DIÁRIO DE UM CRONISTA

A primeira menina de Londrina

Paulo Briguet · 10 de Janeiro de 2023 às 11:43

Uma homenagem à pioneira Maria Alice Brugin (1927-2023)
 




“Em verdade vos declaro: se não vos transformardes e vos tornardes como criancinhas, não entrareis no Reino dos céus.”
(S. Mateus 18, 3)

Certa manhã de sol, em 1936, uma menina chamada Maria Alice saiu sozinha de casa e caminhou pelas ruas de terra vermelha até um barracão de madeira na Rua Minas Gerais, onde hoje existe o Palácio do Comércio, no coração da cidade de Londrina. Maria Alice tinha oito anos. Na noite anterior, o pai havia chegado em casa com a notícia de que umas irmãs católicas alemãs estavam abrindo uma escola na cidade. Maria Alice ficou entusiasmada e decidiu conferir a informação.

Agora ela estava ali. Viu a porta aberta, bateu palmas e entrou. Lá dentro, havia uma jovem mulher de hábito, que rezava diante de uma imagem de Nossa Senhora com o Menino Jesus. Ao notar a presença de Maria Alice, a religiosa voltou-se para a menina e disse, com a expressão muito séria:

Baum diia.

Maria Alice notou algo de diferente naquela saudação. A freira tinha a voz parecida com a de seus vizinhos da família Koch.

– Bom dia. Eu vim me matricular!

A religiosa deu um leve sorriso, mais com os olhos do que com os lábios.

– E qual é a seu nome?

– Maria Alice Brugin.

O rosto da Irmã Mariaregis iluminou-se. Então, a primeira criança a se matricular na escola teria o nome da Mãe de Deus. Por algum tempo, as duas Marias ficaram olhando uma para outra, sem dizer nada. Ir. Mariaregis pediu que a menina esperasse e dirigiu-se ao outro cômodo da casa de madeira para dar a notícia às outras irmãs. Momentos depois, voltou acompanhada de Ir. Calixta, Ir. Norberta e Malvina de Oliveira, que ajudava as irmãs na tradução da língua portuguesa para a alemã.

Enquanto as irmãs faziam sua matrícula, Maria Alice pensou que até pouco tempo atrás ela e os irmãos eram as únicas crianças da cidade. A viagem de São José do Rio Preto até Londrina durou vários dias. Maria Alice tinha quatro anos e veio com os pais, Eugênio e Elvira, mais oito irmãos. Durante a viagem, Elvira adoeceu e perguntava ao marido: “Onde é essa cidade, que não chega nunca?”


A família Brugin chegou à terra prometida numa noite de 1931. Na penumbra, Elvira viu apenas três casas de madeira, uma delas construída pelo marido. “Onde é que fica o resto da cidade?” Eugênio desconversou e disse que havia mais algumas casas “lá para cima”. Na manhã seguinte, Elvira e os filhos descobriram que a cidade eram só eles e a floresta.
 

1929 foi um ano difícil para o mundo. À quebra das bolsas de valores norte-americanas, seguiu-se uma crise econômica que se espalhou por todo o planeta, semeando pobreza e miséria. Nos Estados Unidos, houve a longa e terrível Grande Depressão. A Alemanha mergulhou numa espiral de desastres econômicos e sociais que resultariam na hiperinflação e na ascensão do nazismo. Na União Soviética, Josef Stálin assumiu o poder absoluto e lançava as bases para os Grandes Expurgos e a coletivização forçada do campo, que ceifaram a vida de milhões. No Brasil, a produção de café, base econômica do País, sofreu uma violenta queda. A República Velha estava nos estertores e abria caminho para a Revolução de 1930 e a tomada do poder por Getúlio Vargas. Mas foi também em 1929 – no dia 21 de agosto – que a primeira caravana da Companhia de Terras Norte do Paraná, liderada por George Craig Smith, chegou ao local hoje conhecido como Marco Zero de Londrina.

Os pais de Maria Alice Brugin plantavam café em São José do Rio Preto, no Oeste de São Paulo. Com a crise de 1929, perderam tudo e tiveram que recomeçar do zero. Certo dia, numa viagem de trem, Eugênio viu na parede um anúncio da Companhia de Terras Norte do Paraná. A propaganda exaltava o novo Eldorado no sertão paranaense, onde as terras eram férteis e baratas. Um detalhe do anúncio chamou a atenção de Eugênio: “Não há saúvas!” No século 19, o naturalista francês Auguste de Saint-Hilaire (1779-1853) já havia alertado: “Ou o Brasil acaba com a saúva, ou a saúva acaba com o Brasil”. “Pelo menos” – deve ter pensado Eugênio – “o tal de Norte do Paraná não tem esse problema”.

Naquele ano de 1929, o bispo de Jacarezinho, Dom Fernando Taddei, encontrou-se com os padres palotinos Erasmo Raabe e Roberto Rosenfeld, no Mosteiro de São Bento, em São Paulo. Dom Fernando expôs-lhes a necessidade de criar escolas no Norte do Paraná, especialmente na região que começava a ser colonizada pela Companhia de Terras, de capital britânico.

Em 1931, o Padre Erasmo Raabe percorreu grande parte da Diocese de Jacarezinho, onde estavam as terras da companhia inglesa. Ficou fascinado com as possibilidades daquela nova fronteira que se abria no meio da floresta. Novos moradores chegavam todos os dias, em busca de uma nova vida no Norte do Paraná. Havia um clima de esperança no ar. E, se havia esperança, era preciso haver também fé. Raabe notou logo que havia a necessidade de criar centros apostólicos na região.

A Londrina que o Padre Raabe conheceu era ainda uma promessa. Naqueles dias, as dificuldades eram grandes. Pó e lama revezam-se para atormentar as mães que tentavam deixar limpas as roupas dos maridos e filhos. Mas para as crianças era uma festa. Não sabiam quando era domingo ou dia de semana: todo dia era dia de brincar. No começo, as únicas crianças da cidade eram Maria Alice e seus oito irmãos (o caçula, Orlando, nasceria já em Londrina). Depois foram chegando – e nascendo – outros meninos e meninas. Aquela criançada não poderia ficar só brincando. A cidade precisava de uma escola católica, e os funcionários da Companhia de Terras sabiam disso. Foi assim que nasceu o Colégio Mãe de Deus, primeira escola católica de Londrina.

 

******
 

No dia em que se matriculou no Mãe de Deus, Maria Alice voltou para casa muito feliz. Era hora do almoço. Geralmente, o cardápio nunca era muito variado: arroz, feijão, farinha, rapadura. Mas, naquele dia, Elvira saiu chamando os filhos que brincavam na rua e os reuniu em torno da mesa. Tinha uma novidade: após vários dias de espera, conseguira trazer de Ourinhos um pão de centeio. Cada um dos nove filhos teve direito a um pequeno pedaço – e Maria Alice não se lembra de ter comido um pão tão delicioso em toda a sua vida.

Maria Alice Brugin de Arruda Leite faleceu nesta segunda-feira, de 9 de janeiro, aos 95 anos, em sua amada Londrina.

Paulo Briguet é escritor e editor-chefe do BSM.

 


"Por apenas R$ 29/mês você acessa o conteúdo exclusivo do Brasil Sem Medo e financia o jornalismo sério, independente e alinhado com os seus valores. Torne-se membro assinante agora mesmo!"