DIÁRIO DE UM CRONISTA

A proibição da caridade

Paulo Briguet · 1 de Abril de 2021 às 12:09

Prefeito decide acabar com a ação de grupos cristãos negacionistas que levam comida aos famintos

Com a nova onda da peste e o aumento da fome na cidade, o prefeito decidiu fazer uma reunião emergencial de sua equipe. Mesmo sendo uma reunião virtual, todos os secretários e assessores usavam máscaras triplas, conforme orientação do Comando de Vigilância Sanitária. Apesar da cobertura facial, era possível notar que o prefeito estava irritadíssimo quando ocupou a tela com sua cara redonda.

Dois motivos justificavam a irritação do prefeito. Primeiro, ele havia acabado de falar com um médico adepto do tratamento precoce, despejando quinze minutos dos mais cabeludos palavrões no ouvido do homem. Onde já se viu dizer que o tratamento de um ambulatório mequetrefe é mais eficiente do que o da rede pública municipal?

Mas o outro motivo de irritação do prefeito eram os cristãos. De repente, começaram a surgir em toda a cidade grupos religiosos que levavam comida para os mendigos e para a população miserável. Sim, é evidente que a cada dia aumentava o número de desempregados e de famílias que não tinham o que me comer; mas isso não é motivo para anarquia!

— Quem autorizou esses beatos a distribuir comida sem a coordenação de nossa Secretaria de Justiça Social? Alguém fez a avaliação nutricional dessa comida? Alguém consultou o nosso sistema Data Fome para verificar a quantidade exata de comida e de famélicos em cada região da cidade? Alguém teve o cuidado de pesquisar o perfil dos beneficiários, para não entregar comida a negacionistas e propagadores de fake news? Daqui a pouco, vai ter gente dizendo que é Jesus Cristo quem está alimentando as pessoas, e não o Poder Público e as Instituições do Estado Democrático de Direito.

Em um gesto teatral, que lhe era bem típico, o gordo prefeito finalizou com voz estridente:

— Caridade sem justiça social é fascismo, é negacionismo, é supremacismo!

 

***

No dia seguinte, a Guarda Civil Municipal deu início à Operação Prato Vazio. Cerca de 30 grupos negacionistas que faziam distribuição de alimentos foram desbaratados pelas forças da prefeitura. Centenas de pessoas foram presas por crime contra a saúde popular, inclusive o médico negacionista que o prefeito havia xingado no dia anterior. Toneladas de alimentos foram encaminhadas para inspeção na Vigilância Sanitária e depois redistribuídas para campos de confinamento especialmente criados pela Secretaria de Justiça Social. É bem verdade que uma grande parte do alimento acabou se estragando, mas, segundo o prefeito, “é melhor nenhuma comida do que comida não-inspecionada”.

A OAB e o Sindicato dos Jornalistas emitiram notas de congratulação ao prefeito pelo trabalho realizado.

Paulo Briguet é cronista e editor-chefe do BSM.

 


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