mentalidade revolucionária, a defesa do assassinato político e da morte dos adversários, a supressão das liberdades, a perseguição religiosa, o ódio (a raças ou classes), a dominação econômica, a desumanização do homem, a criação de não-pessoas.

Segundo René Girard, o bode expiatório é sempre inocente. Ao tentar transformá-lo nessa vítima sacrificial, as hordas só ressaltaram a inocência de Adrilles. Mas estou convicto de que ele voltará ao campo de batalha com grande força. Adrilles pode ter perdido o emprego, mas, à diferença de seus perseguidores, não perdeu a alma. Autor de dois livros de versos (um deles com prefácio de Olavo de Carvalho), ele escreveu um poema inspirado nos últimos acontecimentos e autorizou que eu o publicasse aqui para os leitores do Brasil Sem Medo:


CRIAÇÃO
(Adrilles Jorge)


Não há medo que sobreviva
ao cotidiano enfrentamento
da falta de sentido.
Não há falta no sentido que se cria
na doação sem cálculo.
Não há morte para a cotidiana ressurreição
que rompe todo nada que tenta nos envolver.
Nada há que não seja criado:
cria-se a justiça calculada,
produto calculado do amor
que nos cria sem cálculo
a fim de destruir nossa íntima anemia.
Ao covarde resta a coragem
da anulação da epifania:
uma palavra, um gesto, um ato,
tudo é subvertido pela covardia.
Mas a criação desta noite
nos serve à esperança
do nascer de um novo dia.
Nenhum silêncio nos cala
nem palavra maldita nos fala.
Nada há que não seja criado.
Desnatura-se a natureza:
tiramos da boca da nossa fome
o gosto da misericórdia
com que alimentamos
a insaciada covardia
que busca nos devorar.
Saciamos nossa fome de perdão
ressuscitando a quem nos quer matar.

 


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