DRAGÃO VERMELHO

A verdadeira potência militar da China

Eduardo Meira · 15 de Outubro de 2020 às 19:04

Em dois artigos, o colunista Eduardo Meira faz uma análise sobre o Exército Popular da China e discute se o poderio militar do país comunista representa uma ameaça ao mundo

Esta matéria será dividida em duas partes. Na primeira, nós do BSM apresentaremos o assunto de forma didática, de modo que os leigos no assunto conseguirão ter uma noção das forças e equipamentos que compõem o sistema militar chinês. Na segunda parte, faremos uma análise comparativa, realística e responsável sobre a posição do poderio bélico chinês no planeta e, dentro dos limites possíveis, responderemos se a China representa de fato uma ameaça ao mundo democrático.

Desde a posse de Xi Jinping, em 2013, os desfiles militares na China passaram a ter uma pompa jamais antes exibida por aquele país. Na avenida que contorna a Tian’anmen (Praça da Paz Celestial), blindados pesados, lançadores de mísseis, ogivas nucleares e milhares de soldados em perfeita sincronia dão o tom de uma nova China. “Nenhuma força pode impedir o avanço da China” bradou Jinping, entusiasmado, no mesmo discurso de comemoração dos 70 anos da revolução comunista chinesa, em que declarou que a China será a primeira potência militar em termos culturais, financeiros e bélicos em 2050.  Comemorações exacerbadas, jornais fazendo referência às invasões japonesas, cidadãos postando desafios ao Japão e aos japoneses nas redes sociais e alguns, mais entusiasmados, chamando os EUA “para a porrada”.

Mas já seria mesmo a China uma ameaça militar à OTAN? E em 2050, como estará esta força?

A China chama suas forças armadas de Exército de Libertação Popular (人民解放军 - Rénmín jiěfàngjūn), que é composto por Forças Terrestres, Força Aérea, Marinha, Força de Foguetes e Força de Apoio Estratégico. Contando com dois milhões e trezentos mil militares, é a maior força militar do mundo ― em número de soldados ― e possui o segundo maior orçamento do planeta (U$ 261 bilhões em 2019). Seu brasão é uma estrela cravada em um fundo vermelho, com a inscrição “八一”( Bāyī ), que significa “Oito Um”, fazendo referência ao dia 1° de agosto de 1927, quando o exército foi criado por Mao Zedong, na cidade de Nanshang.


Forças Terrestres

A China era, até 2015, um país que investia precipuamente em suas forças terrestres. Não para menos, tais forças chegaram a ter mais de um milhão e seiscentos mil soldados, quase mil aeronaves e uma força notável de blindados, obuseiros, veículos de transporte e demais elementos. A finalidade era uma defesa forte e consistente contra ameaças ― principalmente as internas. Hoje em dia, após a reestruturação de 2015, as Forças Terrestres contam com pouco mais de um milhão e trezentos mil soldados.

É comum naquele país que, em média, de quatro em quatro anos, uma reforma profunda ocorra nas forças armadas. Trata-se de um esforço do Partido Comunista Chinês de não deixar alguém superpoderoso e manter as forças armadas sob o jugo do partido, para eliminar quaisquer possibilidades de golpes militares. Cargos altos simplesmente desaparecem. Generais são encostados ou isolados e novos nomes, fiéis ao governo, são simplesmente colocados lá. Não há transparência, como nas democracias ocidentais que oficializam publicamente seus líderes militares.

Em 2015 foram inseridos novos nomes nas forças militares e mudanças importantes aconteceram na estruturação política, logística e de doutrinação militar. As sedes das diferentes forças, que eram divididas em espécies de ministérios – assim como acontece no Brasil – passaram a funcionar de forma unificada, dividindo planos, estratégias e políticas. A China deixa de ser um país focado na defesa e passa a ter uma mentalidade mais agressiva.

A espinha dorsal das Forças Terrestres são os tanques blindados “Tipo 99”, muito modernos e com cerca de oitocentas unidades...