DIÁRIO DE UM CRONISTA

A tempestade de cristal

Paulo Briguet · 9 de Novembro de 2022 às 11:40

Aos 15 anos de casamento, contemplamos a misteriosa aliança entre o visível e o invisível
 



Há exatos 15 anos, eu e Rosângela Vale nos casávamos na Igreja Coração de Maria, em Londrina. Não foi uma noite como outra qualquer: naquela sexta-feira, uma tremenda tempestade desabou sobre a cidade, lavando as almas com um sinal dos céus. Na literatura e na mitologia, a tempestade sempre simbolizou uma alteração profunda na ordem dos acontecimentos; é o que ocorre na última peça de Shakespeare, a minha preferida. Em 9 de novembro de 2007, sem deixar a menor sombra de dúvida, o Autor das nossas vidas se expressou com absoluta clareza.

A Igreja em que nos casamos se situa na confluência de duas avenidas que caminham paralelas e depois se cruzam. Trata-se de uma analogia perfeita do que nós éramos: eu, um ex-comunista ateu, boêmio e hedonista, convertido ao catolicismo depois dos 30 anos; ela, uma filha e profissional exemplar, com uma vida norteada pelas três irmãs inseparáveis: Verdade, Bondade e Beleza. O céu e a terra precisavam se manifestar diante de tão insólito encontro!

Hoje comemoramos as nossas Bodas de Cristal. A palavra boda vem do latim vota, que significa promessa. Cristal, por sua vez, vem do grego krystallos, que significa solidificado. As Bodas de Cristal, portanto, consolidam a promessa de uma vida inteira. Uma promessa capaz de gerar uma vida nova para a eternidade: Pedro, nosso amado filho.

O cristal une a força e a delicadeza; o visível e o invisível; a fé e a razão; o espírito e a matéria. Não é por acaso que Maria é representada pelos místicos como um cristal, pelo qual a Luz divina passa sem alterar, aliás ampliando, a pureza. Nausícaa, Beatriz, Miranda e outras representações da pureza são pontos luminosos cristalizados pela poesia. A Máquina do Mundo, mostrada pela ninfa Tétis a Vasco da Gama, aparece como uma esfera de cristal translúcido. E as auroras de Homero são cristais cuidadosamente trazidos por dedos róseos. Na natureza, na arte e na vida, o cristal leva tempo para se constituir, por representar a união de qualidades aparentemente contrárias, mas que na verdade se complementam e se realizam por meio de uma misteriosa aliança.

Obrigado, meu amor, por transformar as promessas do casamento em uma coleção de auroras. Hoje sei que cada uma das gotas daquela tempestade era um cristal em nossa vida.

Paulo Briguet é escritor e editor-chefe do BSM.

 


"Por apenas R$ 29/mês você acessa o conteúdo exclusivo do Brasil Sem Medo e financia o jornalismo sério, independente e alinhado com os seus valores. Torne-se membro assinante agora mesmo!"