VÍRUS CHINÊS

A vacina contra a Covid e os aspirantes a Prometeu

Ricardo Gancz · 18 de Janeiro de 2021 às 11:38

A crença de que vacina funcionará como deve e não trará nenhum problema futuro não tem nada a ver com a ciência: é uma crença nos laboratórios, nos políticos, na grande mídia e nas Big Techs
 

Para um médico decidir sobre qualquer tratamento, é necessário que ele conheça os riscos de uma doença, os riscos de um tratamento e, assim, ponderar se o tratamento justifica o risco. Em se tratando do vírus chinês, o médico precisa colocar na balança o seguinte:

1) uma estimativa do risco de seu paciente de contrair a doença;

2) a partir dessa estimativa, considerar a estimativa que seu paciente pode ter um problema sério ou morrer.

E contrabalançar isto com as estimativas com relação à vacina:

a) a estimativa da eficácia da vacina em proteger seu paciente dos quadros graves ou da morte;

b) a estimativa dos riscos da vacina.

O risco de contrair a doença ainda não é conhecido, o que por si só já faz o cálculo ser impossível. Mas, deixemos o risco de contrair o vírus chinês de lado. Quais são os riscos de óbito?

De acordo com a Swiss Policy Research, que faz um trabalho de acompanhamento dos diversos estudos feitos ao redor do mundo, o índice de letalidade na maioria dos países fica entre 0,1 e 0,5%. Quando olhamos apenas para a população jovem, o índice de sobrevivência em alguns estudos é de mais de 99,99%. Para quem se interessar, é possível acompanhar a compilação dos estudos aqui. O CDC (Center for Disease Control and Prevention – Centro de Controle e Prevenção de Doenças) diz que a relação entre infecções e óbitos é de 0,00003 (99,997% de sobrevivência) para até 19 anos; 0.002 (99,98%) para a faixa de 20 até 49 anos; 0.005 (99.5%) para a faixa de 50 até 69 anos e 0.054 (94.6%) para a faixa de mais de 70 anos.

Contudo, esses números possuem dois problemas. O primeiro é que o cálculo é principalmente feito a partir das pessoas que foram testadas. Muitas pessoas são assintomáticas ou tiveram sintomas leves e acabaram não descobrindo que tinham o vírus. Até o momento, o CDC admite não saber qual é o percentual de pessoas assintomáticas ao dizer “o percentual de casos que são assintomáticos, isto é, que nunca experienciam sintomas, continua incerto”. (cf. a nota de rodapé neste link). Quanto maior for o número de casos assintomáticos, menor serão os valores da letalidade. Isso quer dizer que a relação entre infecções e óbitos, que é na ordem de 0.00003, pode ser ainda menor.

O segundo problema é que o número de óbitos utilizado nos cálculos é aquele divulgado pelos países. Contudo, não há nenhuma tentativa de separar os casos em que o vírus chinês foi o único causador do óbito; os casos em que dois ou mais elementos, inclusive o vírus chinês, causaram o óbito (ou seja, cada elemento em separado não o faria); e os casos em que o vírus chinês estava presente, mas é provável que ele não tenha causado o óbito.

Em suma, não sabemos qual é o número real de infectados e nem sabemos quantos, dentre os que faleceram, efetivamente faleceram devido ao vírus chinês. Vamos, então, ver o que efetivamente sabemos sobre a vacina.

A Pfizer diz ter um índice de sucesso de 95%, mas de acordo com Peter Doshi, editor de uma das mais prestigiadas revistas científicas da área médica, o BMJ, publicou um artigo em que aponta que as vacinas da Pfizer e da Moderna não fizeram testes capazes de afirmar se esses 95% irão se aplicar a todas as populações e, em particular, se a vacina será efetiva para combater os casos graves ou que possam resultar em óbito. Vou trazer dois trechos relevantes do artigo que qualquer leigo pode entender (os grifos são meus).

Nenhum dos testes que estão sendo feitos no momento foram modelados para detectar uma redução de um resultante grave como admissões em hospitais, internação em UTI ou mortes. Nem as vacinas estão sendo estudadas para determinar se elas podem interromper a transmissão do vírus.

[...]

Tal Zaks, médico-responsável pelo laboratório Moderna, disse ao BMJ que o teste da companhia disse que o ensaio clínico da companhia não tem força estatística suficiente para saber esses dados. “O ensaio clínico não é capaz de julgar [admissões em hospitais] em função do que é um número razoável de sujeitos e a duração para poder servir o público”, ele disse.

Admissões em hospitais e mortes por Covid-19 são simplesmente muito incomuns na população estudada para que uma vacina efetiva mostra diferenças estatísticas significativas em um ensaio clínico com 30,000 pessoas. O mesmo é verdade da habilidade da vacina em salvar vidas ou prevenir a transmissão do vírus: os ensaios clínicos não foram feitos para saber essas informações

Zaks disse: “Se eu gostaria de saber que a vacina previne a mortalidade? Certamente, pois eu acredito que ela previne. Eu só não acho que é factível dentro do tempo disponível [para o ensaio clínico] – muitos iriam morrer esperando pelos resultados antes que o tivéssemos.


Vale notar que esse tempo mais longo não é apenas necessário para saber se/quanto a vacina efetivamente será capaz de proteger as pessoas dos casos graves do vírus chinês, mas também seria para monitorarmos possíveis reações e efeitos colaterais de longo prazo, o que é completamente desconhecido.

O desconhecimento não é nenhum pedantismo acadêmico. A Pfizer somente está vendendo a vacina para os países que assinem um documento no qual isentem o laboratório de qualquer problema relacionado à vacina. Isto é, se houver alguma contaminação, problema no transporte ou algum efeito indesejado no futuro, o laboratório não terá nenhuma responsabilidade e não poderá ser processado.

Portanto, sem saber os números reais do vírus chinês e, principalmente, sem saber sobre a eficácia da vacina e sobre seus efeitos colaterais, o médico fica sem dados suficientes para recomendá-la. Toda recomendação é um tiro no escuro; uma aposta que a vacina funcionará como deve e que não trará nenhum problema no futuro; uma crença que nada tem a ver com a ciência; uma crença nos laboratórios, nos políticos, na grande mídia, nas Big Techs. Uma crença em todos esses que agem como o Prometeu de Ésquilo, estufando o peito para dizer: 

τυφλὰς ἐν αὐτοῖς ἐλπίδας κατῴκισα

Eu plantei esperanças cegas nos homens.

― Ricardo Gancz é doutor em Filosofia, professor de Grego Clássico e Filosofia na Universidade Bar-Ilan, analista político e correspondente do BSM em Israel.     


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