DIÁRIO DE UM CRONISTA

A cerveja fora-da-lei

Paulo Briguet · 11 de Setembro de 2020 às 17:35

Com dor no coração, recebi a notícia de que a minha cidade vai adotar a lei seca por causa do vírus chinês

“Fiz dieta: nada de bebida, nada de sexo, nada de carne. Em duas semanas, perdi 14 dias.”
(Tim Maia)

 

Sempre foi fácil reconhecer um londrinense: é aquele cara que conhece você agora e meia hora já está te chamando para um churrasco. Percebi essa índole acolhedora do pés-vermelhos, talvez explicada pelas circunstâncias em que a cidade se formou há 91 anos — uma clareira aberta no meio da mata —, logo que cheguei por aqui, em 1989. Não por acaso, a primeira que me aconteceu na cidade foi justamente me convidarem para um churrasco, com muita cerveja.

Por isso, foi com dor no coração que recebi a notícia de que o prefeito Marcelo Belinati decretou a lei seca na cidade por 14 dias. Durante esse período, cerca de 400 bares da cidade simplesmente terão que fechar as portas, inclusive a minha querida Toca do Bode, um dos lugares mais simpáticos da cidade. Hoje não poderei tomar uma cerveja na Toca com meu amigo Gabriel Giannattasio. É Drury’s, campari as coisas...

O motivo da lei seca, claro, é a pandemia de Covid-19. Nos últimos meses, prefeitos e governadores usaram o vírus chinês como pretexto para os maiores absurdos: do cerceamento de liberdades à destruição da economia; da cobrança de multas extorsivas à prisão de cidadãos pelo crime de passear na praia; dos respiradores superfaturados à obrigatoriedade da vacina chinesa. Conheço Marcelo há 30 anos — ele ia sempre aos churrascos da minha república — e estou certo de que ele não usou a epidemia para roubar ou perseguir as pessoas; sei também que ele não deseja nada de mau para a cidade. Mas essa lei seca, sinceramente... Passou da conta.

Admitamos que os casos de Covid-19 na cidade deram um salto nos últimos dias. Mas quem pode garantir que essas pessoas não seriam infectadas mesmo com os bares e restaurantes fechados? Por que o município não adota maciçamente o tratamento precoce com hidroxicloroquina, que diminui drasticamente o número de internações hospitalares e mortes, conforme já demonstraram inúmeros estudos científicos?

Essa lei seca tem um agravante: além de fechar os bares, ela proíbe comemorações, festas ou qualquer outro tipo de evento. Isso abre a possibilidade — ou, pior, a probabilidade — de que os fiscais da prefeitura se julguem autorizados a interferir em ambientes privados, ou seja, em nossas casas. Chegará o dia em que o convite para um churrasco será equiparado ao crime de formação de quadrilha? Se é assim, eu sou um criminoso, um inimigo público, um caso de polícia.

Agora vocês me dão licença, que sem uma cerveja não dá pra levar esse 2020. Saúde!

Paulo Briguet é cronista e editor-chefe do BSM.


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