DITADURA ILUMINISTA

A liberdade que queremos e a Liberdade que precisamos

Evandro Pontes · 10 de Julho de 2020 às 14:00

Conservadores precisam entender que vivemos em uma tirania e na quase absoluta ausência de Liberdade: aos membros do STF, há anos, carece o cumprimento de muitas obrigações – não só jurídicas, mas éticas e morais

Um dos maiores desserviços causados à história da filosofia tem origem nos soi disant iluministas, hoje vulgarmente conhecidos como “liberais”: o trato dado ao conceito de liberdade polui não apenas o debate nacional como um todo, mas acima de tudo a compreensão do termo por parte de muitos conservadores.

Calhou aos iluministas, muita vez em termo confundido com “iluminados”, e que na verdade não passam pernilongos de holofote, a ideia de que a liberdade seria algo “inato” ao ser humano; enfim, um elemento constitutivo a priori no ser humano.

Não quero reabrir aqui uma peleja kantiana – não é esse o propósito do espaço.

Desde Platão, a questão do que o homem pode ou não pode fazer sponte propria ou sem submeter-se a última palavra de outrem foi tratada com muito mais seriedade do que naquele breve tempo dos mosquitos de holofote. A essa ideia que se convencionou chamar de “liberdade”, Platão opunha a necessária retidão moral, qual seja – só depois de fazer a sua parte e cumprir com as suas obrigações, é que o homem tem, por assim dizer, um resquício de decisão que pode tomar a respeito de coisas e casos, sem que dependa de qualquer outro para influenciar na sua decisão.

E isso vai desde a faculdade de se mover (vulgo, “direito de ir e vir”) até a possibilidade de dizer algo sem que precise pedir licença para quem que seja (o contrário disso se chama “censura”).

Note como a ideia em torno da liberdade é uma decorrência do cumprimento das obrigações. É assim no universo hoje convencionalmente tratado por “judaico-cristão”: é livre o homem que está em dia com a halachá (no caso dos judeus) ou que, (no caso dos cristãos), está com suas obrigações catequéticas intactas.

A regra é: está em dia com as obrigações? Se a resposta for “sim”, então você está livre; se a resposta for “não”, volte uma casa e faça a sua parte.

A ideia iluminista de liberdade não só atenta contra o ideal platônico de “liberdade” (tema que Platão nunca enfrentou diretamente), construído sobre leituras em sedimento de Aristóteles, Santo Agostinho, Santo Ambrósio, Santo Tomás e recentemente Voegelin e Olavo de Carvalho, mas sobretudo contra o conceito propriamente religioso de Liberdade: transformar o homem em ser dotado de certa liberdade como faculdade inata, simplesmente o desobriga dos deveres morais e éticos que são pressupostos da Liberdade. É o papo furado da metafísica dos costumes se tornando realidade atual.

Por meio dessa operação, os “iluministas” conseguiram incutir na cabeça de gente vulnerável, ideias simples como o conceito de que “se você é advertido por cometer heresia, a advertência em si seria uma forma de atentado contra a sua liberdade”. Nada mais falso: cumpra com a sua obrigação, depois fale.

Ninguém é punido por heresia por falar demais, mas sim por fazer de menos.

Eis aí porque os conservadores precisam entender que hoje, na acepção platônica (dê uma olhadinha na República a partir da linha 500 no Livro VII), vivemos em uma tirania e na quase absoluta ausência de Liberdade: aos membros do STF, há anos, carece o cumprimento de muitas obrigações – não só jurídicas, mas éticas e morais, item.

Não se trata de dizer que o progressista pode dizer algo que eu não posso; nem tampouco ao progressista afirmar que “vidas negras importam” e dai concluir que “estamos numa ditadura”. Isso é serviço mental de pernilongo de holofote (iluminista).

Importa saber se, na seara das obrigações, todos estão em dia com seus respectivos carnês do Baú da Felicidade.

E pelo visto, no STF há uns quatro ou cinco rodando o pião sem ter pago, nos últimos três ou quatro anos, um boleto sequer do respectivo carnê constitucional. A começar por gente que brinca com conceitos e inventa coisas estapafúrdias como o “abuso do poder religioso” (confundindo poder com obrigação, sabe-se lá se por burrice ou má-fé: eu, cá comigo, sempre acredito mais na infinitude da ignorância, tanto quanto na limitação para esculhambar as coisas por pura maldade).

Por isso é que a liberdade que muitos querem não é a Liberdade que todos precisam.

E a Liberdade que todos precisam, nem essa, anda presente no Brasil. O culpado: STF e quem deixa, exercendo Poder Constitucional, que ele distorça essa Liberdade necessária.

Ficou clara a razão pela qual precisamos reiterar diuturnamente por que vivemos hoje, no Brasil, em uma tirania?


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