DIÁRIO DE UM CRONISTA

A moça do caixa

Paulo Briguet · 31 de Maio de 2021 às 11:34

Nunca poderia pensar que aquele bom-dia seria o último...

A segunda-feira começou cinzenta e chuvosa aqui na minha cidade. No entanto, como sempre faço, saí para passear com o Cisco e comprar pão. Depois de caminhar algumas quadras ― eu costumo dizer que é o Cisco que me leva para passear, e não o contrário ―, fui até o posto de gasolina, onde fica a padaria, amarrei o Cisco no pit-stop canino, aproximei-me do balcão e pedi três pães. Na hora de pagá-los, notei as lágrimas da moça do caixa.

― A Márcia... Essa noite...

Há algumas semanas Márcia estava internada no Hospital do Coração. Lutou muito. Foi intubada e contraiu uma bactéria oportunista, que lhe devastou os pulmões, vindo a falecer na última noite. Deixa 4 filhos.

Na vida, temos as pessoas que amamos e as pessoas que encontramos. Márcia era uma daquelas personagens que compõem a nossa crônica diária, e que meu pai me ensinou a tratar bem. Paulo costumava fazer perguntas sobre a vida de balconistas, caixas, frentistas, porteiros, faxineiros, atendentes... Quando ele partiu, lá se vão 13 anos, muitos desses personagens choraram a sua ausência. Tento imitá-lo na medida do possível e dos meus defeitos.

Hoje eu me sinto tão triste quanto essa manhã de tempo fechado. Não encontrarei mais a Márcia, a moça loira de óculos a quem sempre desejava um bom dia, uma boa semana, um bom trabalho. A quem saudei na Páscoa, sem saber que a ressurreição viria tão cedo para ela.

Em um de seus maravilhosos romances, Autran Dourado diz pela boca de uma personagem: “Só Deus é quem sabe todo o risco do bordado...” Contemplando a dor e a calamidade em torno do vírus chinês, eu tento compreender pelo menos uma ínfima parte da mensagem que Deus nos escreve hoje no tecido da vida.

Jamais poderia pensar que aquele bom-dia seria o último, Márcia! Que Deus a receba na Jerusalém celeste, onde o Pão da Vida nunca falta.

Paulo Briguet é cronista e editor-chefe do BSM.


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