7 DE SETEMBRO

A saga do coração de D. Pedro I

Claudio Dirani · 4 de Setembro de 2022 às 10:49

Os bastidores da operação que trouxe pela primeira vez ao Brasil uma das relíquias mais valiosas de nossa história, em tempo das comemorações do bicentenário da Proclamação da Independência



Há dois séculos, o patriarca de nossa independência, José Bonifácio de Andrada e Silva, fez uma de suas declarações que mais se adequa ao atual e conturbado momento político do Brasil.

“Os que não têm medo comandam os que têm”.

Embora aparente ser óbvia e até simplista, a frase se adapta perfeitamente ao sentimento de insegurança jurídica que predomina nos bastidores do país, em meio às comemorações do aniversário de 200 anos da proclamação de autoria de D. Pedro I. Feito este – vale a menção – que só viria a ser concluído graças ao apoio definitivo de sua mulher, a Imperatriz Maria Leopoldina da Áustria, e à mentoria do próprio José Bonifácio, seu mais importante ministro.

Apesar de inúmeros problemas que cercam a república às vésperas das eleições gerais – e do baixo orçamento reservado às comemorações do Bicentenário da Independência –, hoje os brasileiros têm motivos reais para festejar o 7 de Setembro.

Além da aguardada reabertura do Museu do Ipiranga, em São Paulo, a estrela maior das festividades é um item de valor incalculável: o verdadeiro coração do imperador D. Pedro I, exposto pela primeira vez fora de Portugal, nas dependências do Palácio do Itamaraty, em Brasília.

 

Um evento inédito

Marco da relação Brasil-Portugal, a chegada do coração de D. Pedro à capital federal no último dia 25 de agosto – na primeira vez em que deixa as dependências da Igreja da Lapa, no Porto – se deve a uma ideia nascida na iniciativa privada e ao apoio dos herdeiros do primeiro imperador brasileiro.

Inspirada pelo advogado Raul Canal, a médica e candidata ao Senado Nise Yamaguchi comentou com o presidente Jair Bolsonaro sobre a existência da relíquia, que até então nunca havia deixado a cidade do Porto.  Segundo a médica, Bolsonaro ficou seduzido sobre a possibilidade de trazê-lo ao Brasil, e contatou imediatamente o deputado federal Luiz Philippe de Orleans e Bragança para dar início aos trâmites legais.

“Eu dei o primeiro passo para tornar isto possível, inspirada pelo advogado Dr. Raul Canal, que mencionou que D. Pedro I tinha criado os Dragões da Independência – e que tinha esta história do coração estar no Porto, em Portugal, e o corpo aqui no Brasil, no Museu do Ipiranga”, revelou Nise Yamagushi.

Pouco tempo depois de ser acionado, Luiz Philippe de Orleans e Bragança partiu para a cidade do Porto, em Portugal, com a missão de convencer os guardiões da relíquia a liberarem de forma provisória o coração de seu pentavô.

Este evento já nasceu despolitizado”, destaca o parlamentar monarquista em entrevista ao BSM. “Não se trata de um acordo entre os governos do Brasil e Portugal. Entrei em contato com a Fraternidade, que zela pelo coração de D. Pedro I na Igreja da Lapa, e eles foram bastante solícitos”, recorda Luiz Philippe de Orleans e Bragança, que partiu rumo a cidade do Porto antes mesmo de obter a resposta eventualmente positiva do Ministério das Relações Exteriores brasileiros sobre a urgência de sua missão.

“Consegui uma agenda com o presidente da Câmara do Porto, Rui Moreira, que ocupa um cargo equivalente ao de prefeito, e ele marcou uma audiência com a fraternidade responsável pela Igreja da Lapa, onde o coração está. Eles ficaram muito satisfeitos em ceder a relíquia para a celebração dos 200 anos de nossa independência”, comemora o deputado, que anteriormente pensava em realizar um evento estritamente de caráter familiar.

“A gente só pensava em fazer uma coisa de família. Algo particular. Mas como se trata de uma relíquia importante para nossa sociedade, achamos que envolver os governos de Brasil e Portugal seria vital para um resgate histórico. Tenho certeza de que o próprio D. Pedro I concordaria com a ação e não acharia uma violação de seus direitos”, conclui o descendente de nosso primeiro imperador, que fez questão de levar seu filho, Maximilian de Orleans e Bragança, de apenas 10 anos, à exposição no Palácio do Itamaraty. “É muito importante que ele tenha contato com nossa história desde cedo”, pontua o parlamentar.

Do lado português, toda a movimentação e esforço para trazer o coração de D. Pedro ao Brasil exerceu uma espécie de “efeito motivador” para que a relíquia possa ficar mais ao alcance do povo nos próximos anos. Ao menos, de forma sazonal.

Logo após assinar o termo que permitiu a viagem da relíquia à terra onde o filho de D. João VI proclamou a independência, o presidente da Câmara do Porto, Rui Moreira, expressou seu desejo de criar uma exposição dedicada ao nosso imperador e rei de Portugal.

“A minha ideia é que haja, pelo menos de cinco em cinco anos, uma exposição do coração. Ela permitirá às novas gerações perceberem o seu real significado, que vai além da relíquia”, afirmou o dirigente.                                                                                                                 

D. Pedro I: uma história de dois sepultamentos

Pedro de Alcântara Francisco António João Carlos Xavier de Paula Miguel Rafael Joaquim José Gonzaga Pascoal Cipriano Serafim – nome completo do Imperador D. Pedro I para os brasileiros ou do Rei D. Pedro IV para os portugueses – faleceu aos 35 anos, na cidade lusitana de Queluz, em 24 de setembro de 1834, após complicações causadas pela tuberculose.

Por desejo do próprio monarca, seu coração foi separado de seu corpo e sepultado na Igreja da Lapa, na cidade do Porto, como demonstração de gratidão aos voluntários portimonenses na Guerra Civil Portuguesa contra o governo absolutista de D. Miguel. Luiz Philippe de Orleans e Bragança justifica o gesto de gratidão de D. Pedro a seus aliados no combate.

“Ao saber do estado de D. Pedro, os voluntários deixaram o Porto para se despedir de seu líder”, recorda Luiz Phillipe de Orleans e Bragança. “Não é à toa que D. Pedro I é conhecido em Portugal como o Rei Soldado. Ele realmente tinha convicção sobre o que lutava, tanto que fez duas vezes, no Brasil e em Portugal”, ratifica.

Inaugurada oficialmente em 1863, a Igreja católica de Nossa Senhora da Lapa começou a ser erguida em 1756, a partir de um projeto do arquiteto João Figueiredo Seixas. A chegada do coração de D. Pedro I aos seus domínios aconteceu bem antes de sua conclusão, em fevereiro de 1835, cinco meses após o falecimento do imperador em Queluz.

Em 1837, a relíquia, conservada em um recipiente de vidro com formol, foi abrigada dentro de uma urna no monumento construído por Costa Lima na Capela-Mor da igreja.

Os restos mortais de D. Pedro, por sua vez, seriam embarcados de Portugal rumo ao Brasil em 22 de abril de 1972, em tempo de organizar as festividades de 150 anos da Independência.

Ao desembarcar no país, vinda do Mosteiro de São Vicente de Fora, em Lisboa, a esquife histórica seguiu para o Museu da Quinta da Boa Vista, no Rio de Janeiro, onde permaneceria até ser transferida para um mausoléu construído na cripta do Monumento à Independência. O problema foi que isso só aconteceria bem mais tarde, em 5 de setembro de 1976.

A demora para sua instalação em São Paulo ocorreu após constatarem que as dimensões da Capela Imperial, localizada no próprio bairro do Ipiranga, não eram suficientes para abrigar os restos mortais de nosso primeiro imperador.
 

 


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