TOTALITARISMO

A liberdade desconectada

Alexandre Costa · 14 de Abril de 2020 às 14:36

Com a crise do coronavírus, estamos vivenciando o resultado de todo um processo que, desde o início, teve a ambição de controlar a opinião pública e vigiar o comportamento das pessoas

No imaginário popular, a palavra totalitarismo costuma ser relacionada a regimes ditatoriais em que a liberdade só existe dentro de parâmetros muito restritos e, mesmo assim, apenas para aqueles que contribuem de alguma forma para a manutenção do poder. Regimes como o nazismo, o socialismo, o comunismo e o fascismo sempre apresentaram de forma clara e evidente as restrições aos direitos naturais e as limitações das liberdades individuais. A essência do totalitarismo, no entanto, pode existir em um simulacro de democracia, sem um aparato ostensivo de repressão, desde que use uma camuflagem cientificista revestida de boas intenções.

A liberdade de expressão, uma das bases da verdadeira democracia, sempre foi o maior obstáculo ao totalitarismo, e exatamente por isso costuma ser o alvo primordial dos totalitários, sejam aqueles que pretendem subjugar um povo colocando uma bota em seu pescoço, sejam os que se disfarçam de benfeitores e se apoiam em eufemismos para impor as regras que a população deve seguir. Em ambos os casos a mentalidade totalitária dá início à sua escalada criando limites para a livre manifestação. Melhor dizendo, omitir informações destoantes do discurso oficial e censurar opiniões contrárias são sempre os primeiros passos para o totalitarismo.

Os primeiros meses de 2020 entrarão para a história como um período sombrio. Não apenas pela pandemia que assolou o mundo e proporcionou uma crise generalizada, mas também porque mostrou que a mentalidade totalitária está enraizada em algumas camadas da sociedade. Desde o início do ano, intelectuais, artistas e jornalistas do mainstream desonraram suas posições ao se aliarem ao que existe de pior na política com o intuito de defender posições ideológicas ou partidárias.

Que políticos ambiciosos e burocratas busquem calar as vozes divergentes com o objetivo de ampliar o alcance do seu poder, nunca será uma surpresa. Que multidões de pessoas desinformadas passem não apenas a aceitar, mas a comemorar iniciativas que esmaguem seus direitos para controlar suas atitudes, também não é nenhuma novidade, pois o medo, instrumentalizado por objetivos inconfessáveis, tem a capacidade de alterar percepções e ativar um senso de sobrevivência que muitas vezes cega a análise dos desavisados. O que pode parecer surpreendente é ver a chamada classe pensante ajoelhar diante de atitudes totalitárias e, mais ainda, colaborar com elas. Foi usada a expressão “pode parecer” porque na verdade basta um recuo para entender, de fato, o que está acontecendo.

A pandemia chegou ao Brasil durante um governo odiado por essa casta acostumada a privilégios e ao protagonismo no debate público. Portanto, pretendem aproveitar tudo que possa prejudicar ou desgastar a administração atual, na esperança de um retorno àquilo que consideram “normalidade”. Para alcançar esse objetivo, estão dispostos a abandonar os princípios democráticos que juram defender e a distorcer os parâmetros que definem o que vem a ser liberdade.