DIÁRIO DE UM CRONISTA

A Filha de Londres

Paulo Briguet · 16 de Setembro de 2020 às 11:33

Com seus personagens e dramas, correntes migratórias formaram a maior cidade do Norte Paranaense



O escocês Arthur caminhava pelas ruas de Londres quando encontrou Lord Lovat, com quem já havia trabalhado em empreendimentos no Sudão. O nobre financista perguntou ao amigo se ele estaria interessado em desenvolver projetos de colonização na América do Sul. Arthur aceitou o convite na hora – e a filha de Londres começava a nascer naquele momento.

George, um jovem paulista filho de ingleses, liderou a primeira caravana de pioneiros. Atravessaram o Rio Tibagi numa canoa e seguiram dentro da mata, usando uma trilha aberta pelos caboclos, talvez ainda no tempo dos aldeamentos católicos. Um guia caingangue estava junto com eles. Sempre observador, George percebeu que o índio conversava com os animais da floresta em voz baixa, chamando-os pelo nome. No final da tarde, o engenheiro russo Alexander gritou: “É aqui!”. Imediatamente, o português Alberto, mestre da carpintaria, deu a ordem para que os camaradas abrissem uma clareira. As árvores de palmito tinham duas utilidades: alimento e abrigo. As primeiras habitações do povoado, inicialmente chamado Três Bocas, eram todas de palmito. Era final de tarde, via-se um pôr-do-sol rubro. Aquele lugar hoje é chamado de Marco Zero.

Andrei e Natasha eram compatriotas de Alexander. No momento em que o engenheiro gritou “É aqui!”, eles estavam do outro lado do mundo – e só pensavam em fugir. A aflição do casal não era tanto o frio siberiano de 40 graus negativos, mas a crueldade do governo comunista. Foram embora a pé. Meses depois, chegaram às montanhas do Afeganistão. Para atravessar um rio, Natasha entregou ao barqueiro o único bem material da família: uma velha máquina de costura. Feitos prisioneiros por bandidos, foram obrigados a trabalhar como escravos numa jazida de ferro. Fugiram de novo. Guiados por uma força de vontade inexplicável, chegaram ao território de Bangladesh, na época uma possessão britânica. Trabalharam para a família de um coronel inglês, e por ele souberam de uma companhia que estava arregimentando colonos para tentar a vida na América do Sul. Depois de uma longa viagem de navio, Andrei e Natasha tomaram um trem e conheceram a “Filha de Londres”. “É aqui!” O primeiro filho brasileiro do casal nasceu em um rancho de palmito.

David tinha nove anos quando um tio, monsenhor da igreja cristã maronita, foi buscá-lo na aldeia libanesa de El Houssoun e levou-o para estudar em Nazaré, na Palestina. Ali, na cidade em que Jesus foi criado, David aprendeu comércio, filosofia, história, geografia, teologia, mitologia, aramaico, francês. Do tio, ganhou uma libra de ouro; do avô, um anel com o nome David. Trouxe esses dois objetos na bagagem quando veio para o Brasil. Em Jataí, cidade conhecida como Boca do Sertão, conheceu o escocês Arthur, que lhe fez uma proposta: montar um armazém de secos e molhados na nova cidade que estava sendo construída na outra margem do rio. David aceitou. Na casa do comerciante libanês foi celebrada a primeira missa da “Filha de Londres”. O anel e a libra de ouro estão até hoje com a família de David.

O alemão Alberto também abrira um pequeno ponto de comércio, abrigado em rancho de palmito. Numa viagem a São Paulo, encontrou o amigo Friedrich, gerente da empresa Siemens, deprimido por ter de fazer tantas demissões após a crise de 1929. Alberto disse ao amigo: “Vá para o mato, é melhor do que passar fome na cidade”. E Friedrich foi, trazendo a mulher Helena e a filha de dois anos, Freya. A beleza da mata fez Helena recordar as florestas alemãs de sua infância. Ela escreveu: “Nem cem cavalos me arrastam daqui, aqui eu quero morrer, em tanta beleza”. Certo dia começou a chover forte e as goteiras tomaram o rancho de palmito; Helena abriu um guarda-chuva sobre o berço de Freya. Jamile, a mulher de David, também se negava a desistir. Quando os irmãos lhe disseram que uma mulher jovem e educada não poderia viver em lugar tão inóspito, onde nem havia móveis dentro de casa, ela respondeu: “Se não houver móveis, a gente senta nos caixotes de querosene!”.

Quando os alemães se reuniram para escolher o nome do novo distrito que haviam criado, houve muita discussão. De repente, um negro chamado Arlindo, que convivia com os alemães e aprendera a falar o idioma deles, tomou a palavra: “Nós, alemães, precisamos ficar unidos. Por isso, este lugar se chamará Vale do Lar (Heimtal)”. E assim foi feito.

Também tinha pele escura a santa venerada pelos poloneses que formaram o Distrito da Warta, ao norte da “Filha de Londres”. Certa noite choveu tanto que até as caixas de fósforos ficaram molhadas. Eduardo teve que andar quilômetros a pé, por uma picada, até uma vendinha no Heimtal. Ao chegar em casa, acendeu o lampião – e uma vela para Nossa Senhora de Czestochowa, a Madona Negra. A escuridão da noite era quebrada pelas pequenas luzes da casa polonesa.

Celso nasceu no povoado de Tamaguelos e veio da Espanha com 18 anos. Em Santos, trabalhou como garçom no Parque Balneário Hotel. Enquanto servia, ouviu os clientes comentando sobre o Norte do Paraná e a “Filha de Londres”. Em 1930, veio para a região. Trabalhou duro e juntou dinheiro para comprar um caminhão Ford 1929, que depois transformou em um ônibus, apelidado de “Jardineira”. Era o início de uma grande companhia rodoviária. Nos anos 1960, viajou à Índia para trazer ao país matrizes da raça bovina zebu, numa luta obstinada para qualificar a pecuária nacional. Celso hoje dá nome a uma das rodovias que levam à “Filha de Londres”. A Jardineira virou um símbolo da cidade.

Tomi hoje é nome de praça. Com dois anos, ela chegou ao Porto de Santos com a família, a bordo do Kasato Maru. Foi a última remanescente do navio que trouxe os primeiros imigrantes japoneses ao país. Era o dia 18 de junho de 1908. Os japoneses viram os fogos da festa de São João e pensaram que os brasileiros estavam saudando a sua chegada. A maior parte daqueles imigrantes nipônicos foi para o interior de São Paulo e enfrentou condições terríveis nos primeiros tempos. Mas um homem chamado Hikoma, encantado com a qualidade das terras vermelhas do Norte do Paraná, começou a semear novas esperanças entre a colônia japonesa. Hikoma vestia terno e gravata e usava óculos de aros redondos; um capacete sáfari o protegia do sol; as botas de cano alto, da lama e da poeira. Na lataria de seu furgão, com o qual se locomovia para vender lotes da Companhia de Terras, ele se identificava como “o maior propagandista do Norte do Paraná”. Tornou-se um profeta da colonização japonesa. Muitos imigrantes acreditaram nele – e vieram para a “Filha de Londres”. Nunca se decepcionaram com Hikoma, mas aqui também viveram períodos difíceis, especialmente durante a Segunda Guerra Mundial, quando foram considerados inimigos pelo governo de Getúlio Vargas. O professor Shigheru Watanabe, fundador da escola japonesa local, chegou a ficar preso por três dias e teve a casa queimada por compatriotas que não aceitavam a derrota do Japão no conflito. O Kasato Maru, transformado em navio de guerra, naufragou no Mar de Bering em 9 de agosto de 1945. A colônia japonesa comemorou os 100 anos da imigração em 2008; houve uma grande festa na Praça Tomi.

José, de origem italiana, possuía grande habilidade com ferramentas de todos os tipos, mas sua grande paixão era a máquina fotográfica. Contratado pelos ingleses da Companhia de Terras, ele documentou todos os momentos importantes da cidade nos anos 1930 e 1940: inaugurações, festas, desfiles, construções, casamentos, encontros sociais, cenas urbanas, até derrubadas de árvores. Seu estúdio era de chão batido. A primeira foto para a Companhia de Terras mostra o salto do Rio Cambezinho, onde os ingleses pretendiam construir uma usina hidrelétrica. Nos anos 1950, José foi para a praça. Construiu a sua própria câmera e durante mais de duas décadas atuou como lambe-lambe, fazendo milhares de fotos de cidadãos comuns na mesma esquina próxima ao bosque. Ali será sempre o lugar de José.

Assim como a casa da Rua Hugo Cabral será sempre o endereço de Dr. Clímaco. Filho de um carpinteiro e uma dona de casa, ele nasceu em Santo Amaro da Purificação e formou-se em Medicina pela Universidade Federal da Bahia. Veio para Londrina a convite de um amigo, o advogado Milton Menezes. O mineiro Menezes só queria caçar macucos na “Filha de Londres” – acabou ficando e sendo prefeito duas vezes. Também envolvido com política (elegeu-se deputado estadual com grande votação), o “Doutor Preto”, como era carinhosamente chamado pelos pacientes mais humildes, atendeu mais de 30 mil pacientes (a maioria de graça), foi padrinho de centenas de crianças e ainda encontrava tempo para recitar clássicos gregos, poemas de Camões e sermões do Padre Vieira.

“Quereis fazer vossa independência em pouco tempo?”, perguntava o anúncio da Companhia de Terras, nos anos 1930. A propaganda do Novo Eldorado foi traduzida para diversas línguas e atraiu gente de todo o planeta. A esperança de vida nova oferecida por anúncios como aquele funcionou como linguagem universal e convenceu milhares de homens e mulheres a fazer o que parecia impossível: construir um lugar civilizado no meio do sertão. A floresta foi derrubada, o café teve a sua ascensão e queda, o êxodo rural provocou uma nova corrente migratória, mas a cidade encontrou forças para se reinventar naqueles que vieram de longe e se apaixonaram para sempre pela “Filha de Londres”. É como diz a letra do hino: “Londrina, cidade de braços abertos”.

Paulo Briguet é cronista e editor-chefe do BSM.


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