RADAR DA MÍDIA

A grande mídia mentiu mais uma vez — mas não recebeu o selo de "fake news" das agências de checagem

Letícia Alves · 2 de Maio de 2021 às 12:33

Grandes jornais não só deturparam declaração do ministro Paulo Guedes como inventaram uma frase nunca dita para prejudicar sua reputação

A criação e ascenção das "agências de checagem" consolidou, ao menos no Brasil, a liberdade da grande mídia de mentir. Enquanto veículos conservadores são bloqueados das redes sociais e tachados de fake news por um ou outro erro — frequente no trabalho de apuração jornalística —, os jornais tradicionais inventam e distorcem à vontade. 

Há inúmeros exemplos de grandes mentiras todas as semanas. O BSM escolheu um caso para mostrar como é a mídia, e não as "tias do zap", a grande produtora de fake news no Brasil.

Na última terça-feira (27), uma declaração do ministro da Economia Paulo Guedes foi gravada em uma conversa informal com os ministros da Saúde, Marcelo Queiroga, e da Casa Civil, Luiz Eduardo Ramos, durante a reunião do Conselho da Saúde Suplementar (Consu). 

Na ocasião, Guedes contou um caso ocorrido com o filho do seu porteiro. As aspas foram divulgadas pelo jornal Estadão, que não disponibilizou o áudio. Sem saber que estava sendo gravado, o ministro disse, segundo o veículo: “O porteiro do meu prédio, uma vez, virou para mim e falou assim: 'Seu Paulo, eu estou muito preocupado'. O que houve? 'Meu filho passou na universidade privada'. Ué, mas está triste por quê? 'Ele tirou zero na prova. Tirou zero em todas as provas e eu recebi um negócio dizendo: parabéns, seu filho tirou...' Aí tinha um espaço para preencher, colocava 'zero'. Seu filho tirou zero. E acaba de se endereçar a nossa escola, estamos muito felizes”.

A manchete escolhida pelo jornal, e copiada pelos outros grandes veículos, foi a seguinte: Guedes diz que Fies bancou universidade até para "filho de porteiro que zerou o vestibular". Com aspas mesmo, como se a frase tivesse saído dessa maneira da boca do ministro. 

A declaração, que foi gravada sem que Guedes soubesse — e que não foi divulgada, diga-se de passagem —, não foi simplesmente deturpada; mais do que isso, o trecho em questão foi inventado. Simples assim, como se o jornalista fosse um escritor de ficção a construir o diálogo mais impactante de seu futuro romance best-seller.

Já sabendo o que encontraria, abri os sites da Agência Lupa (Folha de São Paulo), Fato ou Fake (G1) e Aos Fatos. Nada. Nenhuma menção à frase inventada. Isso porque os próprios veículos replicaram a manchete descarada, como se a mentira já fosse verdade incontestável. 

Sorte a de vocês que a jornalista que vos escreve já atuou em uma agência de checagem de notícias falsas e recebeu todo o treinamento para desmentir matérias como essa. Abaixo, enumero o que seria considerado pelos jornalistas dessas agências se elas fossem sérias:

1. A falta da gravação

Quando não se tem certeza da veracidade de uma declaração, o primeiro passo é buscar a fala na íntegra em vídeo ou áudio. Nesse caso, o jornal não disponibilizou a gravação, então seria necessário entrar em contato com o próprio ministro para que ele comprovasse a fala.

O jornal O Globo ligou para Guedes, que confirmou que conversou sobre o assunto, mas disse que não foi bem assim: "Eu dei um exemplo de uma caça-níqueis privada que aprovou alguém com média zero e possivelmente foi a base do Fies. Não tem nada a ver com filho de porteiro. O filho de porteiro foi um exemplo de uma pessoa humilde que me consultou preocupada com a qualidade da educação do filho". Aproveitamos esse esclarecimento para passar para o próximo ponto.

2. Análise gramatical

Digamos que o Estadão transcreveu a fala completa tal qual ela foi dita. Mesmo assim, há uma diferença monumental entre os significados das expressões "o filho do porteiro do meu prédio", dita por Guedes, e "filho de porteiro", usada na manchete.

No primeiro caso, temos a preposição "de" seguida do artigo definido "o". Seu uso traz a ideia de algo conhecido, que foi especificado: "O porteiro do meu prédio". Já o uso da preposição "de" sem a contração com o artigo traz o significado inverso, pois trata-se de algo generalista, que diz respeito a um grupo e não a alguém específico: o grupo dos filhos de porteiros. 

Sem mais delongas, enquanto "o filho do meu porteiro" tem nome e sobrenome e uma história individual — ele tirou zero e mesmo assim foi aprovado em uma universidade particular —, "filho de porteiro" tem o peso de estar se referindo a toda uma classe, como se todos os filhos de porteiro tirassem zero no vestibular e todos fossem aprovados em universidades mesmo assim.

Ora, se isso não é uma distorção clara da declaração de Guedes, o que mais seria? Foi exatamente essa a intenção dos jornais, transformar Guedes em alguém que não quer que os "filhos de porteiros", representando os menos favorecidos, ingressem no Ensino Superior. Aquela velha ladainha esquerdista de que a direita é composta por privilegiados que não gostam que as empregadas andem de avião e seus filhos ganhem um diploma. 

Ao ler a fala do ministro, no entanto, fica claro que ele estava usando um exemplo bem específico, provavelmente verdadeiro, para falar como o Fies pode estar sendo usado por algumas universidades privadas para lucrar sem a preocupação com a qualidade do processo seletivo. Não há uma generalização nem sobre os filhos de porteiros, nem sobre as universidades e nem mesmo sobre o Fies. 

Na agência de checagem onde eu trabalhei durante as eleições de 2018, nós classificaríamos essa matéria com o selo de "conteúdo enganoso". Ou seja, a declaração integral não foi completamente inventada, já que houve uma conversa nesse sentido que foi confirmada pelo ministro, mas as palavras foram tiradas de contexto e deturpadas de modo que seu significado sofreu alterações, com a intenção deliberada de causar danos (nesse caso, à imagem de Guedes e ao governo de Jair Bolsonaro). 

E assim concluímos o primeiro fact-checking do BSM


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