REINO UNIDO

A Rainha, o Império e a Democracia

Braulia Ribeiro · 12 de Setembro de 2022 às 15:04

Há algo que vincula a monarquia britânica e o reinado de Elizabeth II ao atual momento histórico do Brasil: o conceito de identidade nacional


Escócia, 8 de setembro, dia do falecimento de Elizabeth II. O tempo ficou escuro e chuvoso como se a natureza chorasse suas saudades da rainha, a monarca mais longeva que a Inglaterra já teve, e talvez a mais perfeita representação do que se espera de um rei constitucional. A BBC anunciava seu falecimento em um loop contínuo, e não faltaram experts para prestar homenagens às suas virtudes. Meus amigos escoceses e ingleses, apesar da animosidade histórica entre a Escócia e a Inglaterra, entristeceram-se com a notícia. Os mais velhos demonstraram preocupação com o próximo rei; alguns esperam que ele não fique no trono por muito tempo, cogitando que o melhor seria que transferisse em vida o reinado para o filho William, uma figura mais neutra e mais querida. Os súditos mais jovens, frutos de uma cultura global ensinada a odiar símbolos e tradições, projetam um estudado muxoxo, desdenhando a importância do acontecimento, tentando esconder sem sucesso a sua apreensão pelos destinos do reino. Um motorista de táxi comentou que talvez seja a hora de a Escócia tentar novamente sua independência, e uma jovem espirituosa me sorriu com uma certa tristeza e confessou: “Meu plano de aposentadoria é o Apocalipse”.

Desde a formação da Grã-Bretanha, que se concretizou com a união da Escócia em 1707, no reinado de outra monarca, a rainha Ana, o reino foi representado por duas dinastias, Hanover e Windsor, a casa de Elizabeth II. Até então, o reino mais longevo havia sido o da Rainha Vitória de Hanover, que se prolongou por 63 anos – ela subiu ao trono aos 18 anos e reinou até a sua morte, aos 81. Foi Vitória que estabeleceu o atual regime, a monarquia constitucional. Mas Elizabeth II superou Vitória em longevidade, reinando por 71 anos, sempre com a mesma firmeza e dignidade. A grande maioria dos britânicos vivos não concebe o reino sem que a figura plácida de Elizabeth II lhes venha à mente.

O fato é que a morte de Elizabeth II foi um evento sísmico, como dizem na BBC.  É possível que o Reino Unido nunca mais venha a ter um monarca do mesmo calibre, com a mesma fé e a mesma noção de dever. E isso é claro para todos que a conheceram. A fé em Cristo lhe inspirou o compromisso com o reino. Os feitos de Elizabeth II são contados no mundo inteiro. Mas como entender “os feitos” de uma monarca constitucional? Afinal, a locução nominal “rainha da Inglaterra” não é sinônimo para a palavra irrelevante, inexpressiva, sem poder? Nada pode estar mais longe da verdade. A rainha trabalhou e muito pela unidade do reino. Passou por 15 primeiros-ministros – legitimando a última, a conservadora Liz Truss, poucos dias antes de falecer. Seu grande mérito foi ter sabido se manter neutra durante as crises de Estado, e em relação às questões culturais e políticas que dividem o mundo, coisa que seu filho Charles, um ambientalista fanático, até hoje não soube fazer.

Por incrível que pareça a virtude que mais descreve a rainha segundo a maioria dos comentaristas britânicos é a “humildade” – uma palavra frequente em seus lábios junto com a gratidão pelo carinho e respeito que recebia de seus súditos. Em inglês, usa-se a palavra de maneira um pouco diferente do que no português.  Você pode dizer, por exemplo: “A sua fidelidade me humilha”.  A conotação do verbo aqui é positiva – quer dizer me faz sentir humilde, ou indigna, não merecedora. Para uma mulher que vivia adornada de diamantes e vestida com a melhor couture do reino, pode parecer mera retórica. Mas só para quem não entende o que seja a virtude da humildade. Humildade não é uma atitude ligada às condições externas. Não é tampouco a experiência de se sentir insignificante e pequeno, significado ao qual a palavra é reduzida na língua portuguesa. Humildade é a virtude de se reconhecer pequeno diante de Deus – e consequentemente se saber igual a todos os homens, não importando a sua posição na hierarquia social. Quando eu digo “O seu respeito humbles me”, não estou que dizendo que me sinto “humilhado” pelo respeito do outro. Conhecedor que sou da minha condição humana, devendo tudo o que tenho e sou à Deus, sei que não mereço nada, sei que não tenho direito automático a quaisquer privilégios de que porventura goze. Tudo me é concedido por graça. Portanto, eu me humilho diante de Deus e do próximo. Só é humilde quem tem consciência de que existe uma realidade divina maior do que o ser humano. À luz do Divino, a monarquia com todas as suas joias e privilégios não passa de um dever que tem que ser exercido com integridade e virtude como qualquer outro.

Mas porque a humildade e a neutralidade da rainha Elizabeth eram um mérito? Não seria o contrário, uma falha, afinal quem “governa” tem que se posicionar... A resposta é simples. Esse Brasil dividido de hoje aponta para ela. A rainha – e agora o rei – não representam o reino, eles são o reino. As questões sociais e políticas de cada época vêm e vão, mas o reino permanece.  A monarquia fornece carne e sangue para uma identidade coletiva que transcendente os problemas contingentes.  Nós, filhotes de regimes republicanos, temos que nos esforçar um pouco para entender a cosmovisão política que a monarquia expressa. Mas o Brasil de hoje nos oferece uma analogia para entendê-la melhor. No dia 7 de setembro, milhões de pessoas se reuniram nas ruas para celebrar a data da Independência do Brasil. O presidente Bolsonaro conseguiu despertar no brasileiro um senso de pertencimento que estava sufocado pela ignóbil politica imanentista do socialismo. O povo que se juntou em todas as capitais vestidos de verde-amarelo olhava para o passado, para o presente e para o futuro. Essa frase parece expressar uma tautologia desnecessária, mas não.  No projeto socialista só se olha para o presente, não se constrói uma identidade que transcende o hoje. O passado só me informa dor e erros, e o futuro é vago, pintado com um dourado artificial que são as promessas políticas.

A Pátria, identidade coletiva, é sempre maior do que o próprio Estado, mero retrato do momento político. A monarquia, para os países que a preservam, é o alicerce sólido que se estende ao passado. Enquanto no presidencialismo os governantes se alternam a cada quatro anos, numa monarquia o símbolo do rei ou a rainha se impõe com uma relevância transcendente. A relação do povo com seu monarca não é transacional como no caso da república, onde o presidente se compromete a representar a vontade da massa que o elegeu.  Nosso país sempre será grato a Bolsonaro que passa para a história como um dos homens políticos de mais consequência que tivemos. Foi necessário um símbolo humano que personificasse para o país o despertamento para a identidade coletiva e o poder que ela encapsula.

Mesmo nessa analogia imperfeita e incompleta é possível se entender o poder simbólico que tema monarquia, e portanto a força de uma rainha justa e digna como Elizabeth II.

O povo brasileiro, livre das ataduras socialistas, foi para as ruas em massa porque entendeu que tem que se ditar seu próprio futuro. E para isso ele precisa de resgatar o passado e com ele o orgulho nacional.  A reinvenção política temporária, que coloca um novo partido no poder não é suficiente. Existe um “nós” histórico e espiritual que é digno de honra e respeito, e que faz parte da construção da nossa existência individual e familiar. Esse “nós” é a pátria, identidade coletiva espiritual, que localiza nossa existência individual no tempo e no espaço. É no contexto desse “nós” além do hoje que se constrói o futuro. A Pátria se estende ao passado, e nos permite viver além dos fatos comezinhos do dia a dia para termos uma perspectiva sobre o destino que estamos escolhendo.

 


"Por apenas R$ 29/mês você acessa o conteúdo exclusivo do Brasil Sem Medo e financia o jornalismo sério, independente e alinhado com os seus valores. Torne-se membro assinante agora mesmo!"