VISÕES DA AMÉRICA

A velha religiosidade americana mostra a sua cara em Washington DC

Braulia Ribeiro · 3 de Outubro de 2020 às 18:55

Marcha de cristãos no National Mall, no último sábado, mostra que as raízes espirituais dos Estados Unidos continuam vivas e podem determinar o destino da grande nação

“Em dezembro deste ano vamos experimentar um derramar do Espírito como nunca se ouviu antes. O Espírito de Deus não se senta no banco de trás, nem depende de personalidades. O Espírito de Deus vai banir os demônios de intimidação que se levantaram contra a sua Igreja, colocando-a detrás de uma máscara e amordaçando-a. A violência que se vê nas ruas vai ser confrontada!”

As frases fortes quase cabalísticas não foram tiradas de um livro antigo com séculos de existência, nem são ecos de um passado em que se cria que a história tinha um sentido cósmico. Elas são parte de uma mensagem entre as muitas pregadas por vários pastores diferentes para a multidão no Nacional Mall, o grande parque na frente do Lincoln Memorial, no último sábado, 26 de setembro. Elas ainda representam o universo político-religioso americano. Ouvindo de maneira reverente mas entusiasmada, a multidão de pessoas devidamente mascaradas e vestidas com as cores da bandeira americana vai responder com suas orações e possivelmente com seu voto. Quantos estavam presentes exatamente é difícil de precisar.  A maioria dos sites de notícias, se comentam o evento, falam em modestas dezenas de milhares. O site oficial diz que 55 mil se registraram, evitando afirmações sobre o número de pessoas presentes, talvez para driblar acusações de ameaçarem a saúde pública. Mas as fotos e os vídeos do evento revelam uma realidade bem diferente e que não vai ser divulgada pela extrema-imprensa.

O National Mall não fornece dados oficiais sobre as multidões que se aglomeram ali desde 1995, quando a administração do parque sofreu uma ameaça de processo por estimar em número menor a aglomeração da Marcha de Um Milhão.  Mas existem estimativas matemáticas possíveis de serem feitas que ajudam a precisar a dimensão do evento. Numa aglomeração densa, que parece ser o caso, cada pessoa ocupa um espaço de 0.23 m². O Mall tem ― entre o Lincoln Memorial e o monumento a Washington ― quase dois quilômetros  de comprimento e uns 400 metros de largura. A conta é feita assim. Um evento que consegue preencher o espaço de uma extremidade a outra estima-se ter reunido cerca de 750 mil pessoas; numa conta bem modesta, com certeza um mínimo de meio milhão.[1] As fotos e vídeos do evento apontam para esta conclusão.

 

O leitor mais atento vai se perguntar se o evento foi político e se um apoio desta natureza vindo de cristãos do país inteiro significa uma vitória certa de Trump em novembro. Franklin Graham, o organizador da marcha, cuidou para se distanciar da polarização política, mas não deixou de convidar Mike Pence, o vice-presidente evangélico de Trump, para discursar e orar. Não faltaram orações para a restauração e cura espiritual da nação, o que para a grande maioria dos americanos incluiria, sim, uma guinada política ainda mais à direita, principalmente esperando-se a possível anulação de Roe v. Wade, a chaga do aborto legal que fere o coração do evangélico médio.  Para o cristão que frequenta este tipo de evento, a legalização do aborto significou um rompimento claro do pacto cristão que a nação presumia ter com Deus.

Esta face político-religiosa da América que emerge de vez em quando não deve surpreender ninguém. Ela é parte da natureza do país, presente na formação do estado americano pré e pós-independência.  As grandes reuniões de avivamento e oração do século 18 e 19 estão na raiz de todas as grandes conquistas sociais americanas da liberdade religiosa ao voto feminino, e até do movimento civil na década de 60.

No século 18, foram os batistas pregadores, chegando da colônia das Carolinas à Virgínia, então dominada por uma aristocracia anglicana que cria firmemente no casamento entre a Igreja e o Estado, que coletaram mais de dez mil assinaturas para exigir de Thomas Jefferson uma constituição que estipulasse a separação entre Igreja e Estado. Jefferson tentou sem sucesso advogar a ideia para passar no texto original da constituição e não conseguiu. O medo dos que resistiram não era de que a religião sem cabresto dominasse as colônias, como talvez uma leitura anacrônica possa presumir. O medo era que, ao contrário, uma vez sem a proteção do Estado, a religião acabasse morrendo. Venceram então os conservadores ingleses, protegendo a igreja anglicana debaixo da tutela do Estado que nascia. 

Os batistas, no entanto, mantiveram a pressão sobre Jefferson. Eles faziam conversos pelas colônias em reuniões de avivamento quase que clandestinas, e os cidadãos não tinham como integrar sua vida religiosa e a vida em comunidade.  O número de petições continuou aumentando. Jefferson comprou a ideia, e chamou o movimento arriscado de “experiência”. A nova América seria a primeira nação na terra a não associar o poder do Estado à religião e a garantir a plena liberdade a seus cidadãos. Estava claro para todos que esta era uma experiência social inédita e que poderia fracassar redondamente.  Quando Jefferson assumiu a presidência, obteve influência suficiente para passar o texto da primeira emenda constitucional, dando início à famosa “Bill of Rights”, inspiração de tantos movimentos civis ao redor do mundo. A experiência deu certo:

“O Congresso não deve fazer leis à respeito do estabelecimento da religião, ou proibir o exercício desta, ou limitar a liberdade de expressão, ou de imprensa, proibindo o livre exercício desta, ou o direito das pessoas se reunirem em paz, ou o direito de peticionar ao governo por compensação no caso de descontentamento.”

A foto de uma multidão de cores e raças diferentes se reunindo para oração no National Mall não deveria evocar medo do suposto obscurantismo que ela representa, mas sim inspirar respeito. Professando o credo de que a boa sociedade não é aquela que tem um “bom Estado” mas a que tem um Estado que respeita a liberdade e a consciência do indivíduo, estas multidões lograram construir a sociedade mais moderna e mais moral que o mundo já teve. Espero que mais uma vez as suas orações sejam ouvidas.

— Braulia Ribeiro tem especializações em política latino-americana, bioética e mestrado em divindade pela Universidade de Yale e é doutoranda em teologia política pela Universidade de St. Andrews. É colunista do BSM nos EUA.


[1] Clark McPhail, University of Illinois | Graphic: Todd Lindeman, Washington Post, January 19, 2009, http://www.washingtonpost.com/wp-dyn/content/graphic/2009/01/19/GR2009011900114.html


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