CENTENÁRIO MODERNISTA

1922: Os príncipes que viraram sapos

Fábio Gonçalves · 23 de Fevereiro de 2022 às 15:49

Além da propaganda, o que restou da vanguarda centenária que começou no apartamento de Oswald de Andrade na Rua Líbero Badaró?




Terminei o último texto apelando a uma distinção entre o Modernismo e a Semana de Arte Moderna, asseverando que o movimento, que tinha suas razões de ser, nada ficou devendo ao aclamado incidente paulistano. Partamos daí.

A ideia de militar por um modernismo brasileiro — como se ele já não existisse — começou a ser bolada na garçonnière do Oswald na Rua Líbero Badaró. Era ali onde o bon-vivant curtia amores com a sua Miss Cyclone e — mais importante — tertuliava com outros amigos de letras e de artes como Monteiro Lobato, Guilherme de Almeida e Menotti Del Picchia.

Datam de 1917 e 1918 esses encontros. Nas ocasiões, os circunstantes debatiam questões literárias e registravam suas impressões num livro coletivo chamado O Perfeito Cozinheiro das Almas desse Mundo, título que talvez antecipasse o antropofagismo oswaldiano.  Mas nem esse livro pode se arrogar o Gênesis da religião modernista nacional — religião que tem como levitas os doutores da USP e como rabinos os professores dos cursinhos.

Em 1913, Lasar Segall, vindo da Alemanha, trouxera para cá uma exposição avant garde, com o tom expressionista de Dresden. Entre os fins de 17 e 18, Anita Malfatti levou à mesma Rua Libero Badaró, com os patrocínios de um bacana, seus quadros também expressionistas pintados desde 1915.  

Aliás, peço licença para lhes cortar a linha de raciocínio e meter aqui uma nota: essa exposição da Malfatti motivou Monteiro Lobato a escrever um dos textos mais duros — e correto sob quase todos os aspectos —, não digo contra o modernismo enquanto tal, mas contra certas tendências mais espalhafatosas do movimento. Paranoia ou Mistificação?, publicado n’O Estado de São Paulo, foi talvez a mais emblemática objeção pública, de um grande artista, àquelas tendências estrambóticas que iam ganhando o coração dos jovens ricos e entediados da tal Paulicéia Desvairada.

Resumo do resumo, Lobato explica à Malfatti que seus quadros só podiam ser expressão de uma mente dodói e, em tom paternal, aconselha a moça, que julgava talentosa, a largar aquela pueril azáfama da novidade, que só produz efemeridades, e se voltar aos “processos clássicos”, que sempre nos renderam artistas imortais. Por fim, jura ele, com sinceridade quase misantrópica, que ninguém estava achando graça e beleza na Estudante Russa, no Japonês e no Amarelo; que, pelas costas, todos cochichavam, entre risinhos maliciosos, o que só ele tinha coragem de lhe escancarar. Vale muito a leitura.

O fato é que o sacerdócio da Badaró não batizou o modernismo tupiniquim nas águas do Anhangabaú.

Para ficar com um exemplo na literatura, vemos no já mencionado Manuel Bandeira poemas de timbre moderno datados de 1912, como o Paisagem Noturna, que consta em A Cinza das Horas:

A sombra imensa, a noite infinita enche o vale . . .
E lá do fundo vem a voz
Humilde e lamentosa
Dos pássaros da treva. Em nós,
— Em noss’alma criminosa,
O pavor se insinua . . .
Um carneiro bale.
Ouvem-se pios funerais.
Um como grande e doloroso arquejo
Corta a amplidão que a amplidão continua . . .
E cadentes, metálicos, pontuais,
Os tanoeiros do brejo,
— Os vigias da noite silenciosa,
Malham nos aguaçais.

Ainda antes da quizomba do Municipal, o mesmo Bandeira, em 18, escrevera Os Sapos, clássico da sátira moderna aos parnasianos:

[…]

O sapo-tanoeiro,
Parnasiano aguado,
Diz: — "Meu cancioneiro
É bem martelado.

Vede como primo
Em comer os hiatos!
Que arte! E nunca rimo
Os termos cognatos!

O meu verso é bom
Frumento sem joio
Faço rimas com
Consoantes de apoio.

Vai por cinquenta anos
Que lhes dei a norma:
Reduzi sem danos
A formas a forma.
 

Mas, se já uma década antes havia expressões espontâneas de modernismo no Brasil, por que a tal Semana?

Já velho, Menotti Del Picchia, uma das pessoas da trindade Badaró, deixa claro em entrevista à TV Cultura, nos anos 70, que ele e seus colegas imaginavam estar conduzindo napoleonicamente uma revolução nas artes, no pensamento e mesmo na política do país. E ele, oitentão, falava das tramoias pré-22 — como se houvessem logrado sucesso absoluto — com a excitação do peralta que se orgulha de ter posto tarraxas na cadeira da professorinha de letras iniciais.

E é aí que está: na base do movimento estava aquele deslumbramento juvenil pelo novo, aquela mesma tendência intrinsecamente humana que faz o adolescente amar o colega que o humilha e odiar os pais que lhe dão a comida do próprio prato. Porque o colega fala novo, veste novo, cheira novo. Os pais são o elo com o antigo, são nascidos em tempos sombrios, cheiram naftalina e ouvem bolero jogando dominó. Daí que o jovem se rebele; daí que a turma da Badaró quisesse fazer o barulho no Municipal. E assim fizeram, contando com o dinheiro levantado pelo burguês Paulo Prado junto de outros burgueses que deveriam ficar chocados com a arte dos garotos.

22 foi um ano tumultuado. O controverso Arthur Bernardes assumiu a presidência; estourou a Revolta no Forte de Copacabana, prenuncio do tenentismo que dominaria a política daquela década e levaria Vargas ao poder; houve a fundação do Partido Comunista, trazendo para as nossas cidades o espírito de cizânia e anarquia que já devastava a Europa e a Rússia.

Nesse bafafá, a turma do Oswald viu espaço para levar a termo o evento planejado nos anos anteriores. Pois deram jeito de alugar o Theatro Municipal e nos dias 13, 15 e 17 de fevereiro levaram para lá suas pinturas, músicas e poesias. Passaram por ali, além da trindade Mário-Oswald-Picchia, Brecheret, autor do Monumento às Bandeiras — obra moderna que os modernos de hoje vira e mexe tentam destruir, chamando-a retrógrada —; o pintor Sérgio Millet; Graça Aranha, escritor das antigas que resolveu patronizar os moços rebeldes; os poetas Guilherme de Almeida e Ronald de Carvalho; Heitor Villa-Lobos, de longe o mais bem sucedido artista daquela turma.

A traquinagem chegou ao efeito desejado. Segundo narra a crônica da época, o público ficou furioso, vaiou, mandou aos diabos, ameaçou descer o cacete nos petulantes. Eis a glória dos jacobinos. O serem vítimas dessa rejeição violenta e intransigente levou os próceres da Semana às páginas de jornais e às rodas de discussões. Por isso os pais não devem bater nos filhos adolescentes indômitos: a palmada é motor da rebeldia.  Os apupos da Semana fizeram ecoar a voz dos amotinados, até hoje. A reação foi o grande motivo do marketing que doravante fez do evento seus apologistas acadêmicos.

Há então que bifurcar mais uma vez: temos o evento e suas consequências; temos o proselitismo da FFLCH.

Vejamos os efeitos práticos:

Em São Paulo tivemos alguns seguidores menos expressivos da proposta oswaldiana, como o bom contista Antônio de Alcântara Machado. Cassiano Ricardo guinou ao modernismo nacionalista da vertente de Plínio Salgado. Guilherme de Almeida, um dos mais empolgados semanistas, quando mais velho, segundo Antônio Cândido, “retornou a processos mais ortodoxos, apurando o instrumento com senso cada vez mais clássico...”. Mário e Oswald deixaram seus experimentos, coisas que dificilmente alguém hoje lê por esporte — é o vestibular que dá sobrevida ao Macunaíma de um e aos Manifestos do outro. A estética do grupo — que, é verdade, não era uniforme, mas partia de certos princípios — não vingou.

Afinal, o que devem a eles os modernistas do nordeste, seja o grupo de Gilberto Freyre, José Lins do Rego, Raquel de Queiroz e Jorge de Lima, que veio depois se juntar ao mineiro Murilo Mendes? O que deve o Graciliano Ramos? O que devem a eles os cariocas, uma Cecília, um Vinícius, um Schmidt? O que devem os mineiros, de onde saiu o Carlos Drummond de Andrade? O deve a eles o gaúcho Érico Veríssimo? O que lhes deve o Guimarães, já de outra época?

Ficou, como bem disse o escritor Alexandre Soares Silva em entrevista recente, a propaganda, propaganda feita, digo eu, com o eco das vaias daquele infeliz fevereiro. E se essa propaganda exerce alguma influência, ainda hoje, é à força da exegese conservadora do sacerdócio acadêmico e da pregação apelativa do ministério secundarista.  Aos sacerdotes e ministros, aliás, fica a pergunta: esgotadas as formas de se perverter a morfologia e a sintaxe, explorados todos os temas da epopeica vida de um jovenzinho urbano de apartamento, usados todos os palavrões, em todos os metros e tons, o que mais resta a essa vanguarda centenária?

 


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