DITADURA SANITÁRIA

A banalidade do mal no Brasil

Especial para o BSM · 18 de Abril de 2021 às 10:55

O país se tornou um campo de treinamento da Gestapo tupiniquim, uma escola de formação de pequenos tiranos ocupados em fazer o mal às pessoas comuns

 

Roberto Motta
Especial para o BSM

 

É difícil conter a raiva ao assistir vídeos de guardas agredindo ambulantes.

É difícil conter a náusea diante das imagens de fiscais multando estabelecimentos comerciais.

Era uma crise de saúde. Foi transformada, por inépcia, incompetência e ideologia de governadores, prefeitos, legisladores e magistrados, em um desastre econômico e social.

Enquanto isso, nas 1.400 favelas do Rio não existe presença do Estado.

Lá sempre valeu tudo.

Os guardas não vão lá, claro.

Favelas são defendidas com armas, e ― mais importante ― são produtoras de votos.

MUITOS votos.

É assim que caminha a política do Rio: sempre perigosamente equilibrada entre o populismo, a corrupção, o crime e ― agora ― a tirania.

Sempre rumo ao abismo.

Voltemos aos vídeos: a fiscal diz que vai multar.

A dona da birosca ― uma cidadã comum, sem nenhum esquema ― pede: “Por favor, não faça isso”.

A fiscal diz: “Não é nada pessoal”.

Então: é isso.

Vamos transformar o país em um amontoado de gente apavorada, pobre e faminta.

Mas não é nada pessoal.

Hannah Arendt, em seu livro Eichmann em Jerusalém, fala da “banalidade do mal” ― o mal monstruoso que acontece como resultado da ação de milhares de funcionários que “só estão cumprindo ordens”.

O guarda municipal de Santos para o ciclista e pergunta: “O senhor está indo pra onde?”. A resposta não o satisfaz. O cidadão será multado.

Em alguma cidade paulista, uma fiscal – arrumada e maquiada – chega em uma loja, cuja porta está meio fechada, e pergunta: “O senhor está funcionando?”. O dono nega. Não importa. Ela anuncia: “O senhor será autuado”.

Autuado por trabalhar em uma atividade lícita e legalizada, dando emprego a várias pessoas.

Em um restaurante, a mesma fiscal anuncia: “"Eu vou fazer uma autuação porque vocês estão com a porta aberta". O dono diz: “Abri a porta para colocar o lixo para fora, o restaurante está vazio”.

A fiscal responde: “Você poderia ter aberto só uma meia porta”.

É isso o que o Brasil se tornou: um campo de treinamento da Gestapo tupiniquim, uma escola de formação de pequenos tiranos ocupados em banalizar o mal.

Esse é o legado da pandemia para muitos brasileiros: um aprendizado de medo e subserviência, um estágio preliminar antes que sejam escancaradas as portas da desesperança, da falência, do desemprego, da fome e do desespero.

Nada disso é por acaso.

Nada disso vai ficar impune.

Roberto Motta é engenheiro, executivo, autor de 3 livros, suplente de deputado federal e de vereador, ex-consultor do Banco Mundial e ex-secretário de Estado.


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