CENTENÁRIO DO SANTO

A mão que desviou a bala

Paulo Briguet · 18 de Maio de 2020 às 16:05

Em 13 de maio de 1981, S. João Paulo II foi vítima de um atentado na Praça de São Pedro. Ele atribuía sua sobrevivência a um milagre de Nossa Senhora de Fátima

Há 40 anos, meu pai me levou para ver o papa. Lembro-me da multidão reunida atrás dos cordões de isolamento, nas calçadas da Avenida Tiradentes, em São Paulo. Quando ouvimos as sirenes do caminhão dos bombeiros, que anunciavam a aproximação do papamóvel, meu pai me colocou de cavalinho nos ombros. Então eu vi João Paulo II, que acenava para os paulistanos; gosto de pensar que, por um brevíssimo instante, ele tenha percebido o sorriso e olhar de um garotinho magrelo. Era o meu aniversário de 10 anos — e ver o papa foi o melhor presente que eu poderia receber.

Dez meses depois, na Praça de São Pedro, em Roma, aquele mesmo homem acenava para a multidão de fiéis. Era uma quarta-feira, 13 de maio de 1981. O papamóvel parou por alguns instantes, para que o pontífice tomasse nos braços uma menina de dois anos chamada Sara, que segurava entre os dedos o fio de um balão colorido. O papa ergueu a criança, beijou-a e, com o mesmo sorriso que eu vira em São Paulo, devolveu-a aos pais. Foi quando se ouviu o primeiro disparo — e centenas de pombas voaram de repente. Depois, mais um disparo. O papa curvou-se sobre o próprio ventre e caiu de lado, nos braços de seu amigo e assessor, Stanislaw Dziwisz.

“Onde?”, perguntou Stanislaw.

“No ventre”, disse o papa.

“Dói?”

“Sim, dói.”

O terrorista turco Mehmet Ali Agca, autor dos disparos, foi preso imediatamente. O atentado ocorreu na mesma data e na mesma hora em que, 64 anos antes, Nossa Senhora fizera a sua primeira aparição aos pastorinhos de Fátima. Do outro lado do mundo, em São Paulo, acompanhei pela televisão e pelos jornais todo o sofrimento do papa, que por alguns dias esteve entre a vida e a morte. Eu pensava: “Quem poderia ser tão mau a ponto de matar aquele homem que só faz o bem?”

Ali Agca, um assassino profissional, atirou para matar, e estava convicto que alguma força sobrenatural desviou a bala destinada ao coração do papa. Quando João Paulo II visitou Ali Agca na cadeia, o prisioneiro perguntou:

“Por que o sr. não morreu?”

Para Agca, havia algo de muito poderoso nesse nome que evocava a filha de Maomé. O papa, por sua vez, jamais teve dúvidas que foi salvo pela mão de Nossa Senhora. E também sabia que Ali Agca não agira sozinho; outras mãos o armaram para aquela tarefa.

Os acontecimentos dos anos seguintes viriam a deixar claro de onde partira esse mal. Segundo Stanislaw Dziwisz, Ali Agca jamais pediu perdão pelo seu ato. As forças que tentaram matar João Paulo II continuam agindo em nosso mundo.

No entanto, um ano depois do atentado, em 13 de maio de 1982, João Paulo II dirigiu-se a outro lugar. Em Fátima, depositou a bala que o atingira aos pés de Nossa Senhora. Posteriormente, a bala de Ali Agca foi encravada na coroa da Virgem. É notável que nenhuma modificação precisou ser feita na coroa: parecia que o lugar daquela bala já estava preparado desde sempre.

Paulo Briguet é cronista e editor-chefe do BSM.