CENA DE CAMPANHA

A prefeita da Cracolândia

Fábio Gonçalves · 8 de Setembro de 2020 às 14:55

Quando uma candidata resolve gravar propaganda eleitoral no lugar mais triste da cidade

— Vamos, gente! Posiciona aí, vai ,vai! Pô, gente, é jogo rápido! Câmera, tá ok? — o homem pediu um minutinho. — Lu, corre aqui, dá um tapa no cabelo. Rápido, mulher! Que cheiro, meu Deus... Urgh — teve um embrulho no estômago. — Vamos, Lu, já tô toda transpirando. Thi, cadê o roteiro? Tá redondo? Boa, dá aqui. Lu, tá bom o blush? E aí, câmera, tá difícil? Puta merda, que cheiro insuportável... — pôs a mão na boca como quem vai vomitar. — Cadê o mendigo?

Apareceu o Nelson com um jovem maltrapilho.

— Show! — a candidata fez um ok com os dedos e deu uma piscadela ao assessor fantasiado.

— Estamos prontos — avisou o diretor. — É só dar um joia.

A bagunçaiada fez sair um noia da barraca de papelão estendida na calçada ao lado. Esquelético, nu da cintura pra cima. Corpo encarvoado. Pés descalços. Abriu a boca desdentada e xingou palavrões indiscerníveis, fazendo com os braços secos gestos animalescos. Então veio para cima da equipe arrastando a perna direita que exibia uma enorme ferida purulenta.  

A candidata gritou:

— Seguranças! Cadê os seguranças? Pô, galera!

Três brutamontes arrastaram o cracudo à rua contígua.

A candidata, bufando, pode enfim gravar sua propaganda eleitoral.

 


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